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Coronavírus: Qual o risco de infecção por roupas, calçados e barba?

Especialistas sugerem que é improvável a contaminação a partir de partículas presentes em superfícies

Por Alexandre Senechal - Atualizado em 27 abr 2020, 17h41 - Publicado em 20 abr 2020, 18h23

Eu posso ou não posso me infectar se o novo coronavírus entrar em contato com minhas roupas, meus calçados, meu cabelo, etc? Especialistas em infectologia alegam que não. Médicos e cientistas de todo o mundo analisam o comportamento do vírus no ambiente e afirmam que é pouco provável que alguém se contamine com as pequenas partículas que atingem o corpo.

O coordenador científico da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) Sergio Cimerman é um defensor da tese e alerta para um problema maior, o pânico desnecessário que muitas pessoas estão tendo em relação a preocupações menores em detrimento aos cuidados que elas deveriam de fato tomar. “Se pegar esses pontos isolados, isso pode gerar fake news”, afirmou em entrevista a VEJA.

Cimerman exemplifica. “Vamos supor que essas partículas fiquem na calça. Alguém lambe calças? Alguém vai comer o sapato? Esse tipo de preocupação atrapalha as medidas que deveríamos ter de lavar as mãos sempre, usar o álcool em gel e as máscaras. Se ater a isso é o importante”.

Então, afinal, estamos seguros? Não é bem assim. Apesar de haver um pequeno risco de transmissão por vestimentas e pelos corporais, a principal área de infecção é pelas mãos. Por isso, é necessário sempre mantê-las higienizadas para não se contaminar. Elencamos as principais dúvidas sobre os cuidados que devem ser tomados para fugir da Covid-19.

Devo trocar de roupa e tomar banho assim que chegar em casa?

Se você estiver praticando o distanciamento social corretamente e apenas sai de casa ocasionalmente para ir ao supermercado ou à farmácia, por exemplo, não. A probabilidade de se infectar por contato com uma roupa “contaminada” é muito pequena. O espirro ou tosse de uma pessoa infectada pode espalhar pelo ar partículas que contém o vírus.

Entretanto, a maioria dessas partículas é pesada e vai cair e se depositar no chão. Por outro lado, diversos estudos apontam que algumas partículas mais leves podem ficar suspensas no ar por cerca de meia hora. Apesar desse fato, segundo a cientista em aerosol Linsey Marr, do Instituto Politécnico e Universidade Estadual da Virgínia, nos Estados Unidos, em entrevista ao jornal americano The New York Times, “devido à aerodinâmica, é improvável que uma gota pequena o suficiente para flutuar no ar por um tempo também se deposite nas roupas”. Isso porque elas seguem o fluxo de ar em torno de uma pessoa.

Dessa forma, essas gotículas seriam desviadas do nosso corpo e das nossas roupas. “À medida que avançamos, empurramos o ar para fora do caminho e a maioria das gotículas e partículas também é empurrada para fora do caminho. Alguém teria que espirrar grandes gotas ao conversar, tossir ou espirrar, por exemplo, para que [essas gotas] pousassem em nossas roupas. As gotículas precisam ser grandes o suficiente para não seguir o fluxo de ar”, explicou Linsey ao The New York Times. Em suma, a menos que alguém cuspa, tussa ou espirre diretamente em você, não há motivo para preocupação. Lavar as mãos sim, é obrigatório ao chegar em casa.

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A barba ou o cabelo podem ser fontes de contaminação? 

“O papel das roupas, cabelo e barba na transmissão do coronavírus é irrisório. Não teria preocupação nenhuma quanto a isso. O medo é só de as pessoas acharem que depois de tudo isso não precisam lavar as mãos”, explica Raquel Stucchi, infectologista da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e consultora da SBI.

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Leonardo Weissmann, infectologista do Instituto Emílio Ribas e consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia, exaltou a importância do isolamento social para evitar o contágio por essa forma. “O cabelo e a barba serão contaminados com o vírus somente se um indivíduo infectado tossir ou espirrar próximo ou se a pessoa tocar numa superfície contaminada e depois tocar no cabelo ou na barba. Por isso, deve-se manter o distanciamento físico”. E sempre higienizar as mãos.

