Oferta Dia dos Pais: Receba 4 Revistas em casa por 32,90

Tráfico de pessoas também é uma questão de saúde pública

No Dia Mundial de Combate ao Tráfico de Pessoas, representantes de organização de combate a esse crime expõem a dimensão do problema

Por Marcella Cardoso, Mona Lisa Dourado e Hanni Stoklosa* 30 jul 2026, 09h00 | Atualizado em 30 jul 2026, 16h35
Tráfico de pessoas também é uma questão de saúde pública Priorizar nos meus resultados Google

A mensagem chegou pelo Instagram, prometendo emprego no exterior, salário atraente, passagem paga. Quando percebeu o que havia acontecido, seu passaporte já não estava mais com ela.

Entre o que parecia uma oportunidade de ouro e a prisão, quase nada soava suspeito. A proposta vinha em linguagem profissional e sugeria uma possibilidade de recomeço. Enquanto sonha com um futuro melhor, a vítima raramente se dá conta de que está embarcando na rota do tráfico humano.

É exatamente por isso que o crime avança.

À primeira vista, parece uma oportunidade única de melhorar de vida. Para dezenas de brasileiros, no entanto, esse convite foi o começo de um pesadelo, que incluiu retenção de documentos, cárcere privado, ameaças e trabalho forçado sob pena de choques elétricos em países do Sudeste Asiático.

Traficadas para Myanmar e o Camboja, essas vítimas viveram cenas de filme de terror, obrigadas a aplicar golpes digitais, como peças de uma engrenagem criminosa cada vez mais sofisticada.

O tráfico de pessoas também deixa marcas profundas na saúde física, mental, sexual e reprodutiva. Muitas vezes, o sistema de saúde cruza o caminho da vítima enquanto a exploração ainda está em curso, sem reconhecer sua situação.

Continua após a publicidade

Um estudo com sobreviventes de tráfico sexual constatou que cerca de 88% delas tiveram contato com algum serviço de saúde durante o período de exploração. Para essas pessoas, uma consulta ou atendimento pode representar a primeira e, por vezes, a única oportunidade de pedir ajuda. Por isso, as equipes assistenciais precisam estar preparadas para reconhecer sinais de alerta e investigar sintomas que possam indicar violência, controle ou outras condições graves.

O tamanho do crime

Para compreender a dimensão desse problema, é importante lembrar que o tráfico humano é definido internacionalmente como o recrutamento, transporte, transferência, alojamento ou acolhimento de pessoas por meio de ameaça, coerção, fraude ou abuso de vulnerabilidade para fins de exploração.

Dados do Relatório Nacional sobre Tráfico de Pessoas, divulgado em julho de 2026 pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública, mostram que o Camboja se consolidou como o principal destino das vítimas brasileiras de tráfico internacional identificadas em 2025, com 44 casos, o equivalente a 52,4% do total registrado pelo protocolo de assistência consular.

O relatório também registrou uma mudança histórica no padrão identificado pela Polícia Federal. Pela primeira vez, a exploração sexual superou o trabalho análogo ao de escravo como principal finalidade identificada nos inquéritos instaurados. Os casos de exploração sexual registrados pelo protocolo de atendimento às vítimas brasileiras de tráfico internacional cresceram 325%, passando de oito, em 2024, para 34, em 2025.

Continua após a publicidade

O número, porém, tende a ser maior. Casos de tráfico de pessoas costumam ser subnotificados, seja pelo medo das vítimas, pela dependência em relação aos aliciadores, pela vergonha, pela ameaça direta ou pela dificuldade de reconhecer a própria situação como exploração. A subnotificação é parte do funcionamento do crime. Quanto mais isolada e amedrontada a vítima, menor a chance de denúncia.

O perfil de gênero das pessoas exploradas também mudou. As mulheres passaram a representar 53,6% dos casos de tráfico internacional identificados pelo protocolo, revertendo a predominância masculina registrada no ano anterior. A desigualdade racial é outro fator preponderante. Pessoas negras representaram 71,8% das vítimas notificadas pelo SUS e 71% dos atendimentos realizados pelos núcleos e postos especializados de enfrentamento ao tráfico.

Esse recorte importa porque o tráfico de pessoas não escolhe vítimas ao acaso. Ele se alimenta de vulnerabilidades concretas, como pobreza, racismo, baixa escolaridade, falta de oportunidades, violência doméstica, migração forçada e ausência de redes de proteção.

