Carta ao Leitor: Avanços e recuos
Mais do que atalho para preocupação excessiva, as mutações podem significar o contrário: o fim da pandemia do coronavírus
Não é exagero dizer que a humanidade tem vivido um de seus momentos mais difíceis com a chegada da pandemia de Covid-19, que desde o início de 2020 pôs o mundo em estado de alerta. Ao longo de quase dois anos houve medo, houve drama com os mais de 5,2 milhões de inaceitáveis mortes, e finalmente algum alívio, com a aplicação de vacinas e a certeza científica de que elas reduzem drasticamente a gravidade da doença. Sabe-se hoje, com a experiência do tempo, que a disseminação do vírus tem ritmos diferentes a depender de cada região ou país, de acordo com as distintas posturas de distanciamento social, do uso adequado de máscaras sanitárias e, sobretudo, da amplitude da cobertura vacinal. Em algumas nações, especialmente na Europa, a variante delta fez aumentar o número de casos — embora não o de mortes. Na Holanda, as UTIs voltaram a ficar lotadas, a ponto de alguns hospitais terem encaminhado pacientes para a Alemanha. No Brasil, felizmente, a curva tem outra direção — vivemos uma consistente queda do número de pessoas enfermas e de mortes. É momento de tão almejada melhora, uma certeza de esperança.
E, então, na valsa feita de avanços e recuos, despontou uma nova cepa, a ômicron, identificada na África do Sul. Ela provocou reações imediatas, inclusive o fechamento de fronteiras para pessoas vindas de algumas nações africanas. O Brasil, por exemplo, cerrou as portas para indivíduos provenientes da África do Sul, Botsuana, Lesoto, Namíbia, Zimbábue e Eswatini (ex-Suazilândia). É medida de extrema cautela, talvez um tanto exagerada, mas que segue o protocolo de aprendizado com a Covid-19. Apesar de todo o conhecimento adquirido, não é fácil acertar o tom. Basta ver que, com a eclosão da ômicron — que parece se disseminar com mais velocidade, mas sem tanta severidade —, algumas cidades brasileiras cancelaram as festas de réveillon, mas outras não. Esse quadro, feito de permanente dúvida, de erros e acertos, é o que veremos nos próximos meses, na transição de uma pandemia para uma endemia. O vírus não quer matar, ou, como sublinhou o secretário-geral da OMS, Tedros Adhanom, o seu objetivo é mudar para continuar sua existência, sem aniquilar o hospedeiro. Logo, mais do que atalho para preocupação excessiva, as mutações podem significar o contrário: o fim da pandemia.
Não se trata, portanto, de motivo para pânico. É hora de racionalização, de entender quais são os critérios ideais para determinar algum relaxamento, como mostra a reportagem a partir da página 58. Em resumo: torna-se compulsório conhecer a toada das internações, vital acompanhar a estatística de casos e mortes e fundamental ter a imunização em patamares elevados. A vacinação, de fato, é a regra do jogo. Sem ela, jamais atingiremos a sonhada proteção coletiva. Não cabem, portanto, tolas definições como a do ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, citando o presidente Jair Bolsonaro. Ao justificar a recusa do governo federal em aprovar o passaporte vacinal, como sugeriu a Anvisa, Queiroga disparou uma daquelas boutades que deveriam ser esquecidas: “O presidente falou agora há pouco: às vezes é melhor perder a vida do que perder a liberdade”. Não é, evidentemente, o que acham os familiares dos mais de 615 000 brasileiros que morreram na pandemia.
Publicado em VEJA de 15 de dezembro de 2021, edição nº 2768







