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Implante de medula permite que pacientes paraplégicos andem

O novo dispositivo com impulsos elétricos, ainda em estudo, mostrou a capacidade de reparar os nervos danificados

Por Da Redação Atualizado em 6 nov 2018, 14h15 - Publicado em 5 nov 2018, 18h32

Três pessoas com paraplegia conseguiram andar novamente com a ajuda de um implante que estimula a médula através de ondas elétricas, mostrou artigo publicado na revista NatureOs pesquisadores da Universidade de Lausanne, na Suíça, revelaram que o mecanismo permitiu aos pacientes caminhar com auxílio de andadores e muletas; em alguns momentos, eles até mesmo conseguiram dar alguns passos sem qualquer suporte.  

Lesões medulares interrompem a comunicação através do sistema nervoso, levando à perda de funções neurológicas e paralisia. Normalmente, os nervos da medula enviam sinais cerebrais para as pernas; no entanto, no caso de indivíduos paraplégicos, o sinal é geralmente muito fraco para criar movimento. Para contornar essa falha na comunicação, o implante potencializa o sinal do cérebro, permitindo que os músculos das pernas sejam ativados. “Este pequeno dispositivo é um gerador de impulsos, ativando o eletrodo que está localizado [implantado] na medula espinhal”, explicou Jocelyne Bloch, uma das autoras do estudo, à CBS News.

Além disso, de acordo com Gregoire Courtine, cientista que desenvolveu a técnica, o implante mostra indícios de reparação dos nervos danificados. “As fibras nervosas estão crescendo novamente. Elas estão reconectando o cérebro à medula”, contou à CBS News. Por causa deste resultado inesperado, a equipe está confiante de que a paralisia possa ser revertida em algum grau, embora ainda seja necessário determinar até que ponto. 

Um dos pacientes que estão sentindo os efeitos do dispositivo é David Mzee, cuja paraplegia já durava sete anos. É ele quem controla a estimulação – que acontece remotamente através de um relógio. Quando ativado, Mzee é capaz de andar cerca de 800 metros com a ajuda de um andador ou muletas para apoio.

  • Terapia STIMO

    O novo tratamento, chamado de Movimento de Estimulação Imaterial (STIMO, na sigla em inglês), consiste em implantar uma série de eletrodos que visam grupos específicos de músculos das pernas. Esses eletrodos imitam os sinais que o cérebro forneceria ao sistema nervoso para produzir o movimento. Para desenvolver a técnica, a equipe levou em consideração dois fatores cruciais: a precisão do direcionamento do estímulo e o tempo dos impulsos. 

    Essas duas condições costumam ser estabelecidas para evitar uma interferência na propriocepção, que é a capacidade de sentir a posição e o movimento corporal por meio do processamento de sinais provindos do próprio corpo. “O momento exato e localização da estimulação elétrica são cruciais para a capacidade de um paciente de produzir o movimento pretendido”, disse Jocelyne ao Medical News Today.  

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    De acordo com os pesquisadores, para assegurar que os dois princípios fossem respeitados, os pacientes tiveram que aprender a cronometrar a intenção de andar com os pulsos de estimulação. Essa “calibração” foi realizada durante a primeira semana; a partir daí, eles começaram a caminhar com ajuda de suportes, como andadores e muletas. Todos os pacientes puderam andar usando o suporte de peso corporal dentro de uma semana. Eu soube imediatamente que estávamos no caminho certo”, comentou Jocelyne. 

    Resultados inesperados

    Em cinco meses, os três homens já mostraram melhora no controle muscular voluntário, indicando que o sistema nervoso estava não apenas reagindo ao tratamento, como também desenvolvendo plasticidade e reorganizando as fibras nervosas. Isso levou a uma melhoria na capacidade de movimento mesmo na ausência de estimulação. O estudo indicou ainda que os pacientes não apresentaram fadiga nos músculos das pernas e andavam com as mãos livres por mais de um quilômetro durante as sessões de reabilitação. 

    Agora, os pesquisadores esperam transformar essas descobertas em tratamentos personalizados. Eles também estão desenvolvendo outro método que possa ser usado logo após a lesão, quando há maior chance de recuperação uma vez que o tecido afetado não começou a morrer. 

  • Outras técnicas

    Outro estudo do gênero, publicado em setembro no New England Journal of Medicine, apresentou um dispositivo similar. Essa técnica, chamada de estimulação epidural, explora possíveis sinais ativos no cérebro que atravessam a região lesionada. O dispositivo – desenvolvido inicialmente como uma ferramenta para controle da dor – é inserido abaixo do local da lesão, cobrindo regiões que enviam sinais sensitivo-motores para as pernas. A frequência, intensidade e duração dos estímulos elétricos são produzidos por uma bateria sem fio implantada na parede abdominal. 

    Segundo Claudia Angeli, uma das pesquisadores do estudo americano, quando o dispositivo começa a funcionar dentro do corpo, a estimulação elétrica produzida pode aumentar a excitabilidade da medula espinhal, tornando-a mais alerta. “É como se fosse mais consciente; na verdade, a medula pode ‘ouvir’ esse pequeno ‘sussurro’ do cérebro, que ainda está lá e pode gerar padrões motores”, disse ao jornal britânico The Guardian. Ela ainda salientou que para funcionar perfeitamente, é essencial vincular movimentos aos sinais emitidos pelo aparelho, motivo pelo qual os participantes fazem o treinamento locomotor.

    Outras pesquisas buscam recuperar lesões na medula usando células especiais retiradas do nariz do paciente, assim como fibras nervosas para corrigir o local da lesão. “Estamos procurando não apenas uma cura natural ou biológica para a paralisia, mas uma cura permanente”, ressaltou Mike Milner, CEO da Nicholls Spinal Injury Foundation, ao The Guardian. 

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