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O que os brasileiros esperam da ciência quando o assunto é saúde?

Pesquisa revela alta expectativa por inovação no SUS, mas também frustração com lentidão na incorporação de novos medicamentos e tratamentos

Por Victória Ribeiro Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 6 ago 2025, 12h00 • Atualizado em 6 ago 2025, 16h38
  • A saúde lidera com folga a lista de prioridades para inovação no Brasil, segundo pesquisa conduzida pela Ipsos a pedido da Interfarma (Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa). O levantamento, realizado com 2.400 pessoas de todas as regiões do país, mostra que 73% dos entrevistados consideram a saúde a principal área onde a inovação deve acontecer, à frente da educação e da segurança.

    No entanto, o estudo evidencia uma tensão estrutural: se por um lado a população reconhece o valor da ciência e da indústria farmacêutica, por outro, aponta o Estado — especialmente o Sistema Único de Saúde — como principal responsável e canal de acesso a essa inovação, seja entre aqueles com plano de saúde ou sem. Para 54% dos entrevistados, o SUS seria o meio mais provável para obter um medicamento inovador. Quando se trata de vacinas, esse índice salta para 74%.

    “Mas isso também vem acompanhado de frustração: o mesmo sistema que a população reconhece como motor de inovação ainda opera com um atraso médio de quase 17 meses para atualizar protocolos clínicos após a decisão de incorporar novos medicamentos, e em 21% dos casos, nem mesmo após a publicação do protocolo há evidência de impacto nas compras públicas”, diz Renato Porto, presidente-executivo da Interfarma.

    Além disso, segundo ele, um medicamento pode levar até 45 meses desde o registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) até de fato chegar ao paciente da rede pública. “Estamos falando de quase quatro anos de espera, o que é especialmente grave para quem não pode esperar. É a vacina que não chega, o remédio que não é comprado, o protocolo que não é atualizado… Isso mina a confiança e dá forças para desinformação.”

    Câncer e saúde mental no topo das prioridades

    Entre os campos que a população mais gostaria de ver avançando com apoio da ciência, o câncer lidera. O resultado, não é por acaso. O câncer é a segunda principal causa de morte no país, com mais de 300 mil óbitos anuais, segundo o Instituto Nacional do Câncer (INCA). “A população compreende isso”, diz Porto. Com isso, só no Brasil, a oncologia representa mais de 40% dos protocolos ativos de pesquisa clínica. Porém, do outro lado da moeda, terapias inovadoras em câncer levam, em média, 1.400 dias para chegarem ao paciente do SUS — ou seja, cerca de 4 anos.

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    Os transtornos mentais, como depressão, ansiedade e Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), também aparecem no topo da lista do que deve ser prioridade em inovação, com 46% das menções. O resultado chama atenção em um país onde o estigma sobre o sofrimento psíquico ainda é forte. “Pela primeira vez, vemos a sociedade pedindo ciência para tratar sofrimento psíquico, e não apenas acolhimento”, diz Porto.

    Doenças infecciosas (36%), doenças crônicas como obesidade e diabetes (34%), doenças raras (24%) e autoimunes (27) também preenchem essa lista.

    Apesar dos gargalos, houve avanços

    Mesmo com os gargalos, que na percepção dos entrevistados envolve falta de investimento público (56%), ausência de incentivos à pesquisa (43%) e burocracias (37%), 65% dos brasileiros acreditam que houve avanços na prevenção e no tratamento de doenças nas últimas três décadas. Esse otimismo é ainda maior entre quem possui plano de saúde (69%) e se repete em diferentes regiões do país, apesar das conhecidas desigualdades no acesso.

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    E quando a pergunta é quem deveria liderar o desenvolvimento de novos medicamentos no país, a maioria (43%) cita o governo e o Ministério da Saúde. As universidades aparecem com 25% das menções, seguidas pela indústria farmacêutica (20%). Mas as expectativas vão além da pesquisa e do laboratório. O brasileiro quer facilidade no acesso, com programas de apoio e preços mais em conta. Também se destaca a expectativa por pesquisa em doenças ainda sem cura (44%).

    Nos casos de tratamentos prolongados, a disponibilidade no SUS ou no plano de saúde é o fator mais importante na hora de decidir pela adesão (32%). A recomendação médica (30%) e os relatos de outros pacientes (18%) também influenciam a escolha.

    Valorização da produção científica local

    Para Porto, o Brasil tem um potencial científico de peso, com universidades de excelência, centros de pesquisa respeitados e cientistas  qualificados, às vezes até com maior reconhecimento lá fora do que por aqui. “Faltam financiamento previsível, segurança jurídica e uma política de inovação estruturada”, resume.

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    Enquanto isso, o tempo médio entre o registro de um medicamento e seu acesso efetivo pelo SUS é de quase cinco anos, segundo o índice WAIT, da IQVIA. No caso das doenças raras, o estudo Tempos de Acesso, da Interfarma, revela que esse intervalo pode chegar a 12,8 anos. “A ciência está pronta, mas não chega ao paciente com a agilidade necessária”, diz Porto.

    A oncologia, inclusive, é também um forte exemplo nessa história. “Mesmo com a “Lei dos 60 Dias”, que garante o início do tratamento oncológico em até dois meses após o diagnóstico, a falta de recursos específicos para o câncer no SUS compromete a continuidade do cuidado e impulsiona a judicialização.”

    Para avançar, Porto defende algumas medidas:

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    • Uma política nacional de inovação em saúde, com visão de longo prazo e foco em inovação radical;
    • Fortalecimento da Anvisa e modernização da Conitec (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias), com processos mais transparentes e estáveis;
    • Novos modelos de financiamento;
    • Valorização dos cientistas brasileiros, com condições reais para que eles desenvolvam, testem e apliquem suas pesquisas aqui mesmo.

    “O Brasil não pode continuar exportando cérebros e importando soluções. Inovação precisa ser produzida, incorporada e acessada aqui. Para isso, é preciso coragem — não só para investir em ciência, mas também em políticas públicas que garantam o acesso ao melhor que a saúde tem a oferecer”, opina o presidente-executivo da Interfarma.

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