O que o caso de Milena, do BBB 26, tem a nos dizer sobre o autismo hoje
Psiquiatra parte das discussões em torno da participante do programa para refletir sobre a diferença entre diagnosticar e identificar condições como essa
Nas últimas semanas, a imprensa e as redes sociais têm colocado em discussão o comportamento de uma das participantes do Big Brother Brasil 26, Milena Moreira. Boa parte da conversa gira em torno de um possível diagnóstico de autismo.
A própria equipe da integrante do programa confinada na casa comenta que ela não tem o diagnóstico, mas o público insiste na hipótese e discorre sobre o assunto nos mais diversos fóruns da internet.
O termo “diagnóstico” vem do grego e significa “conhecer através”. Quando falamos de diagnosticar algo em alguém, devemos considerar que passaremos por uma travessia. Um diagnóstico é um percurso técnico, um método, e segue uma trajetória que é estabelecida a fim de evitar que caiamos em alguma armadilha no caminho ou que sigamos um atalho capaz de nos levar a um erro.
Diagnosticar alguma condição ou doença é antes de tudo diferenciar o que essa coisa não é, ou seja, excluir muitas possibilidades do que poderia ser até se chegar à resposta.
No caso de uma doença de pele, precisamos excluir que aquela lesão não é resultado de uma infecção, não é uma ferida produzida por uma acidente, queimadura, ferimento cortante, não é uma alergia ou doença autoimune… Para depois chegar à possibilidade de que seja um câncer, por exemplo.
Identificar algo, pelo contrário, é reconhecer aquilo que aproxima uma coisa da outra e não o que as diferencia. Identificar é uma etapa do processo de diagnóstico, mas não representa o processo todo. Pode acontecer no início ou no fim do percurso, mas é somente uma parte dele.
O termo “autismo” engloba diversas condições genéticas que ampliam ou alteram o modo como se percebe o mundo, sensorial, afetiva e cognitivamente, e modulam a maneira como a pessoa interage com os outros, mas também com o espaço à sua volta e com o tempo, promovendo uma socialização que lhe é própria, muitas vezes díspare das expectativas habituais da maioria das pessoaS.
Isso pode levar a comportamentos de ordenação e estruturação rígida do seu entorno e do seu cotidiano, a fim de evitar a sobrecarga que uma rotina não previsível produz num cérebro hiperestimulável.
O diagnóstico do autismo quase sempre acontece após uma longa jornada. O reconhecimento de certos padrões do comportamento, ligados à socialização e rigidez cognitiva, é necessariamente um momento fundamental, mas não é a única etapa do percurso.
Muitos profissionais podem ser envolvidos nesse trajeto, que não está livre de erros, embora a gente espere que, com o apuro técnico e a experiência, esses sejam mitigados. É importante lembrar que o autismo não tem um sinal exclusivo que indique certamente tratar-se dessa condição. Esses sinais são mais comuns em doenças físicas, propiciando um diagnóstico mais imediato e menos sujeito a dúvidas.
Com Milena, do BBB, podemos dizer que ocorre essa primeira fase de dúvida devido à identificação de certos padrões comportamentais. O programa de TV serve, aliás, a isso: expor comportamentos de seres humanos confinados ao escrutínio público.
Nesse movimento, podemos ver pessoas confrontadas com situações que desafiam nossos conhecimentos e capacidade de análise – até porque, no íntimo, não temos contato com elas fora desse contexto. Que o público levante hipóteses sobre a condição de neurofuncionamento de uma pessoa fala mais do público do que da pessoa em si.
O tema do autismo tem ganhado presença e força nos meios de comunicação e redes sociais, despertando o olhar das pessoas para condições que antes ficavam invisibilizadas. Pode ser que o público esteja correto e Milena seria mais uma pessoa com diagnóstico tardio, acelerado nesse trajeto por um contingente imenso que alardeou nas redes sociais alguns aspectos de seu comportamento.
Mas pode ser que não seja isso. Quem encontrará a resposta será a própria Milena. No seu tempo e após um percurso pessoal, respaldada por familiares, amigos e profissionais que ela, porventura, venha a consultar, caso se interesse em saber que tem esse diagnóstico ou não.
* Alexandre Valverde é psiquiatra, mestre em filosofia e especialista em neurodiversidade, além de colunista de VEJA SAÚDE





