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Os brasileiros estão bebendo mais ou menos durante a quarentena?

Happy hours virtuais são boa opção para os boêmios, mas fechamento de bares representa um duro baque para o mercado de cerveja, por exemplo

Por Luiz Felipe Castro - Atualizado em 25 abr 2020, 15h19 - Publicado em 25 abr 2020, 15h13

O isolamento social causado pela pandemia de coronavírus impôs drásticas mudanças em nossas rotinas. Uma delas diz respeito a um hábito tão antigo quanto popular em todo o mundo: o consumo de bebidas alcoólicas. O fato de restaurantes, bares e casas noturnas estarem fechados obrigou os mais boêmios a passar por uma adaptação. Como mostra reportagem em VEJA desta semana, as happy hours virtuais, reuniões de amigos em aplicativos de videoconferência como o Zoom, geralmente regadas a drinks diversos – apelidados de “quarentinis” – se tornaram uma tendência em diversos países, incluindo o Brasil. Mas será que a população está bebendo mais ou menos?

Especialistas advertem que o momento de incertezas pode funcionar como um “gatilho” para o afogamento de mágoas. “Estamos vivendo uma situação de estresse coletivo inédito que pode contribuir para o uso do álcool como um refúgio”, explica a psicóloga Jaira Freixiela Adamczyk. Os perigos dos excessos chamaram a atenção da Organização Mundial da Saúde (OMS), que orientou que governos e empresas reduzam a venda de álcool durante a quarentena. O órgão lembrou que a bebida enfraquece o sistema imunológico – e portanto, deixa seus usuários mais propensos a contrair Covid-19 –, além de estimular comportamentos violentos.

O uso comedido, no entanto, não traz grandes complicações e pode, de fato, ser uma válvula de escape para os enclausurados. Além das reuniões virtuais, as lives musicais também têm sido um bom pretexto para levantar copos  – em vários casos, os artistas também têm participado da bebedeira. “Tenho bebido bastante. Praticamente todo dia assisto uma live tomando uma cervejinha. Não é a mesma coisa, mas acaba matando a vontade e a saudade de sair pra beber”, conta o carioca Gustavo Alves Magalhães, estudante de economia de 23 anos, enquanto assistia ao show de Thiaguinho pelo computador. 

“Antes bebia menos, porque tinha outras formas de lazer, academia, jogar futebol. Tomo principalmente cerveja, assistindo às lives, para ter um pouco de tranquilidade, de paz. Se eu ficar o dia todo vendo as notícias, acabaria entrando em pânico”, completou o mineiro Gustavo Pereira, 22 anos, estudante de Engenharia Agronômica.

Outros, como o paulista Leonel de França, diminuíram as doses. “Estou bebendo bem menos, acho ‘deprê’ beber sozinho em casa”, diz o coordenador de marketing, que, no entanto, mantém pelo menos uma happy hour virtual por semana, regada a “quarentinis”.

O que dizem os números

Do exterior, chegam dados expressivos de empresas de estudo de mercado. Na Rússia, as vendas de vodca em mercado subiram 65% de fevereiro para março, segundo estudo da consultoria GfK. Nos Estados Unidos, o crescimento das vendas no fim de março, quando a quarentena foi decretada no país, foi de 55% em relação ao mesmo período do ano anterior, aponta a consultoria Nielsen, dando a entender que pessoas estavam “estocando” bebida nos primeiros dias de pandemia.

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Na semana que terminou em 11 de abril, o crescimento total em mercados americanos foi menor, mas ainda expressivo (26,2%), e as vendas de bebidas online (por entrega à domicílio), subiram 387% em comparação ao ano anterior, ainda segundo a Nielsen. Na maioria dos estados dos EUA, as liquors stores, como são chamadas as lojas especializadas em bebidas, foram incluídas entre os estabelecimentos essenciais na maioria dos estados, tal qual farmácias e hospitais.

Por aqui, no entanto, não há dados estatísticos consolidados provando que os brasileiros estejam bebendo mais neste momento. A Associação Brasileira de Bebidas (Abrabe) aponta que o mercado de cachaça, cerveja e vinhos apresentou uma queda de faturamento significativa de 52%, entre 15 e 30 de março. O resultado é facilmente correlacionado ao fechamento de estabelecimentos comerciais – pesquisa encomendada pela da própria Abrabe à consultoria KPMG mostrou que 61% do consumo no país se dá em bares e restaurantes.

Mercado de cerveja está em crise Ligia Skowronski/VEJA

Bairros boêmios como a Vila Madalena, em São Paulo, vivem uma estranha calmaria com os tradicionais pontos de encontro de portas fechadas. Quem segue com sede, no entanto, ainda consegue se virar em supermercados físicos e virtuais. As redes Extra e Pão de Açúcar registraram alta de quase 30% nas vendas de vinho durante a Páscoa em comparação com o mesmo período em 2019, em suas lojas físicas e de e-commerce, informou a empresa GPA. As vendas por delivery também cresceram, mas estão longe de ser a salvação do mercado.

A cervejaria Ambev confirma um aumento na demanda de seus serviços de entregas a domicílio, mas ressalta que os números são insignificantes em comparação às perdas totais com a quarentena. Segundo cálculos internos de membros do setor, as vendas com delivery teriam de subir cerca de 26.000% para compensar o prejuízo – o que está bem longe de ocorrer.

Da Holanda, chegam outros dados impactantes: a Heineken, uma das maiores cervejarias do mundo, que possui rótulos como Sol e Amstel, além da marca homônima, registrou queda de 68,56% no lucro líquido global do primeiro trimestre de 2020 na comparação com mesmo período do ano anterior. No Brasil, um de seus maiores mercados, a queda foi bem menor, de cerca de 5%. A multinacional prevê resultados ainda piores no segundo trimestre e desfez todo o seu planejamento anual devido à pandemia.

Em resumo, ainda que não haja dados conclusivos nem estudos de comportamento mais amplos, é provável que as pessoas estejam bebendo menos. Afinal, por aqui, nada substitui a boa e velha mesa de bar.

 

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