Oferta Relâmpago: VEJA por apenas 9,90

É TDAH ou não é? As confusões em torno de um diagnóstico

As prescrições para a condição refletem maior acesso a diagnóstico e tratamento baseados em evidências, e não uma epidemia

Por Douglas Motta Calderoni* 12 mar 2026, 08h00 • Atualizado em 12 mar 2026, 10h11
  • A percepção popular sugere que a incidência do Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) explodiu nos últimos anos. São comuns os relatos de dificuldade para ler um livro e reter as informações, ver um filme ou uma série sem se distrair com o celular ou concluir tarefas simples, mas o mais provável é que se trate de uma profunda dificuldade de manter a atenção, e não de um transtorno neurobiológico.

    Sintoma dos novos tempos, intensificado pelo estresse crônico da pandemia de covid-19 e pela cultura da multitarefa digital, essa distração generalizada está sendo erroneamente rotulada como o transtorno.

    Quando olhamos para os dados, vemos que a prevalência global de TDAH se mantém estável entre 8% e 10%, segundo estudos. O que realmente aumentou foi a capacidade de reconhecer e tratar melhor quem sempre teve o transtorno e não recebia o diagnóstico adequado.

    De acordo com as diretrizes da American Academy of Pediatrics, as prescrições para a condição refletem maior acesso a diagnóstico e tratamento baseados em evidências, e não uma epidemia. Sabemos que a criança com TDAH tem maior chance de se tornar um adulto com depressão e ansiedade, por isso, a medicação felizmente perdeu boa parte do estigma que tinha.

    Se falamos mais sobre TDAH, ampliamos as chances de que as pessoas que têm o transtorno de fato tenham o atendimento necessário. Por outro lado, cresce o risco de diagnósticos errôneos, apressados e impulsionados tanto por consultas rápidas como por listas de sintomas divulgadas nas redes sociais. Entre 20% e 23% das pessoas que usam medicamentos para TDAH não atendem aos critérios completos do transtorno quando avaliadas formalmente.

    Continua após a publicidade

    Por isso, é importante ressaltar que o TDAH começa sempre na infância, em geral, até os 12 anos. É preciso olhar com cuidado para a história clínica e para a vida escolar de cada pessoa com suspeita de TDAH e fazer perguntas chave: ela sempre teve dificuldade de manter a atenção mesmo em tarefas lúdicas? Cometia erros por descuido? Parece não escutar quando falam com ela? Tem dificuldade de começar e terminar as coisas, de organizar as suas atividades? Evita situações que sabe que vão ser difíceis? Perde muitos objetos? Esquece-se de atividades do dia a dia?

    Se esses sintomas não existiam na infância, mas aparecem na vida adulta, podem ser frutos de outra questão – ansiedade, estresse, burnout, depressão, insônia ou mesmo excesso de tarefas. Mas não TDAH.

    Excesso de telas, interrupções constantes, sobrecarga cognitiva, falta de sono e demandas infinitas prejudicam a atenção de qualquer pessoa, o que é particularmente preocupante entre as crianças.

    Continua após a publicidade

    Não é à toa que a expressão do ano de 2024, segundo o Dicionário Oxford, foi “brain rot” (cérebro apodrecido). Não gravamos mais na nossa memória os números de telefone, os caminhos pelas ruas ou as respostas das pesquisas que fazíamos. Terceirizamos essas e tantas outras tarefas e vivemos numa velocidade para a qual não fomos feitos.

    Se queremos uma discussão séria sobre o tema, precisamos de duas frentes: educação para diferenciar distração cotidiana de um transtorno neurobiológico real, e diagnóstico responsável, feito por profissionais capacitados. O TDAH é um transtorno sério, que pode causar muito sofrimento psíquico e prejuízos educacionais, pessoais e profissionais. Atribuir qualquer dificuldade de foco ao transtorno só atrapalha quem realmente precisa de ajuda.

    *Douglas Motta Calderoni é professor da Afya Educação Médica, é médico formado pela USP (Universidade de São Paulo) e psiquiatra pelo Instituto de Psiquiatra do HCFMUSP (IPq)

    Publicidade

    Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

    Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

    15 marcas que você confia. Uma assinatura que vale por todas.

    MELHOR OFERTA

    Digital Completo