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Como funciona a mente de crianças e adolescentes superdotados

E o que os pais devem fazer para que os jovens sejam felizes e saudáveis

Por Luiz Felipe Castro Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO , Matheus Deccache
12 nov 2021, 06h00
BEATLEMANÍACO - Gustavo Saldanha, 8 anos, conheceu os Beatles aos 5 e se apaixonou (hoje toca sete instrumentos). Na pandemia, viu aflorar seu gosto por tecnologia e empreendedorismo. Dá aulas virtuais aos avós e já sonha em criar o próprio estúdio -
BEATLEMANÍACO – Gustavo Saldanha, 8 anos, conheceu os Beatles aos 5 e se apaixonou (hoje toca sete instrumentos). Na pandemia, viu aflorar seu gosto por tecnologia e empreendedorismo. Dá aulas virtuais aos avós e já sonha em criar o próprio estúdio – (Paulo Vitale/.)

Gênios mirins sempre fascinaram a humanidade. O austríaco Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791) começou a construir a sua reputação ao compor sofisticados minuetos aos 5 anos. No xadrez, o americano Bobby Fischer (1943-2008) ganhou seu primeiro campeonato mundial — e foi alçado à fama — ainda adolescente, aos 15. Crianças com altas habilidades mentais, os chamados superdotados, apresentam características como raciocínio rápido, criatividade, foco, prazer em ler e estudar e, claro, notas excepcionais na escola. Enfim, elas são diferentes — e extraordinárias. Por isso mesmo, encantam por onde passam.

No Brasil, um caso recente chamou atenção. O paulistano Gustavo Saldanha, de 8 anos, tornou-se o mais novo membro da Mensa Internacional, associação fundada em 1946 na Inglaterra, presente em mais de 100 países e que reúne cerca de 150 000 superdotados. A inclusão é feita após a realização de testes de quociente intelectual (Q.I.), que usam escalas para mapear o funcionamento cognitivo, funcional e adaptativo, de bebês a idosos. O jovem prodígio brasileiro obteve 140 pontos, bem acima da média mundial, que ronda os 90. Os primeiros testes do tipo foram realizados há cerca de um século e até hoje têm critérios controversos e diferentes em cada país, motivo pelo qual especialistas sugerem que o número não seja supervalorizado. Estima-se que o cientista alemão Albert Einstein, que nunca fez o teste, tivesse 160 de Q.I.

arte QI

Gustavo não está só. De acordo com o Censo Escolar de 2020, há exatos 24 424 estudantes brasileiros com perfil de altas habilidades matriculados na educação especial. O número total é bem maior. A Organização Mundial da Saúde estima que até 5% da população mundial apresente esse dom. Levando em conta os 47 milhões de alunos da educação básica, conforme dados oficiais do Ministério da Educação, o contingente de brasileiros geniais passaria de 2 milhões.

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Vale ressaltar que há tempos ruiu o mito de que a inteligência seja um bloco único. A ciência hoje trabalha com diversos tipos de inteligência, como linguística, corporal, espacial, lógico-­matemática, musical e intrapessoal (autoconhecimento), para citar apenas alguns exemplos. Por meio de técnicas de contraste e ressonâncias eletromagnéticas, os neurocientistas já conseguiram confirmar que o cérebro de um superdotado funciona de forma distinta. Sabe-se que o córtex cerebral desses prodígios é menor que a média na infância, mas aumenta e se sofistica ao se aproximar da adolescência. Eles também apresentam maior volume de matéria cinzenta, o que lhes confere habilidade para lidar com dados e extrair conclusões, e as suas conexões neurais são mais velozes. Há casos de mentes autodidatas. A neuropsicopedagoga Priscilla Melim notou algo especial no filho Pedro quando ele tinha apenas 1 ano. “Ele nem falava, mas já sabia identificar todas as letras e números sem nunca ter sido estimulado”, conta. Aos 13, Pedro realiza uma série de atividades extracurriculares e, segundo a mãe, mergulha em um determinado assunto de interesse e depois já parte para outro.

ROTINA AGITADA - Pedro Melim Alonso, 13 anos, está duas séries adiantado na escola, faz cursos extras de matemática, inglês e bateria e trabalha em um projeto para superdotados. Nas horas vagas, gosta de jogar videogame e fazer pesquisas sobre história -
ROTINA AGITADA – Pedro Melim Alonso, 13 anos, está duas séries adiantado na escola, faz cursos extras de matemática, inglês e bateria e trabalha em um projeto para superdotados. Nas horas vagas, gosta de jogar videogame e fazer pesquisas sobre história – (Paulo Vitale/.)

