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Adeus, rímel

Pois é: aqueles cílios longos e lindos que ornam os olhos das mulheres são extensões, procedimento estético em alta na busca incessante pela melhor selfie 

Mais linda do que nunca no papel de Karola, em Segundo Sol, Deborah Secco desfila para lá e para cá o corpo impecável, marcado por roupas provocantes. Por incrível que pareça, esbanjando tantos atributos físicos, Deborah tem chamado atenção (não só, claro, mas também) pelos cílios, tema de muitos comentários nas redes sociais. Não, eles não são naturais, mas parecem ser — os pelos espessos e longos são extensões, parecidas com aquelas feitas para alongar cabelos. Nada a ver com cílios postiços, sempre ameaçados de descolar aqui e ali e estragar o efeito. Na técnica, que uma multidão de famosas e não famosas está adotando — aí incluído praticamente todo o elenco feminino da novela das 21 horas, vaidosas nos tapetes vermelhos e na política (alô, Melania Trump) e a mulher por trás da selfie de cada dia —, o fio é colado um a um aos cílios existentes. O resultado dura no máximo um mês e não precisa ser inteiramente refeito — na maioria dos casos, como ocorre com a extensão nos cabelos, uma manutenção resolve.

No Instagram, espelho de tudo o que está na moda, quem digitar #extensão­decílios terá 300 000 imagens à disposição (em inglês, #lash­exten­sions acusa 4,9 milhões de fotos). Desde 2006 no ramo daqueles redutos capilares da face que a mulher valoriza e cuida (enquanto os pelos em outras áreas são sumariamente extirpados), Jane Muniz, dona de uma rede de salões especializados em sobrancelhas, com mais de 160 unidades e 200 000 atendimentos mensais, conta que nestes últimos doze meses registrou um aumento de quase 200% no número de clientes que recorrem à extensão de cílios. E não pense que é chegar, sentar e colar. “O primeiro passo é a avaliação: observar se a pele da mulher está saudável, se os cílios naturais são finos ou grossos, entender o que ela espera do procedimento”, explica. O preço varia de 100 a 300 reais, dependendo do produto a ser aplicado: fio sintético, fio de seda ou pelo natural.

Uma vez resolvidas as questões iniciais, passa-se à aplicação em si. “Fazemos a higiene do local, para facilitar a aderência, e colamos os fios. Tanto a cola quanto os pelos precisam ter sido testados para uso dermatológico”, explica Jane. O processo demora duas horas. Os fios vêm em três tamanhos — 10, 12 ou 14 milímetros. A cliente define a forma de distribuição (mais nos cantos, mais nas laterais), e recomenda-se misturar fios mais e menos compridos, para intensificar o volume e obter um efeito natural.

Depois de aplicados, os cílios são curvados ao gosto da freguesa e pronto: enquanto a extensão durar, curvos ficarão, sem a necessidade de curvex, aquele aparelhinho que parece instrumento de tortura, nem de rímel. Quem não sabe sair de casa sem um produto nos cílios pode passar um hidratante próprio para a área. Do imenso contingente de famosas que não escondem os cílios ampliados fazem parte Beyoncé, Katy Perry, Lady Gaga, sua alteza influenciadora Kim Kardashian e a irmã caçula dela, princesa dos posts de beleza Kylie Jenner, que já legendou uma foto com a frase “Uso extensão de cílios”.

Há riscos, evidentemente, como em tudo na vida, e a primeira providência é procurar salão e esteticista de confiança. “Os componentes da cola, principalmente, podem provocar inchaço da pálpebra e alergias”, alerta o médico Arlindo Pontes, diretor da Sociedade Brasileira de Oftalmologia. A professora de história Monique Faro, do Rio de Janeiro, sentiu na pele o problema. “Dormi e acordei com os olhos vermelhos e inchados, coçando muito”, relata ela, que precisou voltar ao salão e tirar as extensões.

Pontes também não recomenda o procedimento a quem sofre de ressecamento dos olhos. “Os cílios maiores adquirem um efeito de leque. Ao piscar, move-se uma grande quantidade de ar, o que pode aumentar a sensação de secura”, adverte. Esteticistas avisam ainda que, para preservar as extensões, não se deve coçar os olhos nem usar água quente neles. Outra prática a ser evitada, por causa do atrito involuntário, é dormir de bruços — se bem que para isso há solução: um travesseiro com espaços vazados para a área dos olhos está à venda na Inglaterra por 30 libras (160 reais). Problema resolvido.

Publicado em VEJA de 10 de outubro de 2018, edição nº 2603