Da boca para o corpo: novos estudos disparam alerta sobre dentes em mau estado
A ciência reúne cada vez mais provas de que eles também põem em risco outros cantos do organismo, sobretudo o cérebro e o coração
Ainda que vivesse cercada de luxos, mordomias e maquiagens, a rainha Elizabeth I (1533-1603) não tinha uma arcada dentária digna de orgulho. Documentos históricos revelam que a monarca britânica nutria uma paixão insaciável por doces e, na tentativa de conservar os dentes bonitos, chegava a usar uma pasta à base de açúcar — algo que dez em cada dez dentistas hoje jamais recomendariam. Pode-se discutir ou não se a má saúde bucal concorreu para a rainha morrer antes de completar 70 anos, mas, com o conhecimento científico atual, não resta dúvida de que as desordens orais são capazes de aprontar problemas à distância, em outros órgãos, e inclusive podar anos de vida pela frente. Ressoando esse alerta, novas pesquisas comprovam que a higiene deficitária e algumas doenças da boca são realmente uma ameaça para o corpo.
O perigo reside especialmente em bactérias que vivem ali, alimentando-se de restos de comida, e, sem o devido controle, acumulam-se em placas e disparam um processo inflamatório na gengiva e em suas vizinhanças. Esse fenômeno começa silencioso, com uma gengivite, e pode evoluir a ponto de corroer o tecido de sustentação dos dentes, na fase denominada periodontite. Trata-se de um problema na boca do povo: estima-se que 90% dos brasileiros, sim, desenvolvam algum grau da condição em algum momento da vida. A questão é que as moléculas inflamatórias e até os microrganismos não ficam confinados à boca. Podem acessar a circulação sanguínea e ganhar passe livre pelo organismo. Desse modo, chegam até o cérebro, como mostra um novo experimento chinês que detectou a presença de bactérias da periodontite na massa cinzenta de pessoas com Alzheimer — no grupo controle, sem a demência, elas não foram avistadas. O achado é um indicativo de que a má saúde bucal pode impactar até mais diretamente o declínio cognitivo do que se pensava.
Não só. A inflamação crônica despertada pela chamada doença periodontal — periodonto é o tecido que dá suporte aos dentes — arma confusões no cérebro e em outras paragens. “Sabemos que esse processo nas gengivas aumenta o risco de demência, principalmente Alzheimer, mas ainda faltam estudos esclarecendo quanto essa relação é direta”, diz a neurologista Elisa de Paula Resende, coordenadora do Departamento Científico de Neurologia Cognitiva e do Envelhecimento da Academia Brasileira de Neurologia. Além do efeito das bactérias e substâncias migratórias, um círculo vicioso é instalado quando o cérebro fica comprometido. A higiene bucal se torna defasada e a falta de limpeza, por sua vez, colabora com a inflamação sistêmica.
O coração também não sai ileso nessa história. Pesquisas indicam que uma variedade de danos cardíacos está relacionada a bactérias bucais. A explicação é mais simples do que parece: quando há inflamação nas gengivas ou uma infecção malcuidada, o corpo entra em estado de alerta constante. Uma situação de estresse fisiológico que prejudica os vasos sanguíneos e contribui para a obstrução das artérias — o estopim para infartos. Outra complicação tem a ver com os próprios micróbios das paragens bucais. Ao cair em circulação, podem viajar até o coração. “Ali, se alojam nas válvulas do órgão, provocando uma infecção grave, a endocardite”, afirma a cardiologista Auristela Ramos, da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp).
Essas descobertas não vêm de hoje, mas sedimentam uma preocupação cada vez mais evidente das associações médicas, que reforçam que a saúde da boca não pode ser desconectada da do corpo. “O debate hoje não é mais se existe associação — isso já está bem documentado. A questão é saber se a doença periodontal é um fator de risco independente ou se ela caminha junto com outros vilões, como tabagismo, diabetes e obesidade”, explica o dentista Frederico Buhatem Medeiros, assessor científico do Departamento de Odontologia da Socesp.
Sob essa perspectiva, o check-up odontológico anual não serviria apenas para poupar cáries, periodontite e outros dissabores, mas também para afastar ameaças às artérias, aos neurônios e ao músculo cardíaco. Mais: serviria para evitar do descontrole do diabetes ao parto prematuro numa gestação de risco. E essas medidas preventivas também passam pela onipresente orientação da higiene bucal adequada. Uma questão em que o brasileiro ainda deixa a desejar. Não só por negligenciar o hábito, mas por pecar por um tempo insuficiente de escovação. Um novo estudo da Unicamp revela que, ao deixarem o creme dental agir por menos de dois minutos, as pessoas perdem parte importante do efeito do flúor na dentição. Esse ritual, portanto, não combina com pressa. É um investimento precioso pelo bem da boca — e do corpo inteiro.
Publicado em VEJA de 6 de março de 2026, edição nº 2985






