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Monitoramento de vírus, fungos e bactérias pode evitar futuras pandemias

Pesquisadores defendem acompanhamento constantemente de agentes patológicos causadores de doenças para impedir que se espalhem e criem novos surtos

Por Simone Blanes 26 set 2021, 18h24

Para evitar novos surtos de doenças ou prever futuras epidemias, a pandemia da Covid-19 jogou luz à importância dos chamados sistemas de sentinela, ou seja, um monitoramento constante de agentes patológicos como fungos, bactérias e vírus – incluindo o SARS-CoV-2 – que ainda não têm tratamentos eficazes e podem se disseminar. “É muito importante termos sistemas de sentinela que permitam que uma pandemia, no início do seu surgimento, seja rapidamente detectada e combatida. Mas tudo isso requer uma interação, uma cooperação, que nem sempre são naturais”, disse Luiz Eugênio Mello, diretor científico da FAPESP, durante a abertura da 4ª Conferência FAPESP 60 anos, realizada na quarta-feira, 22.

Sob o tema “Desafios à Saúde Global”, o evento alertou para o fato de que, historicamente, não são apenas os vírus que causam pandemias, mas também bactérias. “Desde os anos 1960, poucos novos antibióticos foram descobertos e hoje há um conjunto de bactérias conhecido pela grande capacidade de escapar aos tratamentos existentes”, avisou Andrea Dessen, pesquisadora do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS), da França. “A Organização das Nações Unidas calcula que hoje são 700 mil mortos por ano por conta da resistência aos antibióticos, mas, se não fizermos nada, em 2050 serão 10 milhões por ano”, acrescentou a pesquisadora, que coordena um projeto apoiado pela FAPESP no Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), no âmbito do Programa São Paulo Excellence Chair (SPEC).

A pesquisadora lembrou ainda que existem seis motivos apontados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para a resistência aos antibióticos: prescrição excessiva, tratamentos não finalizados, utilização excessiva na pecuária (que consome 80% do volume mundial desses medicamentos), controle insuficiente das infecções em ambientes hospitalares, falta de higiene e saneamento e ausência de antibióticos no mercado.

Uma das instituições que realiza esse trabalho de sentinela é o Centro Conjunto Brasil-Reino Unido para Descoberta, Diagnóstico, Genômica e Epidemiologia de Arbovírus (CADDE), criado para monitorar novos arbovírus – patógenos transmitidos por artrópodes. Mas a urgência da Covid-19 aumentou esse escopo e o projeto passou a envolver também o monitoramento de bancos de sangue para verificar a presença de vírus e, no caso dos SARS-CoV-2, das taxas de anticorpos da população e do sequenciamento do vírus isolado de pessoas que procuraram os serviços de saúde. O objetivo era verificar a ocorrência de determinadas variantes, como a Delta, altamente contagiosa.

“Esperávamos uma epidemia de dengue no ano passado e ela não veio. A dengue talvez seja uma doença sensível à mobilidade. Observamos uma queda nos casos quando a mobilidade caiu por conta [das restrições impostas para conter] a Covid-19. Mas este ano o mais preocupante é a chikungunya, que pode vir quando voltar a movimentação de pessoas”, disse Ester Sabino, professora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP), pesquisadora do Instituto de Medicina Tropical (IMT-USP) e coordenadora do CADDE. “Precisamos do SUS [Sistema Único de Saúde], das universidades e do poder público entendendo o que se está falando para conseguir definir melhor as políticas. E isso tem de ser feito antes que as epidemias aconteçam para que possamos fazer algo em tempo de melhorar nossa resposta”, completou.

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Os fungos também são um grande problema a ser observado. Segundo Arnaldo Colombo, Professor da EPM-Unifesp, o impacto das infecções fúngicas é uma crise silenciosa na biodiversidade, na segurança alimentar e na saúde humana. “É fundamental discutir modelos econômicos que sejam mais compatíveis com a saúde planetária, como o desenvolvimento sustentável. Estamos atrasados em conter o aquecimento do planeta, que tem levado patógenos a se aclimatarem à temperatura de 37º C e, com isso, nos infectar”, pontuou o pesquisador.

A atividade agrícola, por exemplo, é uma das principais causas já que os trabalhadores do campo têm contato direto com o solo, onde vivem inúmeras espécies de fungos, agentes relevantes para essas doenças, mas pouco diagnosticados. Uma estimativa mostrada pelo pesquisador mostrou que 1,2 milhão de pessoas com pneumonia fúngica são tratados como tuberculose. Mesmo assim, os patógenos fúngicos são pouco conhecidos e até mesmo ignorados pelos médicos. Um levantamento feito em 129 centros médicos na América Latina apontou que somente 9% deles têm capacitação diagnóstica para infecções fúngicas. “Existe a necessidade de investir em centros de saúde global que trabalhem no conceito de saúde única para entender a história natural do patógeno antes que ele chegue ao homem”, disse Colombo.

Sem contar ainda os que ameaçam espécies silvestres como os anfíbios e representam 30% dos agentes que emergem como patógenos em plantas, inclusive grãos, sendo capaz de comprometer cerca de 20% do que se colhe em diversas regiões do mundo. Colombo defende que fungicidas podem ser substituídos por outras estratégias de controle de pragas, a fim de evitar o aparecimento de fungos resistentes. Segundo o pesquisador, é fundamental o investimento no desenvolvimento de plataformas diagnósticas, além dos fármacos. “Precisamos aprender a manipular o microbioma humano de forma mais efetiva no sentido de conter a disbiose [morte de microrganismos, muitas vezes benéficos, que vivem no corpo humano] induzida pelo uso de antibióticos e, sem dúvida, há espaço para aprimorar os programas de uso racional de antimicrobianos no ambiente hospitalar e na comunidade”, finalizou.

Confira o avanço da vacinação no Brasil:

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