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Coronavírus: como têm sido as autópsias das vítimas fatais

Laboratório no Hospital das Clínicas faz procedimento delicado

Por Mariana Rosário - Atualizado em 25 mar 2020, 21h30 - Publicado em 25 mar 2020, 21h17

A autópsia dos corpos vitimados por Covid-19, a doença causada pelo novo coronavírus, é mais uma questão a ser considerada pelas autoridades de saúde durante a pandemia do vírus que já levou 57 pessoas à morte no Brasil, de acordo com o último levantamento do Ministério da Saúde.

Com o alto risco de contaminação por contato com os corpos, o serviço requer equipamentos e tecnologia indisponíveis à esmagadora maioria dos laboratórios especializados no serviço de verificação de óbitos no país — são estimados cerca de 43 locais que fazem este tipo de serviço atualmente.

Cabe como única exceção o trabalho realizado há uma semana no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Por lá, ocorre um tipo de procedimento minimamente invasivo que garante a proteção dos especialistas envolvidos no processo, por preveni-los de qualquer contato direto com o corpo a ser analisado.

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Os especialistas só podem iniciar o trabalho após colocar todo o aparato de segurança. “São 30 minutos para vestir o equipamento de proteção”, diz Paulo Saldiva, professor de patologia na Faculdade de Medicina da USP. “Para retirar são outros 20 minutos”, diz.

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Passam pela análise casos suspeitos e confirmados de Covid-19, previamente atendidos no hospital. O procedimento ocorre após o corpo ser totalmente embalado em um plástico protetor. Com um aparelho de ultrassom, localizam-se os órgãos dos quais serão tirados materiais para o estudo que incluí análises moleculares. A coleta é feita por grandes agulhas inseridas em pontos estratégicos do corpo. “Somos um dos únicos no mundo fazendo este trabalho”, garantiu o professor Saldiva.

Após a retirada destes fragmentos, que substituem a necessidade de extrair órgãos inteiros, o corpo é entregue ainda embalado aos cuidados dos familiares, que podem realizar as cerimônias fúnebres com menor risco de contaminação em decorrência do equipamento de proteção usado.

A análise será fundamental para compreender os impactos do vírus no corpo infectado e possíveis tratamentos futuros para a enfermidade causada pelo vírus, explicou o pesquisador que diz ter realizado ao menos um procedimento por dia desde o início dos trabalhos.

Na contramão do que ocorre na sala de análise comandada pelo professor Saldiva, na USP, a Sociedade Brasileira de Patologia (SBP) orientou que os médicos da categoria não realizassem autópsias de casos confirmados do novo coronavírus no país, justamente pelo alto risco de contaminação.

Em relação aos casos suspeitos, o direcionamento é que seja feita análise por meio de exames laboratoriais semelhantes ao que ocorre com pessoas vivas (com coleta de material do nariz e da região da garganta), tudo para preservar os especialistas.

Por conta do cenário de escassez encarado pelo Serviço de Verificação de Óbitos, a profissional enviou ao Ministro da Saúde, Henrique Mandetta, uma carta pedindo itens essenciais ao trabalho, como máscaras de proteção do tipo N95. “É um grande desafio, não temos estrutura para analisar todos os casos e precisamos resguardar a saúde dos nossos profissionais”, diz e a presidente da SBP e uropatologista do Hospital Sírio-Libanês, Katia Ramos Moreira Leite.

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