Com a pele blindada: conheça os novos formatos de protetor solar
Eles prometem aumentar a adesão a um hábito ainda negligenciado pela população e essencial à prevenção de manchas e doenças sérias
Abrir mão do filtro solar por causa do aspecto grudento ou oleoso do produto já é uma desculpa que não cola mais. De fato, a textura sempre representou um dos principais empecilhos ao uso apontados pelos brasileiros, ao lado do preço e da percepção de que não se trata de um cuidado indispensável — não à toa, em uma pesquisa recente, 65% dos cidadãos relataram não utilizá-lo diariamente. Mas as fórmulas pegajosas já não dominam as prateleiras da farmácia. Outros formatos invadiram a praça, atendendo a uma antiga demanda e ajudando a driblar a resistência ao hábito de se resguardar do sol. Sprays ganharam adeptos, enquanto os bastões foram abraçados pelas famílias. E, agora, é a vez de o primeiro protetor em forma de sérum debutar no mercado nacional, um movimento que amplia as opções para se defender do envelhecimento cutâneo precoce e do câncer de pele.
Desenvolvido pela marca alemã Eucerin, o lançamento é um fluido extremamente leve com fator de proteção solar (FPS) 75. Custa 99,90 reais. Foi projetado para integrar a rotina de skincare e é indicado especialmente a pessoas com pele oleosa. A aplicação não resulta naquela sensação viscosa nem deixa o rosto com aspecto brilhante. Se isso é fantástico por um lado, por outro exige algumas orientações. “O sérum é bastante líquido e se espalha facilmente, mas é preciso tomar cuidado para não usar uma quantidade menor que a necessária”, diz o médico Guilherme Gadens, do Departamento de Oncologia Cutânea da Sociedade Brasileira de Dermatologia. No caso dos protetores em bastão, cada vez mais populares, o formato sólido pode dificultar a aplicação uniforme do produto, o que exige atenção extra com áreas descobertas. “As novas fórmulas podem oferecer proteção suficiente, desde que usadas de maneira adequada”, reforça o dermatologista. Do contrário, o bom e velho creme com FPS a partir de 30 continua sendo a melhor pedida.
Faça chuva, faça sol, o ideal é aplicar o filtro todo dia nas regiões da pele que não ficam sob a roupa, incluindo mãos e braços. Não se trata de exagero: o ritual previne rugas e manchas e reduz a propensão a tumores. O problema é que tem gente que não se engaja nesse cuidado ou, quando o faz, se limita a passar o produto no rosto. “Não é raro encontrar casos de câncer de pele no topo da orelha, principalmente em homens”, ilustra a dermatologista Ediléia Bagatin, professora da Unifesp. Tampouco adianta começar a se preocupar apenas com o avanço da idade. “Temos atendido cada vez mais jovens com câncer de pele que não têm o hábito de usar protetor solar”, diz a médica.
Pessoas de pele clara, com histórico familiar de câncer ou com doenças cutâneas prévias são as que têm maior risco de desenvolver a enfermidade, que também afeta a população negra, ainda que em menor proporção — daí a recomendação universal. Embora não haja uma regra de qual formato priorizar — o importante é aplicar sempre, e do jeito certo —, em alguns casos vale apostar nos filtros solares com cor. O motivo é que as versões convencionais, sem pigmento, brecam a radiação ultravioleta (UV), mas não oferecem esse mesmo escudo contra a luz visível, aquela emitida por telas e lâmpadas. Um consenso de estudos recentes atesta que esses raios luminosos também contribuem para manchas e envelhecimento.
Enquanto isso, nos laboratórios da indústria dermocosmética, segue a busca por um tão sonhado protetor em comprimido. Por ora, nenhum deles chegou ao mercado. “O que temos são cápsulas com antioxidantes, que combatem processos oxidativos resultantes da exposição ao sol, mas não nos protegem da radiação em si”, esclarece Bagatin. Outro dilema, e este já é parte da realidade, tem a ver com o custo dos produtos, a despeito de sua formulação. “Não adianta termos produtos cada vez mais modernos se grande parte da população não consegue comprá-los”, afirma o dermatologista Marco Túlio Cavalcante Oliveira, do Complexo Hospitalar da Universidade Federal do Ceará. “Precisamos discutir políticas que tornem esses itens mais acessíveis, incluindo redução de impostos, preços mais justos, educação da sociedade e programas de fotoproteção a trabalhadores expostos ao sol.”
De fato, proteção solar virou um assunto muito além da estética. É uma questão de autocuidado que ainda carece de conscientização, especialmente em um momento em que fake news e postagens negacionistas procuram colocar em dúvida a relevância dos filtros e até sua segurança — algo já demonstrado por uma série de pesquisas. Até porque não importam o tipo de pele e o gosto do freguês, do bastão ao sérum, passando pelo creme tradicional, não faltam alternativas para brecar os raios do sol.
Publicado em VEJA de 16 de outubro de 2026, edição nº 3017








