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Superdotação: um conceito que o Brasil precisa aprender

Em artigo para VEJA, representantes da causa esclarecem o que está em jogo ao lidar com crianças com altas habilidades - tema de projeto de lei a ser votado

Por Priscila Gomide e Cadu Fonseca* 26 Maio 2026, 12h00

Quem desconhece a superdotação costuma associá-la à figura do “gênio”, aquele ser raro, autodidata, autossuficiente e supostamente capaz de agir sem o apoio de ninguém. No Brasil, ainda carente de ofertas especializadas para crianças, jovens e adultos com altas habilidades e superdotação, esse imaginário persiste com força. E é justamente ele que sustenta um dos maiores equívocos do debate nacional: a ideia de que superdotados não precisam de suporte.

Essa distorção, somada ao baixo conhecimento técnico, produziu outro problema recorrente: a tendência de enxergar a superdotação quase que exclusivamente pelo prisma das dificuldades, do sofrimento ou da inadequação. Reconhecer os impactos da invisibilidade e da falta de atendimento é necessário. Mas é preciso cuidado para não atribuir automaticamente à superdotação características associadas a transtornos ou outras condições.

Alguns exemplos propagados de forma equivocada: dificuldade de socialização, desregulação emocional, literalidade, rigidez cognitiva, hiperfoco, entre outros.

Quando a superdotação coexiste com outra condição (TEA, TDAH, dislexia, transtorno do desenvolvimento da linguagem, entre outras) falamos em dupla excepcionalidade, ou 2E. Em outros países, o tema é pesquisado desde os anos 1970. No Brasil, começou a circular com mais força há poucos anos. Ainda estamos engatinhando.

Essa defasagem na identificação levanta uma questão central: as chamadas “consequências” da superdotação são mesmo dela — ou da combinação entre alto potencial cognitivo e algum transtorno não identificado?

James T. Webb, uma das maiores autoridades mundiais em diagnósticos diferenciais para superdotação, passou décadas alertando para o problema. Segundo ele, muitos profissionais confundem características cognitivas, emocionais ou comportamentais de determinados estudantes superdotados com sinais de patologia. O problema, portanto, nem sempre está no indivíduo avaliado, mas na incapacidade do sistema de compreender adequadamente perfis cognitivos fora da média.

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Isso não significa negar os desafios reais. Linda Silverman, fundadora do Gifted Development Center (instituição que reúne um dos maiores bancos de dados do mundo sobre superdotação), descreve com precisão a tensão vivida por essas crianças: “Uma criança pequena que possui emoções intensificadas combinadas com consciência cognitiva avançada dos perigos do mundo sente-se impotente e amedrontada”. Intensidade emocional e alto potencial intelectual podem, juntos, produzir uma experiência interior avassaladora.

O psicólogo Michael Piechowski, colaborador direto de Kazimierz Dąbrowski (criador da Teoria da Desintegração Positiva), aprofundou essa dimensão. Para ele, “crianças superdotadas tendem a ser mais ativas do que crianças comuns, apresentando um nível mais alto de energia, seja física, intelectual ou emocional”. Energia que, sem direção adequada, pode se tornar sofrimento.

Intensidade e sensibilidade existem — e merecem atenção clínica e pedagógica. Mas reduzir a superdotação a seus desafios é distorcer a realidade. Superdotação também é potência: aprendizagem acelerada, criatividade fora da curva, capacidade de elaboração intelectual e enorme potencial de contribuição social. Focar apenas no peso sem reconhecer a força é, em si, uma forma de negligência.

No Brasil, esse impasse gerou duas correntes em disputa. Uma centra o olhar nas dificuldades e nos riscos associados à falta de suporte. A outra insiste que superdotação significa, antes de tudo, capacidade elevada — funcionamento superior à média em uma ou mais áreas. Ambas têm razão em parte. O problema é quando uma anula a outra.

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Décadas de pesquisa consolidaram uma visão mais ampla e complexa. Joseph Renzulli, um dos pesquisadores mais influentes do campo, propõe que a superdotação emerge da interação entre três fatores: capacidade acima da média, criatividade e comprometimento com a tarefa.

