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Covid-19: Estudos sugerem risco de transmissão de gestantes para bebês

Artigo de revista acadêmica revelou que três crianças chinesas testaram positivo para Covid-19; sete dias depois, porém, estavam livres da doença

Por Alexandre Senechal Atualizado em 22 abr 2020, 16h29 - Publicado em 22 abr 2020, 16h19

O avanço dos estudos sobre o comportamento do novo coronavírus trouxe uma novidade importante em relação às gestantes. Os últimos relatos sobre os casos na China indicam que há, sim, a possibilidade das mães contaminarem os bebês durante a gravidez – algo que era descartado até pouco tempo atrás.

Um artigo publicado pela revista acadêmica Journal of the American Medical Association (Jama, na sigla em inglês) revelou que três crianças nascidas na China apresentaram um quadro de pneumonia grave e testaram positivo para Covid-19. Sete dias depois, porém, os bebês já não apresentavam mais sinais do vírus no corpo.

  • “Como se trata de uma doença nova, muita coisa pode mudar em pouco tempo. O que as pesquisas começam a mostrar é que existe a possibilidade da transmissão vertical [aquela em que a mãe contamina o bebê antes de nascer]. Ainda são poucos relatos, mas isso não pode ser descartado”, afirma Ana Carolina Lúcio Pereira, ginecologista membro da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo).

    Como se tratam apenas de estudos de casos com uma baixa amostragem, a transmissão vertical ainda não é uma verdade absoluta na comunidade médica. O início do aparecimento de crianças com o vírus após o nascimento, porém, significa que a possibilidade deve ser considerada.

    Jorge Senise, infectologista da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), explica que alguns exames podem gerar falsos negativos. É necessário verificar se a criança nasce com o anticorpo IGM para o coronavírus no corpo. Ele indica que o bebê foi infectado com a doença e o seu organismo, não o da mãe, produziu mecanismos de defesa.

    “O anticorpo IGG, que é o que persiste conosco depois de uma infecção, passa da mãe para a criança. O IGM indica que houve uma infecção recente e não passa pela placenta por ser uma molécula grande. Quando a criança nasce com o IGM, acreditamos que ela pegou a infecção e desenvolveu a defesa”, diz Senise.

    A possibilidade de haver transmissão vertical vai contra ao que acontecia com vírus semelhantes. Aparentemente, a contaminação é possível, mas os médicos ainda precisam de mais estudos. O infectologista afirma que é difícil comparar os casos da Covid-19 com outras doenças para buscar respostas.

    “No H1N1, se tinha transmissão, não trazia complicações para o feto. Quando compara com coisas iguais, como a Sars-Cov-1, não conseguíamos definir a transmissão vertical. Tinha uma taxa de letalidade de 9%, 10%. O Mers, que foi o Covid do oriente, matou muitas gestantes. Ele tinha menos afinidade, transmitiu menos, mas a letalidade para gestante foi maior. O Mers não tinha um mecanismo de ação semelhante ao novo coronavírus. Mas hoje, em gestante, não estamos vendo isso”, relata Senise.

    Por ser uma doença nova, ainda não existem relatos de mães que contraíram o coronavírus no início da gestão. Outra preocupação é com o desenvolvimento das crianças. “Complicações em órgãos e outros problemas nós só conseguiremos ver daqui alguns meses. Conseguimos acompanhar as consequências indiretas do vírus pelo tamanho do bebê. Se tiver febre, pode alterar o metabolismo e gerar alterações na formação, como desnutrição”, elucida Ana Carolina.

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