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As polêmicas medidas extremas contra a obesidade infantil nos EUA

A Associação Americana de Pediatria lança um conjunto de orientações para atacar a epidemia — e o radicalismo das ações acende um acalorado debate

Por Amanda Péchy, Mafê Firpo
Atualizado em 10 mar 2023, 17h50 - Publicado em 10 mar 2023, 06h00

A obesidade infantil atinge 380 milhões de crianças e adolescentes no mundo todo e avança com preocupante rapidez, produzindo curvas ascendentes que fazem soar um alerta como nunca antes. Segundo pesquisa publicada no prestigiado periódico científico The Lancet, a doença já afeta dez vezes mais indivíduos em plena fase de formação do que há meio século — e, a seguir o ritmo atual, o problema se acentuará, fincado sob esta­tís­ti­cas que merecem pronta ação. Historicamente, muito se tentou combatê-­lo com mudanças de hábitos, mas essa postura não freou a escalada de quilos registrados na balança da garotada, fenômeno que tem tudo a ver com o estilo de vida de tempos modernos, pendurado em smartphones e alimentos ultraprocessados. Agora, a Asso­cia­ção Americana de Pediatria (AAP), cujas orientações reverberam para muito além dos Estados Unidos — onde a obesidade infantil tomou contornos de uma epidemia —, passou a defender uma radical cartilha para atacar a doença, que mexe tão profundamente com o lado psicológico e a saúde de quem sofre dela.

O recém-divulgado documento da AAP, o primeiro conjunto de diretrizes sobre a obesidade infantil soltado pela respeitada instituição, ecoou no meio médico, dividindo cientistas sérios que se debruçam sobre o tema. A base da polêmica se dá em torno das idades que a associação sugere para se iniciarem as intervenções — a começar pela invasiva cirurgia bariátrica, que elimina de forma irreversível uma relevante porção do estômago (cerca de 80%). Em países da União Europeia e no Brasil, a operação é recomendada a partir dos 18 anos, enquanto nos Estados Unidos a indicação foi antecipada para os 13.

A FAMÍLIA MUDOU - Quando comprou roupas de 10 anos para Aryanne, então com 4, Mariane Bastos se assustou. O diagnóstico de obesidade da filha mexeu com a casa toda. “Todos passaram a ter uma vida mais saudável”, conta
A FAMÍLIA MUDOU – Quando comprou roupas de 10 anos para Aryanne, então com 4, Mariane Bastos se assustou. O diagnóstico de obesidade da filha mexeu com a casa toda. “Todos passaram a ter uma vida mais saudável”, conta (./Arquivo pessoal)

Do mesmo modo, a ingestão de remédios para reduzir a fome, também normalmente recomendados a partir dos 18, salvo exceções, caiu em solo americano para os 12 anos. Com o olhar voltado para o rol de crianças que já sofrem tão precocemente com a obesidade — 20% dos pequenos americanos e americanas versus 10% dos brasileiros —, a Associação sugere aos pais que ataquem a doença desde os 2 anos. “Como estamos diante de um mal crônico com efeitos crescentes, é preciso identificá-lo e tratá-lo o mais cedo possível”, justifica a AAP.

arte obesidade infantil

A queda de braço se dá dentro do campo científico, com bons argumentos de um lado e de outro que, no conjunto, sugerem uma reflexão caso a caso. Um novo estudo publicado na revista científica Current Gastroenterology Reports mostra quanto a cirurgia bariátrica colhe efeitos positivos e desejáveis em adolescentes. Ela comprovadamente diminui em torno de 28% o índice de massa corporal, o IMC — um cálculo que leva em consideração o peso dividido pela altura ao quadrado, tudo ponderado de acordo com as médias de cada idade (uma relativização que só vale até os 18 anos). A intervenção à base do bisturi — seja com o método sleeve, que promove a remoção de uma parcela do estômago, ou o bypass, que o reduz com uma espécie de grampo — também está associada à remissão de diabetes tipo 2, hipertensão e decréscimo das placas de gordura no sangue, vilãs na obstrução das artérias.

