Sabrina Parlatore: “Depois do câncer, escolhi a leveza”
A apresentadora enfrentou dezesseis sessões de quimioterapia e outras 33 de radioterapia
Receber o diagnóstico de câncer é um choque. Lembro da sensação: um vazio difícil de explicar. Era como se eu estivesse sozinha no mundo, completamente desprotegida. Tudo tinha parado naquele instante — mas, lá fora, a vida seguia. Eu ouvia as buzinas na rua, as pessoas conversando. Era quase cruel. A primeira coisa que perguntei ao médico foi sobre a gravidade. Ele disse que, pelos exames iniciais, era um tumor pequeno, em estágio inicial, com 95% de chance de cura. Aquilo me trouxe algum alívio racional, mas bastou sair do consultório para eu desabar. Minha preocupação era como contar aquilo para minha mãe. Contei, ela sofreu, claro, mas escolheu me dar tranquilidade — e foi assim durante todo o processo. Entre exames, consultas e biópsias, eu começava a entender que aquele universo, apesar de assustador, não era um caos absoluto.
Na verdade, tudo começou um ano antes do diagnóstico. Em um ultrassom de rotina, apareceu um nódulo. A médica sugeriu biópsia, mas a recomendação foi ignorada por outro profissional. Até que, em 2015, estava um dia em casa assistindo TV quando passei a mão no colo e senti uma bolinha na parte superior do seio esquerdo. Minha ginecologista pediu os exames e, em menos de uma semana, eu já sabia que era um câncer. Se eu tivesse feito aquela biópsia lá atrás, provavelmente o tratamento seria mais leve.
Mesmo com um diagnóstico favorável, o medo da morte existe. Nada é certo. Ainda mais quando veio a confirmação do tipo de tumor: triplo negativo, considerado mais agressivo. Meu percurso começou pela cirurgia de retirada do tumor, e foi a parte mais tranquila. Não precisei tirar a mama nem colocar prótese. Esteticamente, nada mudou, mas o resto… O tratamento foi pesado. Fiz dezesseis sessões de quimioterapia em seis meses. A cada uma, o corpo fica mais fraco, mais cansado, mais distante de quem você era. O rosto incha, os cílios desaparecem. Meu cabelo não caiu porque usei a touca térmica, mas o impacto foi brutal. No fim, estava exausta física e emocionalmente. Me lembro de um dia, já nas últimas sessões, em que acordei com falta de ar. Parecia que o corpo não reagia mais. Cheguei à clínica para fazer a químio e comecei a chorar. Disse à enfermeira que sentia que ia morrer. Ela me olhou com calma e falou: “Todo mundo diz isso. E ninguém morreu”. Aquilo me acolheu profundamente.
Depois vieram 33 sessões de radioterapia. Aguentei firme, mas não foi fácil. Em um momento de fragilidade, senti necessidade de ouvir outras mulheres. Passei a ler relatos, trocar mensagens, dividir experiências. Entendi o poder da identificação. Durante o tratamento, optei pelo silêncio. Não quis contar publicamente. Precisava de privacidade, de atravessar aquilo sem lidar com opiniões e projeções. Quando terminou, senti que estava pronta para falar. Dei minha primeira entrevista e a repercussão foi enorme. Mulheres me escreveram dizendo que tinham feito exames depois de me ouvir, que descobriram a doença no início, que salvei suas vidas. Minha história precisava ser maior do que eu.
Onze anos depois, o que mais me mobiliza é levar a informação e a reflexão. O câncer de mama tem cura se descoberto cedo. Hoje, quando olho para a Sabrina de antes, tenho vontade de sacudi-la. Sempre fui independente, mas vivia sob pressão. Havia sinais claros de que meu corpo gritava. Os médicos nunca disseram que o estresse causou meu câncer, mas sei que ele teve um papel. Então eu digo para as outras mulheres: “Pare de se estressar tanto, pare de viver em função do que os outros vão pensar”. Isso cobra um preço — e cobrou no meu corpo. O tratamento me deixou infértil e acabou mudando meu plano de ser mãe, mas a gente aprende a redirecionar os sonhos e a felicidade vem quando se está disposto a mudar de rota. Depois do câncer, escolhi viver com leveza.
Sabrina Parlatore em depoimento a Simone Blanes
Publicado em VEJA de 30 de janeiro de 2026, edição nº 2980





