Irene Vallejo: “A leitura nos conecta”
Diante da onipresença das telas em um mundo conectado e da queda do hábito de leitura, a escritora espanhola faz uma defesa apaixonada dos livros
O que só as palavras escritas têm a nos oferecer? Desde os primórdios, os livros têm sido um escudo da memória. Tudo seria devorado pelo esquecimento, mais cedo ou mais tarde. Sem eles, ficaríamos órfãos das palavras que nos definem e dos caminhos para a democratização do conhecimento.
Qual é o maior inimigo dos livros hoje? Eles têm inimigos desde o princípio: a censura, o elitismo e a indiferença. Mas, com um livro em mãos, dominamos o tempo, internalizando o que queremos assimilar, e não o que nos é imposto como propaganda. Nesta era acelerada, os livros emergem como aliados para recuperar a concentração, a reflexão serena e o pensamento independente. A leitura pode ser um ato de resistência em uma época vigiada e invadida por flashes nervosos que nos atordoam.
Em Manifesto pela Leitura (Editora Dublinense), a senhora diz que ler é uma ginástica para a saúde. Por quê? Ler é uma forma de se cuidar. Um estudo revelou que se dedicar à leitura por apenas seis minutos antes de dormir reduz o estresse em até 68%, de forma mais eficaz do que a maioria das outras atividades. Ler também estimula a criatividade e a imaginação, dando asas às áreas do cérebro onde se encontra o freio da ansiedade. Além disso, neurologistas estão descobrindo que a leitura está entre os melhores exercícios possíveis para manter o cérebro e as habilidades mentais em forma — é uma estratégia preventiva até contra a doença de Alzheimer.
E é um exercício democrático também, não? Os livros oferecem uma academia acessível e barata para a inteligência em todas as idades e, só por isso, seria aconselhável incluí-los na educação desde a primeira infância e mantê-los ao longo da vida. A leitura é a ebulição de nossos neurônios, como se fosse um Big Bang luminoso no santuário das nossas mentes.
Que conselho daria a alguém que quer começar a ler mais livros ou retomar o hábito? Acredito que os benefícios da leitura surgem quando a abordamos com curiosidade, mente aberta e desejo de apreciá-la. Se lemos por obrigação, por força ou sem liberdade, ela não rende frutos. Nunca devemos nos preocupar com a quantidade de livros que lemos: não é uma competição. Participar de um clube do livro pode ser uma ótima maneira de reacender o entusiasmo pela leitura e, ao mesmo tempo, encontrar aliados. Mas também vale reler um livro que lhe marcou profundamente ou ler em voz alta para crianças. No fundo, trata-se de usar a leitura para se conectar com outras pessoas.
Publicado em VEJA de 2 de outubro de 2026, edição nº 3015