LONGO PRAZO - Adultos obesos: 80% já sofriam da doença mais novos
LONGO PRAZO – Adultos obesos: 80% já sofriam da doença mais novos (iStock/Getty Images)

Até aí, ninguém discorda. As divergências afloram mesmo em relação aos posteriores desdobramentos da escolha cirúrgica. “A complicação mais comum é a deficiência de micronutrientes, já que a capacidade para sua absorção cai com o estômago diminuído”, diz a nutricionista Janet Colson, da Universidade Estadual do Tennessee. De 1 a 2 litros, o órgão passa a comportar 30 mililitros — numa etapa em que a criança precisa ser alimentada para girar as engrenagens do crescimento. “A bariátrica melhora a saúde, mas é sabido que pode comprometer o desenvolvimento infantil”, diz Colson. A asso­cia­ção americana reconhece os riscos. “Dados recentes revelam múltiplas deficiências de micronutrientes depois da operação, o que enfatiza a necessidade de um monitoramento no longo prazo”, pontua o documento oficial, que centra a orientação para realizar a cirurgia tão cedo naqueles casos considerados graves, quando o IMC corporal está 42% acima do tido como ideal.

Na seara dos remédios que limitam o apetite e auxiliam na perda de peso, reside outro ponto de discórdia. O aval da AAP para que o consumo deles se dê a partir dos 12 anos (no Brasil, a idade é em geral 18) atiçou as labaredas de um velho debate. Nele, posições mais conservadoras prevaleceram, baseadas nos riscos embutidos nessa categoria de medicamentos, que podem gerar alta dependência e até levar à morte. Mas a ciência vem sendo célere nessa área, em que surgiu recentemente uma categoria conhecida como “agonistas do receptor GLP-1”, mais eficazes e, pelo que se observou até agora, sem o deletério efeito da dependência (veja abaixo). Aprovada pelas agências americana (FDA) e brasileira (Anvisa), tais drogas foram testadas em crianças de 12 anos ou mais, com bons resultados. Uma ala de especialistas, porém, vê ainda a necessidade de um conjunto mais robusto de pesquisas. “A maioria dos estudos durou de um a dois anos, um experimento em tempo real que exigirá um acompanhamento mais prolongado”, avalia Myles Faith, especialista em obesidade infantil da Universidade de Buffalo, em Nova York.

Os medicamentos dão um empurrão à perda de peso, mas não contêm a cura para a obesidade — uma batalha que passa por tratamentos os mais diversos, mirando um modo diferente de viver. Os mais renomados especialistas recomendam um leque (para a criança e sua família) que inclui educação alimentar para todos e orientação sobre atividades físicas, plano de ação que conta com médico, nutricionista, psicólogo e preparador físico. No Brasil, 7,2 milhões apresentam obesidade infantil, sendo que a incidência de sua manifestação mais grave quase dobrou em três anos, atingindo 3% da criançada. “O Brasil dá foco máximo à dieta para tratar a doença”, enfatiza a nutricionista Cecilia Lacroix. Ela vê a antecipação da cirurgia nos Estados Unidos com cautela, por desconsiderar “riscos psicológicos” — visão compartilhada por uma parcela da população que encara o problema sob o próprio teto. Mariane Bastos, 36, mãe de Aryanne, 6, diagnosticada com obesidade aos 4, ficou apreensiva com as diretrizes americanas. “Minha filha entrou em um programa de reeducação alimentar há oito meses, que acho mais adequado do que remédio e cirurgia, e isso já está dando resultados significativos”, conta.

