Programa de longevidade canina mostra primeiros resultados no Brasil
Derivada de projeto americano, PetMoreTime foi lançada no Brasil em janeiro deste ano com 15 cães idosos; projeto também vai acompanhar pets policiais
Sofia, de 12 anos, chegou às consultas com alterações cardíacas e metabólitas. Seus tutores também diziam que o sono da cadela estava desregulado, a ansiedade do animal preocupava e a interação com os humanos era baixa. Meses depois de ingressar em um programa de longevidade animal, já se nota mais disposição e melhora comportamental.
A cachorra é uma entre os quinze cães que foram submetidos até o momento ao programa PetMoreTime, iniciativa lançada no Brasil em janeiro deste ano que agora apresenta seus primeiros resultados clínicos. A proposta, desenvolvida em parceria com a rede Petlove, é derivada de um projeto norte-americano que já atendeu quase 50 mil animais. Seu objetivo não é impedir o envelhecimento dos caninos, mas devolver qualidade de vida enquanto os bichos envelhecem, um nicho promissor em um país que tem a terceira maior população de pets do mundo, com mais de 160 milhões de animais de estimação.
Como nos humanos, pausar o relógio do envelhecimento canino é impossível, em parte porque ele é determinado pela genética, raça, porte e características hereditárias. “São fatores que não podemos modificar”, reconhece Rita Zuanaze, veterinária que lidera o PetMore Time.
Por outro lado, intervenções baseadas na gerociência, como os chamados medicamentos geroprotetores, podem atuar sobre mecanismos biológicos do envelhecimento e permitir que os animais envelheçam de maneira mais saudável. A expectativa do protocolo é de um aumento de até 20% no tempo médio de vida saudável dos cães, segundo Zuanaze.
Isso significa, na prática, manter a energia, mobilidade, interação com a família e qualidade de vida ao longo dos anos, o que faz a diferença para os animais e seus tutores. Responsável por Sofia, a engenheira química Paula Basso descreve longevidade como “recuperar a presença de Sofia na rotina”. “Percebemos uma melhora comportamental muito nítida e mais disposição no dia a dia”, diz ela.
Intervir na velocidade de envelhecimento dos pets tem um custo: o programa da PetMoreTime possui três tipos de planos, todos estruturados em um cronograma de 14 meses, com opções de investimento divididas em 16 parcelas que variam de R$390,00 a R$1.152,00 mensais, de acordo com os serviços inclusos.
Além da iniciativa privada, o projeto também tem uma frente de pesquisa pública por meio do PAMEC (Programa Avançado de Mitigação do Envelhecimento Canino). Desenvolvido pela PetMoreTime em parceria com a Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de São Paulo (FMVZ-USP), a iniciativa acompanha de perto cães policiais de trabalho para gerar dados robustos sobre a senescência e a alta performance animal.
Desenvolvido em parceria com as Polícias Militares de 11 estados, o programa tem início previsto para o final de 2026. Os cães policiais serão
acompanhados até o término de suas carreiras na Polícia Militar.
Como é o protocolo e quais foram os resultados observados até agora?
O protocolo de envelhecimento saudável segue as diretrizes do DogAgingProject, projeto lançado em 2014 e idealizado pelo biólogo americano Matt Kaeberlein, também co-fundador da PetMoreTime. O método é individualizado, baseado no uso de medicamentos e nutracêuticos, compostos extraídos de alimentos que oferecem benefícios à saúde e ajudam a prevenir ou tratar doenças.
Os quinze cães que já participaram do projeto devem passar por avaliações clínicas e exames periódicos ao longo dos 14 meses de acompanhamento. A partir de biomarcadores de envelhecimento e avaliações epigenéticas, o protocolo também analisa como o organismo do cão está envelhecendo biologicamente, e não apenas cronologicamente. As ações incluem:
- Exames avançados, contendo quatro baterias completas de avaliações clínicas e laboratoriais;
- Idade Biológica: análises epigenéticas para identificar o real estágio de envelhecimento celular do animal;
- Acompanhamento que envolve consultas veterinárias especializadas e monitoramento contínuo via coleira inteligente;
- Tratamento com o uso de fármacos geroprotetores e nutracêuticos selecionados sob medida.
Um dos medicamentos utilizados atualmente é a rapamicina, originalmente desenvolvida para uso em humanos, no caso de transplantes e alguns protocolos de quimioterapia, e que é amplamente estudada há décadas.
Segundo Zuanaze, o objetivo não é buscar um único medicamento capaz de resolver tudo, mas uma combinação de intervenções capazes de atuar em diferentes mecanismos biológicos do envelhecimento.
Os resultados objetivos desse pacote de medidas só poderão ser consolidados à medida que os cães concluírem todo o acompanhamento. Até o momento, os resultados mais consistentes do programa são percebidos pelos próprios tutores no dia a dia dos cães, diz a veterinária.
“Os relatos mais frequentes incluem aumento da disposição, maior interesse por brincadeiras, melhora da interação com a família e retomada de atividades que haviam diminuído com o envelhecimento. Esses sinais comportamentais são extremamente relevantes, porque refletem qualidade de vida e funcionalidade”, avalia.
Em alguns casos, o objetivo principal do protocolo é manter o cão funcional dentro de sua realidade, caso de Noopy. Aos 12 anos, o cachorro com necessidades especiais tinha perda muscular e redução de mobilidade, o que ameaçava o sua capacidade de andar somente com os membros pélvicos.
Com um plano voltado para a conservação de força e manutenção funcional, o animal passou a ter mais autonomia para andar e explorar a casa, segundo seus tutores. Já Luco, de 4 anos, entrou no programa após uma cirurgia cardíaca. Depois da avaliação do momento pós-cirúrgico, relatos iniciais incluem manutenção de energia e vitalidade do bicho.
Mas nem todos os pets entraram no programa acompanhados de alguma doença. Didi entrou no programa em um momento de estabilidade clínica, sem sinais evidentes de qualquer problema. O plano foi construído para monitorar a saúde do cachorro ao longo do tempo, antecipar possíveis alterações e manter a funcionalidade do animal.
Há casos em que o programa não é recomendado?
O Programa de Longevidade da PetMoreTime é indicado para cães em fase madura ou idosa que ainda apresentem uma condição fisiológica compatível com um envelhecimento saudável ou com doenças crônicas controladas. O objetivo é preservar a função do organismo antes que ocorram perdas irreversíveis, e não tratar doenças em estágio avançado.
Segundo Zuanaze, medicamentos geroprotetores, como a rapamicina, não são recomendados para:
- Cães jovens, que ainda estão em fase de crescimento e maturação celular;
- Animais com contraindicações importantes, como neoplasias ativas, infecções em curso, pós-operatório recente ou doenças degenerativas muito avançadas e irreversíveis.
A veterinária explica ainda que o tratamento precisa ser adiado temporariamente em algumas situações, incluindo cães com:
- Diabetes não controlado;
- Alterações importantes de colesterol ou triglicerídeos;
- Doenças hormonais descompensadas; ou
- Outras condições clínicas que aumentem o risco de morte do animal.
Esses quadros devem ser estabilizados antes de dar início ou continuidade ao protocolo. “Em outras palavras, a medicina da longevidade é mais eficaz quando iniciada na chamada “janela de oportunidade”: uma fase em que o cão já apresenta os efeitos naturais do envelhecimento, mas ainda possui reservas fisiológicas suficientes para responder às intervenções propostas”, diz ela.







