Menopausa pode ajudar a explicar por que mulheres têm mais casos de demência
Pesquisa associa fase a mudanças cerebrais e pior desempenho cognitivo, mas não prova causalidade
A menopausa é uma transição natural, mas seus efeitos sobre o cérebro ainda levantam muitas dúvidas. Um novo estudo da Universidade de Cambridge sugere que essa fase está associada a mudanças estruturais no cérebro e a piora de indicadores de saúde mental, fatores que podem ajudar a entender por que as mulheres são maioria dos casos de demência.
Publicado na revista Psychological Medicine, o trabalho analisou dados de quase 125 mil mulheres. Embora os resultados não provem causa e efeito, eles reforçam a hipótese de que a queda hormonal da menopausa tem impactos sobre o cérebro e o bem-estar emocional.
Hoje, mais de 35 milhões de pessoas em todo o mundo vivem com Alzheimer, mas a doença não afeta a população de maneira homogênea: mulheres são quase duas vezes mais acometidas que os homens.
O que o estudo investigou
Os pesquisadores quiseram entender como a menopausa e o uso de terapia de reposição hormonal (TRH) se relacionam com saúde mental (ansiedade e depressão), qualidade do sono, desempenho cognitivo e estrutura cerebral, especialmente áreas ligadas à memória e emoção.
Para isso, as participantes foram divididas em três grupos:
- Mulheres na pré-menopausa
- Mulheres pós-menopausa sem uso de TRH
- Mulheres pós-menopausa que usaram TRH
O estudo também analisou exames de ressonância magnética de cerca de 10,8 mil participantes para medir volumes de substância cinzenta em regiões-chave do cérebro.
Principais resultados
De forma geral, os achados sobre como a menopausa afeta o cérebro não foram muito animadores. As mulheres que já estavam na pós-menopausa — tanto as que usavam terapia de reposição hormonal quanto as que não usavam — tiveram pior desempenho em testes cognitivos quando comparadas às mulheres antes da menopausa.
Na prática, isso apareceu como piora da memória, redução da velocidade de raciocínio e tempos de reação mais lentos. Entre as que faziam TRH, a lentidão no tempo de reação foi um pouco menor, mas ainda assim houve queda no desempenho.
Quando os pesquisadores analisaram ansiedade e depressão, observaram que as mulheres que usavam TRH tinham mais desses diagnósticos. Porém, ao olhar o histórico, viram que muitas delas já apresentavam esses problemas antes da menopausa – o que pode indicar que o tratamento pode não ser a causa direta.
Outro ponto é que mulheres na pós-menopausa relataram pior qualidade do sono do que as que ainda não haviam passado por essa fase. Insônia e fadiga foram mais comuns nos dois grupos pós-menopausa, mas o cansaço foi mais intenso entre as que faziam reposição hormonal.
Como a menopausa impacta a substância cinzenta?
Os exames de ressonância magnética também mostraram chamaram atenção. As mulheres na pós-menopausa apresentaram menor volume de substância cinzenta — tecido do cérebro rico em neurônios — em várias regiões importantes, em comparação com mulheres na pré-menopausa.
Em termos simples, a substância cinzenta funciona como a “parte ativa” do cérebro, responsável por funções como memória, raciocínio e regulação emocional. Reduções nesse tecido podem estar associadas a pior desempenho cognitivo ao longo do tempo.
As áreas mais afetadas foram hipocampo, essencial para a formação da memória, córtex entorrinal, também ligado à memória e córtex cingulado anterior, importante para emoções e cognição.
Segundo os pesquisadores, essas mesmas regiões costumam ser comprometidas em pessoas que desenvolvem Alzheimer. Por isso, eles levantam a hipótese de que a menopausa possa ser um dos fatores por trás das taxas mais altas de demência em mulheres.
Embora a redução da substância cinzenta tenha ocorrido nos dois grupos de pós-menopausa, ela foi mais acentuada entre as mulheres que usaram TRH.
Fatores modificáveis
Embora os resultados não sejam animadores, especialistas destacam a importância dos hábitos para a saúde da memória. “Existe um ditado apropriado: ‘a genética carrega a arma e o estilo de vida puxa o gatilho'”, afirmou Sherry Ross, médica ginecologista e especialista em saúde da mulher do Providence Saint John’s Health Center, ao Medical News Today.
Essa analogia, de acordo com ela, mostra que predisposições genéticas para certas doenças podem fazer parte do destino, mas mudanças no estilo de vida podem minimizar os efeitos do envelhecimento sobre o cérebro.
Ross destacou que fatores modificáveis — como tabagismo, alimentação inadequada, sedentarismo e sono insuficiente — estão associados ao declínio cognitivo, além de doenças como problemas cardíacos e alguns tipos de câncer. Ou seja, não dá para colocar tudo na conta do ciclo hormonal.
“Mesmo que a menopausa leve a alguma perda de substância cinzenta, isso não significa automaticamente que haverá declínio cognitivo futuro ou demência”, disse Ross.
Limitações
Como todo estudo observacional, os resultados devem ser interpretados com cautela. A pesquisa mostra uma associação entre menopausa e alterações cerebrais, mas não permite afirmar que a menopausa seja a causa direta dessas mudanças.
Outro ponto é que informações como sintomas e uso de TRH foram autorrelatadas pelas participantes, o que pode gerar imprecisões. A amostra também era majoritariamente britânica, o que pode limitar a generalização para outras populações. Por fim, apenas um subgrupo realizou exames de ressonância magnética, o que reduz a força das conclusões sobre alterações estruturais no cérebro.





