Carta ao Leitor: Perto da vitória
Novos passos da ciência trazem otimismo na luta contra o HIV
No início dos anos 80, a descoberta dos primeiros casos de aids provocou uma onda de terror, preconceito e desinformação. Os pacientes definhavam rapidamente, diante do olhar incrédulo dos médicos, que não tinham na época armas para combater o “câncer gay”, a forma discriminatória com que se batizou inicialmente a doença. Iniciava-se ali uma das mais longas batalhas da ciência na história contra um vírus, o HIV, responsável pelo ataque impiedoso e fatal ao sistema imunológico. Em paralelo, a imprensa, especialistas e autoridades começaram a guerra de esclarecimento ao público a respeito das vias de transmissão e dos cuidados necessários. O conceito de “grupos de risco”, que classificava pessoas mais expostas, foi abandonado. Ficou logo claro que, sem a devida precaução, qualquer pessoa poderia ser contaminada.
As primeiras terapias contra o HIV surgiram na forma de coquetéis que retardavam por algum tempo a progressão da doença, mas à custa de muitos efeitos colaterais. Nos anos 2000 houve uma grande evolução, com o desenvolvimento de drogas mais potentes e menos tóxicas. Elas não eliminaram a gravidade do problema, mas permitiram a muitos pacientes um ganho enorme de qualidade de vida, com a carga viral controlada. No Brasil, políticas públicas expandiram o acesso aos medicamentos, com destaque para a Lei dos Genéricos de 1999, criada por iniciativa do então ministro da Saúde, José Serra. Ela permitiu a produção de remédios com a mesma eficácia das drogas de referência, mas a menor custo.
Conforme mostra a reportagem desta edição, o anúncio de dois novos casos de remissão completa do HIV em seres humanos — totalizando treze registros comprovados — gerou enorme expectativa. Essas pessoas ficaram um ano sem os remédios e continuam sem ter sinais do vírus. São pacientes raros que tratavam um câncer concomitantemente à infecção e, devido a uma mutação genética, lograram escapar do patógeno — eles ficaram um ano livres mesmo sem terapia antirretroviral. Cientistas saudaram os avanços, que ocorreram nos Estados Unidos, e dizem que temos muito a aprender com esses pacientes até chegarmos a uma eventual cura em massa.
Portanto, não é possível baixar ainda a guarda diante da doença. Mais de 39 000 novos casos de HIV foram notificados no Brasil em 2024, alta de mais de 20% em relação a 2014. Contudo, em ótima notícia, dada a existência das modernas drogas, 13% foi a queda no número de mortes por aids no Brasil entre 2023 e 2024, o menor índice registrado em mais de trinta anos. Os próximos passos da ciência serão decisivos para confirmar o otimismo a respeito de uma vitória definitiva contra o vírus.
Publicado em VEJA de 7 de agosto de 2026, edição nº 3007







