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Bolsonaro volta a defender ivermectina e nitazoxanida contra Covid-19

Presidente sugere que baixa taxa de mortalidade pela Covid-19 na África está associada à distribuição de ivermectina, mas não há comprovação científica

Por Giulia Vidale Atualizado em 5 jan 2021, 14h26 - Publicado em 5 jan 2021, 14h16

Nesta terça-feira, 5, o presidente Jair Bolsonaro voltou a defender o uso do antiparasitário ivermectina e da nitazoxanida (antiviral conhecido por seu nome comercial, Anitta) para o tratamento da Covid-19. Em publicação no Twitter, o presidente atribuiu a baixa mortalidade pela doença em alguns países do continente africano à distribuição em larga escala de ivermectina na região.

A imagem divulgada por Bolsonaro na publicação lista a mortalidade pela Covid-19 em nove países que integram o Programa Africano para Controle de Oncocercose. A iniciativa da Organização Mundial da Saúde (OMS) distribui ivermectina para combater a oncocercose, doença transmitida por um verme e também chamada de “cegueira do rio”.

Os dados apresentados na tabela publicada pelo presidente apontam que, até 4 de janeiro, o Quênia tinha o maior número de mortes por milhão de habitantes (32,1) entre os países citados. Embora seja a maior da tabela, a taxa é significativamente menor que a do Brasil, que até esta terça-feira, 5, apresentava uma taxa de 931,35 mortes por milhão de habitantes, segundo informações da plataforma Statista. Logo em seguida, o presidente sugere que “uma das possíveis causas [para a baixa taxa de mortalidade] é um programa da OMS, desde 1995, de controle da Oncocercose (cegueira do rio)”.

Em seguida, Bolsonaro afirma que um estudo publicado em uma conceituada revista científica internacional atesta que a nitazoxanida é capaz de reduzir a carga viral em pacientes infectados pelo coronavírus. O estudo em questão é a pesquisa realizada no Brasil, financiada pelo governo federal, que mostrou que a o uso da nitazoxanida em pacientes infectados reduziu a carga viral em 55% (contra 45% no grupo placebo). No entanto, os pesquisadores não observaram melhora nos sintomas da doença nem foram capazes de comprovar eficácia da terapia em casos leves.

Sobre a questão da baixa mortalidade pela Covid-19 nestes nove países (Angola, Camarões, República Democrática do Congo, Etiópia, Moçambique, Nigéria, Quênia, República Centro-Africana e Ruanda) citados pelo presidente, não existem evidências científicas de que o fato esteja associado ao uso da ivermectina nem que o medicamento seja eficaz no tratamento precoce da doença. 

“A associação da baixa taxa de mortes na África e a ivermectina não passa de especulação. A ivermectina funciona contra vermes. Ela funciona bem para lombriga, cegueira e piolho. Estudos em laboratório mostraram um potencial antiviral contra diversos vírus, incluindo o HIV, mas isso nunca funcionou na prática. No caso do Sars-CoV-2, estudos em laboratório mostraram que altas doses do medicamento reduziram a carga viral em cultura de células, mas até hoje não houve um estudo clínico randomizado, controlado, capaz de comprovar a eficácia da ivermectina contra a Covid-19. Existem algumas revisões que mostraram que a ivermectina pode reduzir mortes pela Covid-19, mas em estudos pequenos e enviesados”, explica o infectologista e especialista em saúde pública Gerson Salvador.

Um estudo publicado recentemente no periódico científico International Journal of Infectious Diseases concluiu que “a baixa taxa de mortalidade pela Covid-19 na África se deve à menor idade média da população, menor expectativa de vida, menor taxa de mortalidade pré-Covid-19 de ‘65 anos +’ e menor grupo de pessoas sobrevivendo e vivendo com doenças cardiovasculares”.

Sobre o estudo com a nitazoxanida, Salvador reforça que a pesquisa não mostrou mudança clínica. “Apenas redução de carga viral, o que não significa nada em uma doença aguda. A carga viral, a partir do 8º dia de doença é indetectável. Isso acontece naturalmente e não altera o quadro do paciente”, diz o infectologista.

Em documento com atualizações e recomendações sobre a Covid-19, a Sociedade Brasileira de Infectologia “não recomenda tratamento
farmacológico precoce para Covid-19 com qualquer medicamento (cloroquina, hidroxicloroquina, ivermectina, azitromicina, nitazoxanida, corticoide, zinco, vitaminas, anticoagulante, ozônio por via retal, dióxido de cloro), porque os estudos clínicos randomizados com grupo controle existentes até o momento não mostraram benefício e, além disso, alguns destes medicamentos podem causar efeitos colaterais. Ou seja, não existe comprovação científica de que esses medicamentos sejam eficazes contra a Covid-19.”

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