Robert Sternberg, ex-presidente da American Psychological Association, vai além: para ele, superdotação é a capacidade de mobilizar inteligência analítica, criativa e prática para navegar e transformar o mundo real. “A superdotação é, em última análise, expertise em desenvolvimento”, sintetiza Sternberg — uma definição que desafia tanto o determinismo do QI quanto a visão catastrofista.

A definição federal americana, derivada do Relatório Marland, oferece uma base sólida para políticas públicas: estudantes superdotados são aqueles que demonstram alta capacidade em áreas intelectual, criativa, artística, de liderança ou em campos acadêmicos específicos — e que necessitam de serviços educacionais diferenciados para desenvolver plenamente essas capacidades. O ponto crítico está na última parte: eles precisam de suporte. Não se viram sozinhos.

É nesse contexto que ganha relevância o Projeto de Lei 1.049/2026, em tramitação no Brasil. O PL propõe instituir uma Política Nacional para Estudantes com Altas Habilidades e Superdotação, criar um cadastro nacional – que já havia sido criado, na Lei 13.234/2025 -, garantir identificação precoce, atendimento educacional especializado (que mal se estruturou apesar das leis existentes, dada a falta de recursos públicos), formação de profissionais e centros de referência – hoje, sem a capilaridade que o Brasil exige.

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É um avanço necessário e muito aguardado. No entanto, o texto não pode apenas reorganizar políticas que já estavam consolidadas em normas infralegais nem usar conceitos de outras áreas técnicas para reduzir a influência da abordagem clínica da psicologia.

A questão não é se precisamos de um novo texto. O desafio está na precisão conceitual: como definir a superdotação sem confundi-la com transtornos, patologias ou, simplesmente, sofrimento. Uma política nacional robusta precisa reconhecer a dupla excepcionalidade, mas também traçar com clareza o que é superdotação, o que é transtorno e o que é a combinação dos dois. Sem essa distinção, corremos o risco de criar uma política que medicaliza o talento.

Dar qualquer conotação que possa confundir a potência de um cérebro que aprende, associa e processa informações de forma mais rápida e complexa com comportamentos típicos de transtornos ou de dupla excepcionalidade tem consequências profundas. Muda a forma como o indivíduo se vê. Altera sua trajetória. E pode transformar um talento em tragédia.

A teoria do canadense Françoys Gagné oferece uma bússola útil: o indivíduo nasce com dons naturais, mas, se o ambiente não oferecer apoio, oportunidade e estímulo adequados, esses dons podem nunca se transformar em talentos. Não é preciso ser cientista para concluir o óbvio: quem não pode usar seu potencial, ou pior, não é sequer reconhecido por ele, acumula frustração e sofrimento.

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Esses estudantes precisam de enriquecimento curricular, aceleração, flexibilização pedagógica, acesso a ambientes intelectualmente estimulantes e profissionais capacitados. Mas precisam também de algo frequentemente negligenciado: compreensão adequada sobre si mesmos. Não para se enxergarem como superiores, doentes ou especiais no sentido caricatural do termo, mas para entenderem como aprendem, como funcionam e quais condições favorecem seu desenvolvimento.

Neste caso, o suporte a esse público exige ações efetivas que ultrapassem os limites das discussões teóricas e se revertam em práticas concretas adaptadas a nossa realidade. Estamos falando também sobre um repensar sobre o nosso conceito de educação.

Ainda que a discussão seja complexa, precisamos avançar. Enquanto debatemos conceitos, nossos talentos seguem invisíveis. Se usarmos o percentual frequentemente citado pelo MEC, de cerca de 5%, o Brasil deveria ter mais de 10 milhões de pessoas com altas habilidades e superdotação identificadas. No entanto, os registros oficiais ainda estão muito distantes desse número.

Estamos falando de potencial humano vivendo em um sistema ainda incapaz de reconhecê-lo adequadamente.

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A pergunta, portanto, não deveria ser se a superdotação é problema ou vantagem. O talento existe. O que ainda falta ao Brasil é decidir se continuará desperdiçando-o — ou finalmente aprenderá a reconhecê-lo, desenvolvê-lo e transformá-lo em ativo para o próprio futuro.

* Priscila Manni Gomide e Cadu Fonseca são fundadores do Instituto Gifted Brasil

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