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Deltacron: a história da variante que nunca existiu

Notícias de uma "super variante" combinando delta e ômicron se espalharam, mas pesquisadores afirmam que se trata de um erro de laboratório

Por Simone Blanes Atualizado em 25 jan 2022, 11h38 - Publicado em 24 jan 2022, 18h21

No dia 7 de janeiro, o virologista Leondios Kostrikis anunciou em uma emissora de televisão local que seu grupo de pesquisa da Universidade do Chipre, em Nicósia, havia identificado vários genomas de SARS-CoV-2 que apresentavam elementos das variantes delta e ômicron. Nomeados por eles como “deltacron”, Kostrikis e sua equipe enviaram, naquela mesma noite, 25 sequências para o popular laboratório público GISAID, e as outras 27, alguns dias depois. No dia seguinte, a agência de notícias financeiras Bloomberg publicou a história e a suposta “super variante” tornou-se notícia internacional.

Mas a resposta da comunidade científica foi rápida. Muitos especialistas declararam, tanto nas redes sociais quanto na imprensa, que as 52 sequências não apontavam para uma nova variante e não eram resultado de recombinação – compartilhamento genético de informações – entre vírus, mas provavelmente resultado de erros de laboratório. “Não existe deltacron”, disse Krutika Kuppalli, membro da equipe técnica da Covid-19 da Organização Mundial da Saúde (OMS), em 9 de janeiro, via twitter. “A ômicron e a delta não formaram uma super variante”, acrescentou.

Desinformação

A história por trás de como uma pequena amostra de sequências do SARS-CoV-2 se tornou o foco de uma breve e intensa controvérsia científica é complicada. E embora alguns pesquisadores tenham aplaudido o sistema por rapidamente detectar um possível erro de sequenciamento, outros alertaram que esses eventos poderiam oferecer um alerta sobre a disseminação da desinformação durante a pandemia.

Kostrikis se defendeu dizendo que aspectos de sua hipótese original foram mal interpretados e que – apesar do nome confuso que alguns meios de comunicação colocaram para as sequências – ele nunca disse que representavam um híbrido das duas cepas. 72 horas após os pesquisadores carregarem as sequências, no entanto, Kostrikis as removeu da exibição pública no banco de dados, aguardando uma investigação mais aprofundada.

Cheryl Bennett, funcionária do escritório da Fundação GISAID, em Washington, capital dos Estados Unidos, declarou que, como mais de 7 milhões de genomas de SARS-CoV-2 foram carregados no banco de dados desde janeiro de 2020, alguns erros de sequenciamento não deveriam ser uma surpresa. “Tirar conclusões precipitadas sobre dados que acabaram de ser disponibilizados por laboratórios que se encontram sob uma significativa pressão de tempo para gerar dados em tempo hábil, não é útil em nenhum surto”.

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Erro de sequenciamento?

As sequências da “deltacron” foram geradas a partir de amostras de vírus obtidas por Kostrikis e sua equipe em dezembro de 2020, como parte de um esforço para rastrear a disseminação das variantes do SARS-CoV-2 no Chipre. Ao examinar algumas de suas sequências, os pesquisadores notaram uma assinatura genética semelhante à ômicron no gene da proteína spike, que o vírus utiliza para invadir as células humanas.

Em um e-mail para a revista Nature, Kostrikis explicou que sua hipótese inicial era que algumas partículas da delta evoluíram, independentemente das mutações no gene spike semelhantes às encontradas na ômicron. Só que, após a ampla cobertura jornalística, outros cientistas que trabalham com sequenciamento genético e Covid-19 apontaram outra possibilidade: um erro de laboratório.

“O sequenciamento de qualquer genoma depende de primers – pequenos pedaços de DNA fabricados que servem como pontos de partida para o sequenciamento, ligando-se à sequência alvo. A delta, no entanto, possui uma mutação no gene spike que reduz a capacidade de alguns primers de se ligarem a ela, dificultando o sequenciamento dessa região do genoma. A ômicron não compartilha dessa mutação, portanto, se alguma partícula da nova cepa for misturada na amostra por contaminação, isso pode fazer com que o gene de pico sequenciado pareça semelhante à da ômicron” explicou Jeremy Kamil, virologista da Universidade Estadual da Louisiana, nos Estados Unidos. “Esse tipo de contaminação é comum”.

Kostrikis argumentou que se a deltacron fosse um produto de contaminação, o sequenciamento deveria ter revelado sequências de ômicron com mutações do tipo delta, já que a ômicron tem sua própria mutação. Ele acrescentou ainda que o argumento de contaminação do laboratório foi “encabeçado pelas mídias sociais sem considerar nossos dados completos e sem fornecer nenhuma evidência real sólida de que não é real”.

Outros pesquisadores, no entanto, também apontaram que mesmo que as sequências não sejam resultado de contaminação, as mutações identificadas por Kostrikis não são exclusivas da ômicron e são encontradas em outras variantes, tornando “deltacron” um nome inapropriado. “Na verdade, o GISAID está repleto de sequências que possuem elementos de sequências vistas em outras variantes”, disse Thomas Peacock, virologista do Imperial College, em Londres. “Essas sequências ‘são carregadas o tempo todo’. Mas, geralmente, as pessoas não precisam desmascará-los porque não há uma carga de imprensa internacional em cima deles”, completou.

Agora, Kostrikis afirmou que está “em processo de investigar todas as opiniões cruciais expressas por cientistas proeminentes de todo o mundo sobre meu recente anúncio”. Ele disse que planeja enviar a pesquisa para revisão por pares. Enquanto isso, Kamil e outros cientistas temem que tais incidentes possam tornar os pesquisadores mais hesitantes em compartilhar dados sensíveis. “Você tem que permitir que a comunidade científica se autocorrija”, declarou. “E, em uma pandemia, precisa facilitar o compartilhamento rápido de dados do genoma viral, porque é assim que encontramos variantes”,.

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