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Velha inimiga: por que a tuberculose ainda não é uma doença do passado

O Brasil e o mundo não conseguiram domar a moléstia, que mobilizou até o escritor best-seller John Green em seu novo livro

Por André Bernardo e Diogo Sponchiato
22 fev 2026, 08h00 • Atualizado em 22 fev 2026, 08h19
  • Dono de um currículo com mais de 50 milhões de livros vendidos pelo planeta, John Green, o autor de A Culpa É das Estrelas e de outros sucessos editoriais, decidiu abraçar um tema pouco popular em sua mais nova obra. Depois de viajar para Serra Leoa, na África, o escritor americano conheceu de perto as vítimas daquela que pode ser a doença mais antiga de que a humanidade tem notícia. Uma moléstia que não é uma página virada na história. Diante de uma causa que não podia ser ignorada, Green se dedicou a produzir um livro-reportagem sobre o passado e o presente da moléstia transmitida por bactérias que continua a assombrar o mundo. O resultado desse trabalho, lançado neste mês, está em Tudo É Tuberculose (Editora Intrínseca), cujas páginas falam de uma infecção com mais de 10 milhões de casos globais e ao menos 1,2 milhão de mortes por ano. O Brasil, que supera 85 000 novos episódios anuais, contribui para essa triste estatística: estamos inclusive longe de bater a meta de controle estipulada pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

    O primeiro registro da tuberculose, oriundo de pesquisas arqueológicas, data de 70000 a.C., e, ao longo dos séculos, o problema causado pelo microrganismo Mycobacterium tuberculosis — batizado de bacilo de Koch em referência ao cientista alemão que o descobriu, no século XIX — impôs a construção de sanatórios e derrubou anônimos e famosos. O imperador dom Pedro I e o escritor tcheco Franz Kafka são apenas dois conhecidos de uma enorme lista. A medicina conseguiu criar uma vacina contra formas graves da doença, a BCG, aplicada em recém-nascidos, e um regime de tratamento capaz de curá-la. Ainda assim, a infecção está aí, pegando carona na desigualdade social. “Neste ano, milhares de médicos atenderão milhões de pacientes com tuberculose. Eles serão incapazes de salvar seus pacientes pois a cura está onde a doença não está, e a doença está onde a cura não está”, escreve Green. “Sabemos como viver em um mundo sem tuberculose. No entanto, optamos por não viver nele”, critica.

    PARTE DA HISTÓRIA - Sanatório turco no início do século XX: desafio antigo
    PARTE DA HISTÓRIA - Sanatório turco no início do século XX: desafio antigo (UH Archive/UIG/Getty Images)

    O autor best-seller se deparou com o suplício imposto pela doença ao visitar, em 2019, um hospital público em Serra Leoa. Ali conheceu Henry Reider, um paciente de 17 anos que, devido à infecção e à desnutrição, aparentava ter 9. O jovem, que viria a ser um dos protagonistas do livro, estava internado para tratar uma tuberculose multirresistente. Quando ele começou a adoecer, os médicos lhe receitaram o tratamento padrão e eficaz à base de antibióticos. Mas seu pai suspendeu por conta própria a medicação achando que ela não fazia efeito — julgava ser melhor partir para rezas e chás. Henry, claro, piorou. O adolescente, que teve os primeiros sintomas da doença (tosse, dores e cansaço extremo) aos 6 anos, foi hospitalizado em estado grave. E, em 2020, perdeu seu melhor amigo e colega de quarto para a doença. “Algo me dizia: ‘Você é o próximo!’ ”, pensava naquela época.

    Seu caso não é uma exceção. E dialoga inclusive com a realidade brasileira. A bactéria da tuberculose é transmitida por gotículas expelidas no ar e encontra terreno propício para se multiplicar quando a imunidade está baixa ou o indivíduo se encontra desnutrido ou com doenças prévias. Não à toa, pessoas em situação de vulnerabilidade social são mais propensas a contraí-la — embora a renda não seja um escudo por si só. Calcula-se que 30% da população brasileira carregue o bacilo, mas menos de 10% desenvolvem a forma ativa da moléstia, que, em geral, ataca os pulmões — daí a tosse e a falta de fôlego persistentes. “Há dois desafios hoje: a falta de diagnóstico precoce e o abandono do tratamento”, diz a infectologista Rosana Richtmann, do Instituto Emílio Ribas, em São Paulo. Enquanto algumas pessoas nem sequer sabem que estão infectadas, outras largam os antibióticos nas primeiras semanas de melhora — e o regime terapêutico exige, no mínimo, seis meses. Tudo isso, somado à pobreza e à carência de acesso à assistência médica, contribui para que países como o Brasil não atinjam as metas da OMS.

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    SOBREVIVENTE - Henry Reider: personagem real do livro de John Green
    SOBREVIVENTE - Henry Reider: personagem real do livro de John Green (./Arquivo pessoal)

    O plano da entidade para erradicar a tuberculose, estabelecido em 2014, prevê redução de 90% nas mortes e de 80% na incidência. Se há doze anos tínhamos por aqui ao redor de 70 000 casos e 4 000 mortes, hoje são mais de 85 000 doentes e 6 000 óbitos, uma situação alarmante, que piorou desde a pandemia de covid. Continuando nesse ritmo, apesar dos esforços do governo, não cumpriremos o acordo da OMS nem em 2030. Um estudo da Fiocruz prevê que a taxa de incidência no país em quatro anos será de 42 casos por 100 000 habitantes, sendo que o índice preconizado é de até seis casos a cada 100 000. “Se o Brasil quiser acabar com a tuberculose, precisa combinar política social, atenção primária e execução das estratégias que já existem, especialmente nas populações vulneráveis”, diz o médico Bruno Bezerril, autor da pesquisa. Combater a desigualdade é o que também pode assegurar avanços palpáveis em Serra Leoa e outras nações africanas.

    Depois de três anos hospitalizado, Henry Reider, o personagem real do livro de John Green, recebeu alta. Comprou uma casa modesta, onde vive com a mãe, entrou para a universidade e, hoje aos 24 anos, também é um ativista. Grava vídeos no YouTube e luta para ajudar outras vítimas da tuberculose e minimizar o estigma que elas ainda carregam. “Sobreviver depende de três fatores: manter o foco no tratamento, seguir as orientações médicas e não desanimar nunca”, afirma. Um plano de ação e esperança para debelar uma das chagas mais mortais e antigas da história da humanidade.

    Publicado em VEJA de 20 de fevereiro de 2026, edição nº 2983

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