COMEÇOU CEDO - Israel Sturne, 32, soube que o filho Kael, então com 3 anos, sofria de obesidade. Hoje, aos 5, ele pratica atividades físicas e é acompanhado por um endocrinologista e um nutricionista. “Não descarto a cirurgia”, diz o pai
COMEÇOU CEDO – Israel Sturne, 32, soube que o filho Kael, então com 3 anos, sofria de obesidade. Hoje, aos 5, ele pratica atividades físicas e é acompanhado por um endocrinologista e um nutricionista. “Não descarto a cirurgia”, diz o pai (./Arquivo pessoal)

Por muito tempo, apostava-se que hábitos alimentares mais saudáveis seriam o motor para estancar o aumento da obesidade infantil. Mas o que se notou da década de 70 em diante foi a expansão do problema, amplificado pelo consumo de alimentos com doses exageradas de conservantes e outros produtos químicos, movimento que não para de crescer — hoje o segmento de fast food fatura 100 vezes o que registrava meio século atrás. Em paralelo, o sedentarismo virou praga, atingindo 81% dos adolescentes, uma geração fissurada em telas de computador e smartphones e que se levanta cada vez menos da cadeira. Nos anos 2000, a compreensão sobre a obesidade ganhou impulso ao se revelar, pela primeira vez, o peso da genética — que se soma de forma decisiva aos fatores comportamentais então conhecidos. “Foi um divisor de águas para atacar o problema caso a caso”, diz David Levitsky, professor de ciências nutricionais da Universidade Cornell.

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A obesidade costuma acompanhar o indivíduo por toda a vida, daí a necessidade de atacá-la pela raiz. Segundo um estudo publicado na Obesity Reviews, revista científica da Federação Mundial de Obesidade, 55% das crianças obesas mantêm o sobrepeso na adolescência e 80% destes, por sua vez, assim seguirão na idade adulta. A Associação Americana de Pediatria ressalta que a recomendação de medicamentos e cirurgias não é imperativa, mas abre trilhas possíveis para debelar o mal. “Medidas semelhantes deveriam ser tomadas no Brasil”, afirma Israel Sturne, 32 anos, pai de Kael, 5, diagnosticado com obesidade aos 3. Em nome do pequenino, a família, que não descarta uma eventual cirurgia bariátrica, melhorou o estilo de vida. Está aí um ciclo virtuoso que, desencadeado em larga escala, pode se tornar decisivo para impedir que as curvas da obesidade sigam produzindo números impressionantes que ninguém mais quer ver.

Viva a ciência

NOVA SAFRA - O Ozempic, à base de semaglutida: sensação de saciedade sem efeitos colaterais
NOVA SAFRA - O Ozempic, à base de semaglutida: sensação de saciedade sem efeitos colaterais (./Shutterstock)

Um conjunto de fatores — genéticos, ambientais, psicológicos — conspira para que uma pessoa apresente um diagnóstico de obesidade. Por isso, o problema costuma ser atacado de variadas maneiras, e uma delas passa pela ingestão de remédios para frear o apetite. Eles sempre foram vistos com justificado ceticismo, por provocar desde mudanças de humor e dependência até, em casos extremos, a morte. Pois agora há opções comprovadamente mais seguras e eficazes. Em janeiro, chegou ao mercado uma nova geração desses medicamentos, cujos benefícios superam, de longe, seus efeitos adver­sos. Conhecidos como “agonistas do receptor GLP-1”, apareceram de forma curiosa: já empregados no tratamento de diabetes, acabaram por levar à perda de peso. Nessa safra, encontra-se a substância semaglutida, que simula no organismo a liberação de hormônios que esti­mu­lam a sensação de saciedade graças à lentidão no esvaziamento gástrico, além de diminuir o desejo de comer. Aprovada pela Anvisa, a droga injetável reduz em até 17% o peso em 68 semanas. Espera-se ainda a liberação da tirzepatida, regida pelo mesmo princípio. Tal evolução é um motivo e tanto para celebrar: está aí uma descoberta que pode dar um tremendo empurrão no duro combate à obesidade.

Publicado em VEJA de 15 de março de 2023, edição nº 2832

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