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Um novo olhar: as pesquisas que revolucionam o tratamento de doenças que levam à cegueira

Se por um lado é legítimo e animador assistir a esse desfile de inovações, por outro um cuidado permanece clássico: o diagnóstico precoce

Por Victória Ribeiro Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 30 jan 2026, 06h00 • Atualizado em 30 jan 2026, 11h50
  • Diagnosticado com catarata em 1912, aos 72 anos, o pintor francês Claude Monet (1840-1926) já não enxergava com nitidez o mundo que havia consagrado sua obra. As cores de seus jardins tornaram-se mais densas, amareladas, quase turvas — não por escolha estética, mas porque seus olhos já não funcionavam como antes. “Minha visão ruim fazia com que eu visse tudo através de uma névoa”, descreveu o artista, que perdeu quase totalmente a visão do lado direito. No início do século XX, essa era uma sentença definitiva. Hoje, o horizonte do “pai do impressionismo” seria outro. Uma cirurgia de catarata — a principal causa reversível de cegueira no mundo — dura de quinze a trinta minutos, e o paciente vai para casa no mesmo dia, recuperando a vista em semanas. Mas outras doenças oculares, algumas delas mais frequentes com o envelhecimento da população, continuam impondo desafios à medicina. E é diante dessas situações, capazes de deixar a vida no escuro, que os cientistas exibem iniciativas revolucionárias. De terapias baseadas em células-tronco e genes a implantes e olhos biônicos, a missão é uma só: recuperar, entre pessoas praticamente cegas, a capacidade de enxergar luzes, cores e até letras.

    arte cegueira

    Um dos exemplos mais instigantes dessa nova fase da oftalmologia é um implante instalado no fundo do olho e conectado a um óculos dotado de uma câmera. Ele foi testado com sucesso entre pessoas com degeneração macular relacionada à idade, doença mais comum após os 50 anos e que afeta cerca de 200 milhões de pessoas pelo planeta. O dispositivo é um chip minúsculo, com cerca de 2 milímetros, implantado na retina em uma microcirurgia. Ele funciona como um atalho: “pula” as células danificadas responsáveis por transformar luz em sinais nervosos e envia os estímulos, captados pela câmera, diretamente ao cérebro. Em um estudo publicado no renomado periódico The New England Journal of Medicine, 32 pacientes que completaram um ano de uso apresentaram melhora significativa da visão. Eles não enxergam em alta definição, mas houve um ganho médio na ordem de 25 letras visualizadas naquela tabela utilizada nas consultas oftalmológicas. “Isso equivale a cerca de 5% de uma visão considerada normal, o que já é bastante relevante para quem tem atrofia na retina”, diz o oftalmologista Gustavo Gameiro, pesquisador da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). A expectativa é que o sistema, em fase de lapidação, seja aprovado para chegar aos mercados europeu e americano ainda em 2026.

    CUIDADO - No consultório: detecção precoce de problemas ajuda nos tratamentos
    CUIDADO - No consultório: detecção precoce de problemas ajuda nos tratamentos (Gilaxia/Getty Images)

    Enquanto esse ramo da biotecnologia avança, outra fronteira científica expande terreno: a terapia gênica. A ideia é relativamente simples de explicar, embora complexa de executar: corrigir genes defeituosos por meio da introdução de cópias saudáveis. No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) já aprovou o primeiro tratamento do gênero para distrofias hereditárias da retina associadas a mutações genéticas, desenvolvido pela farmacêutica Novartis. Na prática, trata-se de uma única injeção diretamente na retina para impedir o colapso da visão. Nesse campo, aliás, o Brasil ocupa posição estratégica. Na Unifesp, pesquisas com terapia gênica para doenças da retina são estudadas há pelo menos quinze anos. “Somos um dos países que mais acompanham pacientes com doenças hereditárias da retina e desenvolvem protocolos de tratamento”, diz o oftalmologista Paulo Schor, professor da instituição e gestor de pesquisa em inovação. “Não são terapias milagrosas, mas funcionam para doenças mais raras.” O ganho, segundo Schor, pode parecer modesto para quem acompanha de fora, mas é clinicamente decisivo. “Não dá para voltar a enxergar normalmente, mas é possível ganhar autonomia em situações que não dispõem de outro tratamento”, diz.

