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Coronavírus: a rotina de isolamento em países da Europa

Seguindo o exemplo da Itália, outras nações decidem manter a população inteira dentro de casa. A vida continua, mas ficou bem diferente

Por André Lion, de Nápoles, e Ernesto Neves - Atualizado em 22 mar 2020, 15h03 - Publicado em 20 mar 2020, 06h00

Como é passar o tempo todo em casa, recluso com a família, não um dia ou dois, mas semanas inteiras? Desde que o epicentro da pandemia provocada pelo novo coronavírus saiu da China e se instalou na Europa, no início de março, diversos países estão adotando essa providência drástica: fechar não só as fronteiras, mas as portas das casas das pessoas. A Europa, berço de quase todas as engrenagens que movem o Ocidente, já enfrentou períodos dramáticos em que sair à rua era um perigo, marcados com sangue nas imagens das duas guerras mundiais travadas em seu solo no século passado. Há paz, agora, mas o cotidiano ganhou o amargor e as dores daqueles tempos inomináveis. A reportagem de VEJA conversou com pessoas que, neste momento, em cidades europeias, olham pela janela para as ruas vazias, em clausura sem prazo para terminar. Encontrou tristeza, resignação, pouco consolo nas redes sociais e até mesmo um traço de satisfação em quem vê no isolamento uma maneira de contribuir para o combate ao vírus.

O início tardio da luta contra o novo coronavírus pôs a Itália na assustadora condição de campeã de contaminados e mortos, ultrapassando a China. Na quinta-feira 19, eram 41 035 casos confirmados e 3 405 mortes, e o governo, além de fechar fronteiras, isolou os italianos em casa. De início, o sentimento predominante era de desconfiança. O passageiro de um ônibus que disse, ao celular, que não dormia fazia 24 horas foi interpelado por outro, agressivo, querendo saber de onde ele vinha. Agora, há angústia. Em Bergamo, cidade da Lombardia — a província ao norte mais afetada pela epidemia —, todos os moradores conhecem ao menos uma pessoa contaminada. “Aqui, ninguém mais quer sair na varanda para cantar”, escreveu o jornalista Davide Agazzi, referindo-se aos vídeos de vizinhos nos balcões dos prédios, em coro improvisado. “A tristeza começa a impedir que a gente levante a cabeça.”

BENÇÃO ON-LINE - O papa diante da Praça de São Pedro vazia: as orações agora são eletrônicas VATICANO/AFP

O fluxo de novos infectados na cidade, sobretudo idosos, não para. Na falta de leitos em hospitais, os doentes são acomodados em macas dentro de barracas cedidas pela Cruz Vermelha. Muitos precisam de atendimento de urgência, mas as 5 300 unidades de terapia intensiva e semi-intensiva estão lotadas. “Os dados sobre pacientes em UTI são enganosos. Parece que o crescimento está desacelerando, mas é porque não há vagas. Aqueles com poucas chances de melhora são deixados para morrer”, escancarou o prefeito Giorgio Gori. Enterros estão proibidos, e os caixões se aglomeram nos cemitérios.

O medo tomou conta do Sul, ainda menos contaminado, mas onde os hospitais também já não estão dando conta. Antes mesmo que o governo decretasse o isolamento total, Vicenzo de Luca, governador de Campânia, região que tem Nápoles como capital, pôs seis das oito cidades — cerca de 6 milhões de pessoas — na chamada “zona vermelha”. Isso quer dizer que os moradores só saem à rua se tiverem uma justificativa. Policiais circulam em viaturas, prontos para interpelar quem se arrisca. Pedem documentos, e quem não tiver uma boa razão para estar fora poderá pegar multa de 200 euros e até ser preso.

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CONTROLE - Ciclista protegido em Madri: multas altas para quem sai à rua sem uma justificativa Guillermo Santos/LightRocket/Getty Images

A pequena Ariano Irpino, de 22 000 habitantes, a 120 quilômetros de Nápoles, está na zona vermelha. A farmácia de Alessandra Padula permanece aberta, porém com o balcão na porta e os clientes na rua. Um morador de seus 60 anos compra uma máscara, artigo raro que custava 7 euros e hoje chega a 20. “Na guerra falta pão. Essas máscaras são como pão”, filosofou Alessandra. De rosto coberto e cabeça baixa, o senhor entrou na única igreja ainda aberta e ajoelhou-se, sozinho. As missas estão proibidas, o papa Francisco agora reza o Angelus diante da praça deserta e as comemorações da Páscoa no Vaticano não terão público. Em meio ao vazio, a vida segue. As crianças têm aulas via smartphone, e há pais dizendo que elas nunca estudaram tanto. “Fechados em casa, cuidamos cada um de si e de todos ao mesmo tempo”, afirma a brasileira Beatriz de Bona, de 29 anos, que mora há três na cidade. “É um momento preocupante, mas belo na solidariedade.”

A França, com 9 058 casos confirmados (1 097 só na terça-feira 17) e 243 mortes, também fechou a população atrás das portas. O monitoramento é feito por 100 000 policiais — e a multa por desobediência é de 135 euros. “A França está em um ponto crítico, rumo à situação da Itália. Preparei minha equipe para uma maratona de três semanas”, dizia, na segunda-feira 16, o médico e professor de epidemiologia William Dab. O governo suspendeu o pagamento das contas de luz e celular e dos aluguéis e preparou um pacote de 300 bilhões de euros em crédito para as empresas paradas. Antes dela, a Espanha implantou o confinamento em todo o país, que tem 17 395 casos e 803 mortes. Em caráter de emergência, retirou a autonomia, em questões de saúde e segurança, do País Basco e da explosiva Catalunha, com os previsíveis protestos locais. A mulher do primeiro-­ministro Pedro Sánchez, Maria Begoña, testou positivo (da mesma forma que a mulher do canadense Justin Trudeau, Sophie, que aparentemente transmitiu o vírus para o ator Idris Alba, com quem posou em uma cerimônia em Londres). As multas são salgadas: vão de 600 a 30 000 euros.

CORRENTE DO BEM - Mensagens nas janelas: a população se une à luta Franco Origlia/Getty Images

O primeiro-ministro britânico Boris Johnson, aproveitando o número relativamente baixo de casos (2 644) e mortes (103), tentou uma tática diferente: não fechou nada, concentrou o isolamento nos grupos de maior risco — idosos e doentes crônicos — e calculou que, se 60% dos britânicos fossem contaminados, o país estaria imunizado contra a Covid-19. Na terça-­feira 17, a divulgação de um estudo do Imperial College que prevê mais de 500 000 mortes até agosto causou uma reviravolta. Johnson pediu à população que evite sair de casa, fechou as escolas e alertou os londrinos para a provável decretação de isolamento forçado nos próximos dias. Medidas semelhantes rondam a Alemanha, que tem grande quantidade de casos confirmados (13 979), mas baixíssima taxa de mortalidade (0,26%, ou 42 pessoas). A brasileira Julia Veloso, estudante de engenharia elétrica em Karlsruhe, a 150 quilômetros de Frankfurt, diz que a proibição de sair de casa é esperada a qualquer momento e que faltam produtos nos mercados. “Eu fiz meu estoque de macarrão”, conta, em tom de alívio. Na Europa paralisada, até o sacrossanto ato de comer bem deixou de ser garantido.

Publicado em VEJA de 25 de março de 2020, edição nº 2679

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