Prevenção da demência: entenda o papel da saúde mental e da escolaridade
Estudo brasileiro identificou os principais fatores de risco para a população brasileira

Quando se pensa em demência, a idade é vista como um dos principais fatores de risco, assim como o sexo. De fato, é extensa a literatura científica mostrando que quanto maior a idade, maiores as chances de desenvolvimento dessas condições, em especial entre as mulheres. Um estudo recente, contudo, mostrou que no Brasil, dois outros fatores são ainda mais determinantes: a escolaridade e a saúde mental.
O trabalho foi conduzido por um grupo de pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Utilizando inteligência artificial, eles analisaram mais de 9,4 mil casos provenientes do Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros para avaliar os principais fatores de risco para declínio cognitivo e capacidade funcional dos indivíduos, duas das principais características das demências.
O que viram foi que, por aqui, a educação foi o principal fator associado ao declínio cognitivo, enquanto a perda de capacidade de realizar tarefas, como tomar banho e cuidar da higiene pessoal, estava muito relacionada com uma má saúde mental. “A educação sempre foi vista como um fator importante, mas que é mais preponderante que idade ou sexo, não esperávamos”, disse Eduardo Zimmer, líder do estudo e autor do artigo publicado no final de janeiro na The Lancet Global Health, em entrevista a VEJA. “É uma peculiaridade brasileira.”
E esses não são os únicos determinantes. Fatores como realização de atividade física, tabagismo, consumo de álcool e presença de doenças metabólicas e cardiovasculares também pareceram mais influentes que idade avançada e sexo para o estabelecimento dos sintomas associados a demência.
Por que os fatores de risco diferem entre Brasil e países desenvolvidos?
De acordo com o pesquisador, a maior parte dos estudos sobre demências são realizados nos Estados Unidos e na Europa. “Os modelos de países desenvolvidos, que achávamos generalizáveis para o mundo todo, não são replicáveis”, diz Zimmer, que também é um dos apoiados pelo Instituto Serrapilheira. “A América Latina e, particularmente, o Brasil, têm um perfil de risco de declínio cognitivo completamente diferente.”
Isso acontece porque os países desenvolvidos vivem menores disparidades sociais. Como acesso à educação e a saúde, por exemplo, são menos desiguais nesses locais, é mais difícil que esses fatores aparecem como preponderantes. No Brasil, por outro lado, os altos níveis de escolaridade e o acesso a serviços de saúde mental continuam restritos a camadas mais privilegiadas da população, o que faz com que o impacto dos ensino precário e das condições mentais não tratadas fique mais evidente nos números.
E isso também apareceu em outros países da América Latina. Somados aos brasileiros, o grupo analisou dados de um total de 41 mil indivíduos de países como Chile, Uruguai e Colômbia, onde o papel da disparidade social e da saúde no envelhecimento cerebral também ficaram evidentes.
Como prevenir demências?
Hoje, o Brasil, sozinho, conta com cerca de 2,71 milhões de pessoas diagnosticadas com demência, número que pode se aproximar dos 6 milhões em 2050. Para os autores, os dados mais recentes oferecem uma oportunidade de prevenção: “Investimento em educação deve ser a prioridade no nosso país”, dizem.
Agora, eles querem estudar esse fator com mais cuidado. “Será que se a gente pegar um indivíduo com 50 anos, com pouca educação, e fazer com que ele volte para a escola, conseguimos prevenir o declínio cognitivo?”, se questiona Zimmer. “Vamos investigar.”
Esse tipo de estratégia é particularmente importante por aqui. Enquanto os países desenvolvidos já possuem programas para evitar o Alzheimer e outros tipos de demência, por aqui esses números ainda crescem e, nos próximos anos, serão necessárias políticas públicas para tratamento humanizado e prevenção, que deve começar já nos primeiros anos de vida.
Enquanto a resposta não vem, algumas medidas podem ajudar a evitar o surgimentos dessas condições. São elas:
- Aprendizado constante: já está muito bem estabelecido entre os profissionais que a educação é um importante fator protetor para demências, portanto, aprender coisas novas é uma boa maneira de prevenir o desenvolvimento dessas condições
- Participação social: a solidão se mostrou um fator importante para o declínio cognitivo, então estão estar envolvido em grupos sociais também pode ser um fator protetivo importante
- Cuidado com doenças crônicas: as doenças metabólicas como diabetes, hipertensão e obesidade estão muito relacionadas a demências, então preveni-las é uma forma relevante de evitar doenças neurodegenerativas
- Saúde auditiva e visual: pesquisas recentes mostram que a perda da audição e da visão podem ser um fator de risco para demências
- Estilo de vida saudável: fatores como alimentação e exercícios físicos são essenciais para manter um bom funcionamento do organismo e para evitar grande parte dos outros fatores de risco relacionados ao Alzheimer