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Metanol na bebida: ‘Pessoas só se dão conta depois de intoxicação’, explica toxicologista

Mortes de três pessoas em São Paulo por suspeita de consumo de bebidas adulteradas são investigadas; intoxicação pode causar cegueira e levar à morte

Por Paula Felix Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 29 set 2025, 15h52 •
  • A morte de três pessoas na Grande São Paulo e na capital paulista por suspeita de intoxicação por metanol em bebidas adulteradas demostra o risco desse tipo de álcool, que não é indicado para o consumo humano, para a saúde. O terceiro óbito foi confirmado nesta segunda-feira, 29, pela prefeitura de São Bernardo do Campo, no ABC paulista. Toxicologistas ouvidos por VEJA alertam que não existe dose segura para consumo e que vítimas devem ser socorridas imediatamente, já que não é possível diferenciá-lo do etanol, a substância presente em bebidas alcoólicas, e que o atendimento pode evitar desfechos graves e sequelas permanentes.

    Assim como o etanol, o metanol é um tipo de álcool, mas não é utilizado em produtos voltados para o consumo humano. Normalmente, está presente em solventes e em artigos voltados para a indústria. Embora possa até ficar “camuflado” em bebidas e drinks por não ter sabor e aroma fortes, ele se transforma em substâncias tóxicas ao ser metabolizado no organismo.

    “O organismo tenta mudar a estrutura das substâncias para que elas sejam excretadas. Isso também acontece com o etanol no fígado. Quando passa pela metabolização, o metanol vira formaldeído, que é tóxico, e ainda será metabolizado em ácido fórmico, que é um dos grandes vilões para a cegueira”, explica o toxicologista Daniel Junqueira Dorta, professor do Departamento de Química da USP Ribeirão Preto.

    Segundo Dorta, as vítimas podem apresentar quadros de enjoos, vômito, dor abdominal forte e perda da visão. Ao circular pela corrente sanguínea, afeta estruturas importantes, causando danos. “O metanol altera o PH do sangue, o que favorece que a substância passe pelas barreiras de proteção ao cérebro.”

    Sistema nervoso central, rins e fígado são os mais impactados pela ingestão do metanol, de acordo com o toxicologista e patologista Alvaro Pulchinelli Jr, presidente da Sociedade Brasileira de patologia clinica e medicina laboratorial (SBPC/ML).

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    “Não tem dose segura dessa substância. A pessoa pode ingerir uma única dose e apresentar sintomas. Não há consumo seguro nem a possibilidade de ela não ser perigosa para a saúde.”

    Como o metanol causa cegueira?

    Pulchinelli Jr detalha que os efeitos deletérios do metanol são resultado tanto da ingestão do produto quanto do metabolismo dele. É assim que a visão acaba sendo impactada.

    “Normalmente, o organismo metaboliza para tornar uma substância mais fácil de ser eliminada pelos rins ou para eliminar ou diminuir seu potencial de agressão. No caso do metanol, isso não acontece. O resultado dessa metabolização, o ácido fórmico, ele ataca especialmente o nervo óptico. E ele pode apresentar lesões variadas desde alterações visuais até à perda da visão e à cegueira definitiva.”

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    Como detectar a adulteração das bebidas?

    Esse é o maior problema da adulteração de bebidas alcoólicas com uso de metanol. Não há medidas caseiras para identificação de que a substância está presente, o que torna a situação ainda mais preocupante.

    “Esse é um aspecto muito traiçoeiro da intoxicação por metanol: externamente, as bebidas não mostram que estão contaminadas com metanol. Não alteram cor, cheiro nem tampouco sabor. O sabor do metanol não é desagradável ao paladar. O perigo está aí. As pessoas só se dão conta depois do quadro de intoxicação”, diz Pulchinelli Jr.

    Ele acrescenta que a única forma de detectar a substância é por meio de exames laboratoriais, de modo que medidas caseiras não são capazes de fazer nenhum tipo de diferenciação.

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    É fundamental que as pessoas estejam atentas aos sintomas e à evolução deles para que o quadro não seja confundido com um episódio de embriaguez em função de náuseas, vômito e alterações na fala.

    “Ao primeiro sinal de uma embriaguez que não se resolve em quatro a seis horas ou que há sintomas mais evidentes e suspeita de ingestão de bebida adulterada, tem de procurar auxílio médico imediato.”

    Dorta diz que o rápido socorro é fundamental para administração de um antídoto e monitoramento do paciente. “Existe um medicamento que evita que a enzima que metaboliza a substância fique ativa. Há casos de diálise para retirar a substância do organismo. Por isso, é importante levar o mais rápido possível ao hospital para evitar os efeitos permanentes.”

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