Enquanto nas investigações federais o tráfico para exploração sexual ganha visibilidade,  dentro do Brasil o trabalho análogo ao escravo segue operando em larga escala. Em 2025, o país resgatou 2.772 pessoas dessas condições em 1.594 ações de fiscalização trabalhista realizadas em todo o território nacional. Foi um dos maiores números da série histórica, iniciada em 1995, de acordo com relatório do Ministério do Trabalho e Emprego.

Continua após a publicidade

Os novos alvos

A tecnologia mudou a porta de entrada do crime. Redes sociais, aplicativos de mensagem e perfis falsos de supostas agências de modelo são cada vez mais utilizados para aliciar mulheres, crianças e adolescentes para exploração sexual no Brasil e no exterior.

São caminhos novos para um mercado criminoso que movimenta cifras bilionárias. A estimativa mais recente da Organização Internacional do Trabalho aponta 236 bilhões de dólares em lucros ilegais anuais gerados pelo trabalho forçado na economia privada.

Crianças e adolescentes são alvos especialmente vulneráveis. Entre janeiro e setembro de 2025, dados do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania apontam que o Brasil registrou 4.397 denúncias de exploração sexual envolvendo crianças, adolescentes e pessoas em situação de vulnerabilidade. Somente em agosto, foram 876 registros, o maior número mensal dos últimos quatro anos. A dimensão desses registros demonstra a urgência de fortalecer a prevenção e a identificação precoce.

Toda vítima de tráfico passou por alguém que poderia ter percebido a situação. O crime sobrevive porque a maioria não sabe o que está vendo. Identificar uma vítima de tráfico não é simples. Ela raramente pede ajuda espontaneamente. O medo, a vergonha, a dependência financeira e a ameaça constante dos aliciadores criam um silêncio que pode durar anos. Profissionais de saúde, professores, agentes de assistência social e qualquer cidadão podem ser os primeiros a perceber sinais. Alguém que parece controlado por terceiros, que não tem acesso aos próprios documentos, que não sabe ao certo onde está ou que demonstra indícios de violência física ou psicológica são potenciais vítimas.

Continua após a publicidade

Reconhecer os sinais é o primeiro passo. O segundo é saber agir sem colocar a vítima em situação de ainda mais risco. Abordagens precipitadas podem aumentar a ameaça, expor a pessoa explorada e fechar uma possibilidade de ajuda. Por isso, informação criteriosa também é uma forma de proteção.

Com o propósito de qualificar a resposta diante de situações suspeitas, realizamos a adaptação para o contexto brasileiro de um guia prático voltado a orientar profissionais de saúde na identificação, escuta qualificada e encaminhamento seguro de possíveis vítimas de tráfico de pessoas.

O material, disponível gratuitamente neste link, foi adaptado a partir de um guia originalmente desenvolvido pela HEAL Trafficking, organização com mais de uma década de atuação no enfrentamento ao tráfico de pessoas a partir da perspectiva da saúde.

As denúncias podem ser feitas de forma anônima pelo Disque 100, o canal nacional de direitos humanos, ou pelo Ligue 180, voltado especificamente para violência contra a mulher. Toda informação é válida. Em um crime que prospera no silêncio, falar pode salvar uma vida.

* Marcella Regina Cardoso é cientista ligada a Universidade Harvard e integrante da organização HEAL Trafficking; Mona Lisa Dourado é mestra em comunicação social pela Universidade Federal de Pernambuco; Hanni Stoklosa é médica e fundadora da HEAL Trafficking

Publicidade

Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

Banner laranja com texto OFERTA RELÂMPAGO em amarelo e branco, ao lado de Você pediu, a gente ouviu! em branco. À direita, capas de revistas e um celular com tela ligada, e um ícone de árvore à esquerda.Banner laranja com texto OFERTA RELÂMPAGO em amarelo neon, acompanhado de um raio. Abaixo, Você pediu, a gente ouviu!. À direita, capas de revistas: SUPER com um copo de milk-shake, VEJA com paisagem e MUNDO ESTRANHO com carros. Um ícone de árvore estilizada no canto superior direito
OFERTA RELÂMPAGO

Digital Básico

A notícia em tempo real na palma da sua mão!
Chega de esperar! Informação quente, direto da fonte, onde você estiver.
De: R$ 14,99/mês Apenas R$ 2,99/mês
OFERTA RELÂMPAGO

Revista em Casa + Digital Premium

Receba 4 revistas de Veja no mês, além de todos os benefícios do plano Digital Completo (cada revista sai por menos de R$ 10,00)
De: R$ 59,99/mês
A partir de R$ 29,90/mês

*Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
*Pagamento único anual de R$23,88, equivalente a R$1,99/mês. Após esse período a renovação será de 118,80/ano (proporcional a R$ 9,90/mês).