O fenômeno levanta um questionamento: as altas habilidades são hereditárias? “A influência genética é importante para tudo e responde por 40% a 50% da inteligência, mas o ambiente pode tanto estimular quanto inibir habilidades inatas”, explica o neuropediatra Mauro Muszkat, coordenador da Unifesp. “É o que chamamos de epigenética.” Por essa razão, a sociedade deve oferecer oportunidades enriquecedoras para que os dons se manifestem, não o caminho inverso. “No Brasil, a desigualdade social achata a curva do desenvolvimento cognitivo e impede a manifestação de talentos invisíveis”, aponta Muszkat.

Um bom exemplo vem do Japão, onde Shinichi Suzuki (1898-1998), filho de um fabricante de violinos, revolucionou o ensino musical. Com a experiência de ter sido aluno do mestre alemão Karl Klinger, em Berlim, nos anos 1920, ele deu início a seu projeto batizado de Educação de Talento, na cidade de Matsumoto, em 1945, quando o país se recuperava da II Guerra Mundial. Sua metodologia era baseada no preceito de que toda criança nasce com um potencial a ser desenvolvido, em seu devido ritmo de aprendizagem e grau de mestria, quando exposta ao ambiente adequado. O Método Suzuki é hoje celebrado e adotado em diversos países, inclusive no Brasil.

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A música, aliás, costuma forjar — e revelar — mentes brilhantes. Gustavo Saldanha se descobriu superdotado ao entrar em contato com a obra dos Beatles. “Ele é destro, mas toca como canhoto só para imitar o seu grande ídolo, Paul McCartney”, conta a mãe, Luciene Saldanha. Embora importantes, testes de Q.I. não são recomendáveis a todas as crianças, pois podem estimular um espírito de competição precoce e nocivo. A psicometria, no entanto, é bem-vinda quando se nota um desempenho fora do padrão, para cima ou para baixo. Além de definir quais rumos pais e professores devem seguir, os testes abrem portas fundamentais, já que as melhores instituições costumam oferecer bolsas e outros benefícios. É o que ocorreu com Laura Büchelle, brasileira de 9 anos, que vive em Orlando, nos Estados Unidos. “Ter o diagnóstico foi um divisor de águas”, diz a mãe, Bruna Büchelle. “A Laura recebe todo o auxílio necessário, até uma carteirinha que dá descontos em museus.”

PRODÍGIOS - O enxadrista Bobby Fischer e Wolfang Amadeus Mozart: façanhas históricas na infância -
PRODÍGIOS - O enxadrista Bobby Fischer e Wolfang Amadeus Mozart: façanhas históricas na infância – (Bettmann/Getty Images; Ann Ronan Pictures/Print Collector/Getty Images)

Nem tudo são flores, nem mesmo para aqueles que gabaritam os exames. É comum que crianças com alto Q.I. tenham também problemas de interação social e fiquem entediadas em sala de aula, pois consideram o conteúdo muito simples. O processo de pular de ano na escola ou antecipar a entrada na faculdade é comum e legalizado, mas deve ser feito com o devido auxílio profissional. “Nem sempre a maturidade emocional acompanha a cognitiva”, ressalta Joana Portolese, neuropsicóloga da Faculdade de Medicina da USP. “É preciso ter cautela com esses jovens.”

Há casos de superdotados com quadros mais leves de transtorno do espectro autista (TEA), transtorno de déficit de atenção com hiperatividade (TDAH) e ansiedade. São indivíduos hiperfocados em determinado tema, mas sem todas as capacidades de realização à altura. Trata-se do que os especialistas chamam de dupla excepcionalidade, quando há genialidade em determinadas áreas e limitação em outras. Esses casos exigem maior atenção, mas não impedem que a criança seja feliz e bem-sucedida. A língua inglesa chama os superdotados de gifted (presenteados, em tradução livre), definição que não poderia ser mais apropriada. Sob diversos aspectos, ter um cérebro afiado é mesmo um presente sublime.

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Publicado em VEJA de 17 de novembro de 2021, edição nº 2764

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