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    A empolgação, com um bom pé no chão, também cerca os experimentos com células-tronco. Ao longo dos anos, esse tipo de intervenção ganhou fama quase salvacionista. E a ideia também chegou à oftalmologia. Mas, nesse caso, em vez de regenerar órgãos, as células-tronco são empregadas numa espécie de curativo biológico, capaz de reparar a superfície ocular em casos de queimaduras químicas e lesões extensas que comprometem a visão. “Na nossa área, a terapia celular atua por ora mais como base de reparo do que como uma solução definitiva”, afirma Schor.

    arte cegueira

    Enquanto a retina, o tecido no fundo do olho que capta aquilo que vai ser lido como imagem pelo cérebro, concentra as apostas mais disruptivas, as inovações para a porção mais à frente no olho prosperam a passos largos. Em breve, a medicina poderá contar com córneas artificiais. O transplante dessa membrana protetora do olho, lesada em acidentes, infecções ou outras doenças, é um dos procedimentos mais bem-sucedidos na oftalmologia, com mais de 17 000 procedimentos por ano só no Brasil. O entrave é o acesso: estima-se que, no mundo, para cada setenta pessoas que precisam de uma nova córnea, apenas uma consegue através de um doador. Daí a ideia de desenvolver uma versão desse tecido feita em impressora 3D. Recentemente, médicos israelenses realizaram o primeiro transplante de uma córnea bioimpressa, combinando células humanas e materiais de sustentação para criar uma estrutura que imitasse, o máximo possível, a membrana natural. A voluntária, de 70 anos, recuperou a visão no olho operado. O caso integra um estudo-piloto com dez a quinze pacientes para avaliar a segurança, a integração do implante e o ganho visual. “Um dos principais pontos de atenção será a resposta do organismo”, diz o oftalmologista Luiz Brito, do H.Olhos, da Rede Vision One. Como o tecido bioimpresso tem características próprias, o corpo pode reagir de forma diferente do que ocorre com a córnea doada, exigindo ajustes nos medicamentos para evitar rejeição.

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    CORREÇÃO NO DNA - Terapia gênica: Brasil já tem uma aprovada e diversas linhas de pesquisa
    CORREÇÃO NO DNA - Terapia gênica: Brasil já tem uma aprovada e diversas linhas de pesquisa (Natali Mis/Getty Images)

    No extremo mais futurista desse panteão de invenções aparecem os chamados olhos biônicos. Até o bilionário Elon Musk entrou na história. Uma de suas empresas, a Neuralink, anunciou o Blindsight, um dispositivo que usa uma câmera para captar imagens e transmiti-las diretamente ao cérebro por meio de um implante neural. Não é a primeira tentativa — iniciativas semelhantes já fracassaram por problemas de compatibilidade. A engenharia existe, mas integrar tudo isso ao sistema visual humano continua sendo um desafio enorme. A ver se rios de investimento se materializarão em um equipamento viável e acessível.

    O progresso na engenharia biomédica é, de fato, inegável, mas não apresenta uma saída universal. Ou seja, não pode mitigar ou curar qualquer caso de cegueira. “Por enquanto essas soluções têm indicações muito específicas e resultados variáveis”, pondera o oftalmologista Claudio Lottenberg, colunista de VEJA. “Mesmo quando funcionam, costumam ser caras e exigir uma infraestrutura especializada e complexa.” Enquanto os holofotes se voltam para as invenções high-tech, os maiores ganhos para a população continuam vindo de avanços menos vistosos, porém extremamente assertivos e replicáveis em larga escala. E a própria cirurgia de catarata, hoje feita a laser, é um bom exemplo. “Talvez não seja tão ‘sexy’ como genes ou chips, mas é extremamente efetiva”, afirma Schor. Até mesmo os transplantes de córnea convencionais evoluíram: agora, em vez de substituir todo o tecido, os médicos trocam apenas certas camadas, ampliando os índices de êxito e minimizando o risco de rejeição.

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    IMPLANTE - Chip, óculos e câmera: dispositivo permite recuperar parte da visão
    IMPLANTE - Chip, óculos e câmera: dispositivo permite recuperar parte da visão (Jim Watson/AFP)

    Soma-se a isso uma mudança conceitual que começa a ser adotada globalmente, sobretudo em países europeus: a chamada interceptação da doença. Em vez de esperar que a catarata provoque uma queda acentuada da visão, muitos pacientes são operados mais cedo, ao primeiro sinal de impacto funcional — como dificuldade para dirigir à noite. “As técnicas estão tão seguras e previsíveis que faz sentido intervir antes”, avalia Schor. Se por um lado é legítimo e animador assistir a esse desfile de inovações — umas tão ousadas como implantes biônicos e terapias gênicas —, por outro um cuidado permanece clássico. “O maior ganho ainda vem do diagnóstico precoce e do tratamento no tempo certo”, ressalta Lottenberg. A ideia já fazia sentido na época de Monet, mas agora há ferramentas para devolver a luz à visão.

    Publicado em VEJA de 30 de janeiro de 2026, edição nº 2980

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