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‘Médicos por natureza’: o poder de cura dos animais

Literal e metaforicamente, eles têm muito a nos ensinar... E podem inclusive nos ajudar a superar os obstáculos da vida, defende autora em novo livro

Por Diogo Sponchiato Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 17 set 2026, 12h30 | Atualizado em 17 set 2026, 16h51
‘Médicos por natureza’: o poder de cura dos animais Priorizar nos meus resultados Google

“Médicos por natureza”. É assim que a escritora britânica Jay Griffiths se refere aos animais.

Do cão ao lobo, da abelha à baleia, do beija-flor ao corvo. Os bichos podem nos livrar de doenças e perigos… E nos ajudar a salvar o mundo. De forma literal e metafórica.

É o que descortinamos no livro Como Os Animais Nos Curam, publicado pela Editora Zahar, obra em que a ensaísta explora dos mitos à ciência para mostrar o que as demais espécies fazem e nos ensinam para manter a mente, o corpo e o planeta sãos.

Griffiths reúne histórias de animais que socorrem seus donos, conta as origens da terapia assistida por pets (hoje presente até em hospitais) e, voando mais longe, não só expõe inúmeros exemplos inspiradores encontrados na própria natureza como resgata lendas e tradições de múltiplas culturas que colocam os bichos no centro do cuidado com a saúde, em seus mais amplo sentido – lembremos que o símbolo da medicina ocidental é uma serpente.

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Capa do livro Como os Animais nos Curam de Jay Griffiths, com um cachorro deitado, pelagem branca e cinza, olhando para cima. O logo da editora Zahar está no canto inferior esquerdo
Como os animais nos curam, de Jay Griffiths, tradução de Daniel Turela Rodrigues, Editora Zahar, 392 páginas (Capa: Zahar/Reprodução)

Se um cachorro ou um gato nos auxiliam a prevenir e tratar desordens físicas e psíquicas – estudos atestam efeitos contra depressão e hipertensão, para citar duas delas -, espécies que vivem por aí, longe de casa, inspiram condutas capazes de nos curar como sociedade. O lobo dá lições de ética; o corvo estimula curiosidade; o salmão instila generosidade; a aranha demonstra paciência…

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Um livro que, ao expor a riqueza, a beleza e a potência do mundo animal, nos convida a olhar para o próprio umbigo – afinal, também somos animais – e a enxergar que temos muito a aprender com nossos parentes e vizinhos na Terra.

Com a palavra, Jay Griffiths.

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Entre as muitas histórias de cura e salvação que você compartilha no livro, existe alguma que lhe tocou mais? A de Lulu, uma porca de barriga de pote [espécie também conhecida como porco vietnamita]. Porcos podem ser inteligentes, excelentes na resolução de problemas e capazes de criar laços estreitos com seres humanos. Uma americana, Jo Ann, criava Lulu como animal de estimação dentro de casa quando, certo dia, começou a sentir fortes dores no peito. Ela estava sozinha e ninguém conseguia ouvir seus gritos de socorro — exceto a porca. Então Lulu forçou a saída por uma portinhola para cães pequena demais para ela, chegou a um cruzamento e tentou, por três vezes, parar um carro deitando-se na pista. Quando finalmente conseguiu, ela levou o motorista até a casa. O motorista chamou uma ambulância e Jo Ann sobreviveu. O que acho tão comovente nisso não é apenas a devoção que leva a porca a ajudar, nem a inteligência de seu plano, mas a perseverança. Mesmo após o fracasso das primeiras tentativas, ela continua insistindo. Essa persistência ressalta que sua ajuda foi deliberada. Não foi obra do acaso: ela escolheu vir em socorro e fez essa escolha repetidamente.

Você conta que os animais estão na gênese das cidades e até dos hospitais. O que perdemos ao esquecer essa origem? Mitos são verdades ampliadas. Por milhares de anos, os mitos nos mostraram como os animais estão intrinsecamente ligados ao nosso bem-estar e como eles contribuíram para a fundação das civilizações e a história da medicina — que, ainda hoje, tem a serpente como símbolo de cura no logotipo da Organização Mundial da Saúde e em tantos outros ambientes médicos. Ao esquecermos essas origens, também nos desconectamos das mentes animais que nos cercam no presente, da infinidade de criaturas que são gloriosamente conscientes, que pensam, riem e, de fato, sonham. Sem elas, nosso lugar no mundo é solitário.

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Quais são as lições mais valiosas sobre ética, equidade e coesão social que podemos aprender com os animais? Provavelmente herdamos nossa ética dos lobos. Os primeiros seres humanos observaram e aprenderam com eles: a alcateia geralmente permite que o lobo mais faminto coma primeiro, e os adultos costumam dividir as tarefas de cuidar dos filhotes. Os lobos mantêm uma espécie de estado de bem-estar social, cuidando dos doentes e feridos e compartilhando alimentos com aqueles que estão velhos demais para caçar. O ethos do lobo-cinzento é o que mais se aproxima do ethos humano em toda a natureza — e eles já faziam isso antes de nós. Com cães e macacos-prego, entre outros, podemos aprender sobre justiça e equidade. Com as abelhas, podemos aprender a tomar decisões por consenso e, de fato, a importância de dizer a verdade, já que as abelhas batedoras avaliam e relatam honestamente o que encontram. Um novo local é escolhido quando todas as abelhas dançam em uníssono. Então observe a natureza, diga a verdade, dance em conjunto.

Na sua opinião, no que ainda precisamos evoluir em relação aos direitos dos animais? Nós, humanos, somos bons em perceber atos individuais de crueldade contra animais específicos. A maioria de nós detestaria ver uma onça sendo torturada para servir de jantar. No entanto, falhamos em atentar para a brutalidade normalizada das criações industriais, que são insuportavelmente cruéis. Mas há mais. Muitos animais de criação são alimentados com soja cultivada em vastas áreas da Amazônia (e em outros lugares), o que resulta na destruição do habitat de animais selvagens. Suas terras são perdidas, suas árvores são derrubadas e seus lares são destruídos. É assim que matam as onças: uma salada de frango de cada vez.

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Você afirma que a nossa sobrevivência — incluindo nosso bem-estar psicológico — depende dos animais. Por que isso se torna ainda mais crítico em tempos de crise climática e ambiental? A crise climática e ambiental é, em parte, uma crise de atenção. A cultura dominante quase não presta atenção aos insetos, mas eles são os anjos necessários; dependemos totalmente deles e lhes devemos tudo. Sem os insetos, nós, humanos, não conseguiríamos sobreviver por mais do que alguns meses. Trata-se também de uma crise de pensamento. A sociedade moderna precisa se voltar para as sabedorias mais antigas, ouvindo os detentores de conhecimentos indígenas, que sempre disseram que são os animais que nos curam.

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