Se grandes partículas ficam no chão, os calçados representam o maior perigo?

De acordo com estudos, os calçados podem levar o coronavírus para dentro das casas por poderem carregar vírus e bactérias, mas não são uma grande fonte de infecção. Isso desde que não haja crianças que engatinhem, por exemplo. “Quem tem criança pequena em casa, que está engatinhando, pode ter um cuidado mais extremo. As crianças pouco adoecem, mas o problema é que transmitem. Você pode deixar o sapato na porta ou entrar descalço e levar para área de serviço”, afirmou Raquel.

Preciso ter algum cuidado especial ao lavar as roupas? 

Muitas pessoas ficam preocupadas com o jeito correto de lavar as roupas em tempos de coronavírus ou com a possibilidade de espalhar gotículas do vírus que estejam nas roupas as “sacudi-las” e acabar se infectando. A resposta para essas perguntas varia de acordo com a situação: se as roupas em questão são de uma pessoa saudável que segue as regras de distanciamento social ou se são de uma pessoa com sintomas.

Se for de uma pessoa saudável, não há preocupação. Não há necessidade para cuidados especiais ao manuseá-las ou lava-las. “Sabemos que os vírus podem depositar-se na roupa (a partir de gotículas) e, em seguida, serem soltos no ar com movimento, mas você precisará de muitos vírus para que isso seja uma preocupação, muito mais do que uma pessoa comum encontraria ao viajar para passear ao ar livre ou ir a um supermercado ”, disse Marr ao The New York Times.

O novo coronavírus é vulnerável ao sabão. Portanto, lavar as roupas com sabão comum já é suficiente para remover qualquer vírus que pudesse estar lá. Entretanto, se você estiver em contato próximo com uma pessoa doente ou for lavar roupas de alguém que está doente, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC), recomenda que você use luvas e não sacuda essas roupas – tanto as usadas por você quanto as do doente. O ideal é lava-las em água quente, na temperatura mais alta possível e deixe secar bem. Se essas regras forem seguidas, é possível lavar as roupas de uma pessoa doente com o restante da carga doméstica.

Devo me preocupar com jornais, correspondências e encomendas?

De acordo com especialistas, risco de contaminação por contato com correspondências, jornais ou encomendas entregues é extremamente baixo. Mas isso não significa que você não deva tomar alguns cuidados, como lavar as mãos após tocar nos objetos e descartar as embalagens. Entretanto, se mesmo assim houver preocupação, você pode deixar a correspondência “de lado” por 24 horas antes de toca-la. De acordo com o um estudo publicado em março no periódico científico The New England Journal of Medicine, esse é o período que o vírus pode sobreviver, em condições ideais, em papelão. Já em plástico ou metais duros, ele pode sobreviver até três dias.

É preciso algum cuidado especial com as máscaras?

Sim. O manuseio das máscaras requerem mais cuidado porque ela protege as áreas essenciais para evitar o contágio, que são a boca e o nariz. Segundo a infectologista Raquel Stucchi, pessoas que têm barba comprida devem tomar cuidado redobrado, pois isso pode atrapalhar o encaixe da máscara. Além disso, ao respirarmos, exalamos vapor, o que pode deixar a máscara úmida muito rápido. “Para aqueles que precisam usar o dia inteiro, é ideal levar duas máscaras. Se for a de tecido, deve-se lavar com água e sabão, não precisa de cândida, porque ela estraga o material. O vírus morre fácil com esses cuidados”, afirma Raquel. Também deve-se evitar tocar nas máscaras com as mãos sujas.

Dicas para proteger sua casa 

Apesar dos cuidados básicos de higiene, como lavar as mãos ao chegar em casa e a higienização correta de roupas e sapatos, como explicadas acima, existem outras precauções que você pode tomar para deixar sua casa “à prova” de coronavírus. As dicas, elencadas pela CNN, incluem: criar uma área de desinfecção, onde você pode deixar os sapatos ao chegar da rua e desinfetar as compras; desinfetar caixas de comida e alimentos embalados
e lavar bem os produtos comprados antes de colocá-los em sua cozinha.

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