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A outra peste

As desgraças causadas pela gripe espanhola no Brasil, em 1918

Por Roberto Pompeu de Toledo - Atualizado em 27 mar 2020, 09h59 - Publicado em 27 mar 2020, 06h00

1918 foi no Brasil, e especialmente em São Paulo, o ano dos quatro “Gs”: geada, gafanhotos, guerra e gripe. A geada devastou as plantações de café. Uma praga de gafanhotos completou a devastação. A guerra na Europa inaugurou nesse ano a participação brasileira, ainda que modesta. Para fechar a conta das desgraças, recebemos, por cortesia dos navios que chegavam a nossos portos, a visita da gripe, chamada “espanhola”, que corria o mundo. O Rio de Janeiro, em meados de outubro, exibia aspecto desolador. Até as farmácias fechavam, por falta de funcionários sãos. Nos cemitérios escasseavam coveiros, e caixões eram depositados no chão. Em Santos, uma semana após o primeiro caso, os infectados eram 4 000. Em São Paulo um hóspede carioca do Hotel d’Oeste, no Largo de São Bento, foi diagnosticado com a doença no dia 9 de outubro. Era o primeiro caso. No dia 16 havia 29; no dia 23, 1 144; no dia 4 de novembro, 7 786.

São Paulo contava cerca de 550 000 habitantes; o Rio de Janeiro, 1 milhão; e o Brasil, 30 milhões. Nos últimos dias de outubro São Paulo igualava-se ao Rio, no aspecto desolador. Boa parte do comércio fechara as portas, fosse por falta de fregueses, fosse de funcionários. O jornal A Gazeta observava, no dia 23 de outubro, que o “elemento feminino” sumira das ruas: “Não existe há vários dias o footing que emprestava ao centro de nossa urbs, das 16 às 18 horas, um aspecto encantador, cheio de carinhas risonhas, deliciosas de graça e de beleza”. A letalidade, de início, era baixa, a ponto de o jornal O Estado de S. Paulo, no dia 19, fazer pouco do problema: “Basta, como resistência à moléstia, tomar, com rigor, as poucas e fáceis precauções aconselhadas pelos médicos da cidade. Quanto ao resto, não se preocupar e falar do morbo o menos possível, procurando manter em redor uma atmosfera de tranquilidade e confiança”.

“Luzes foram dispostas nos cemitérios, para enterros à noite”

As precauções eram evitar aglomerações, não fazer visitas, evitar esforço físico (acreditava-se que diminuíam a resistência à doença). A primeira morte ocorreu em 21 de outubro. A 2 de novembro eram 141 e nos dias seguintes aproximavam-se de 200. O então precário sistema de saúde precisou de reforço. Montaram-se hospitais improvisados em colégios como o Sion, o São Luís e o Mackenzie, e em sedes de clubes como o Palestra Itália e o Paulistano. O Corinthians, num humilde comunicado, afirmou que, “apesar de sua insignificante valia”, se sentia na obrigação de concorrer “para o alívio dos infelizes operários atacados pela pandemia”. Sendo assim, apesar de “pobre por sua natureza”, conclamou os sócios e os admiradores a uma vaquinha para socorro.

As baixas atingiam os detentores de postos-chave. O delegado-geral Tirso Martins pegou a gripe e passou o cargo a seu segundo, que também pegou a gripe. A dama da sociedade Antônia de Queirós, presidente da Cruz Vermelha paulista, também caiu gripada; sua substituta teve a mesma sorte, e a substituta da substituta. Na redação de O Estado de S. Paulo, o diretor Júlio de Mesquita adoeceu e entregou o bastão aos filhos, o segundo Júlio e Francisco; estes o repassaram aos seguintes na cadeia de comando, e assim foi até que um simples amigo dos jornalistas, o jovem escritor, ainda inédito, Monteiro Lobato, assumiu, por conta própria, a chefia de uma redação deserta. O escritor Paulo Duarte escreve, em suas memórias, que na Rua da Consolação passavam filas de caminhões levando cadáveres: “Esta paisagem tornou-se rotina. Já não se prestava atenção naqueles montes de caixões de defunto, todos iguais, uns sobre os outros”. Para atender à demanda, ampliaram-se os cemitérios da Consolação, do Araçá e do Brás, e abriu-se um novo, na Lapa. Luzes foram neles dispostas às pressas, para tornar possíveis enterros à noite. Uma vala comum, aberta no cemitério do Brás, recebeu 337 corpos, sem caixões. Na maioria vieram do hospital improvisado na Hospedaria dos Imigrantes, onde foi internada grande parte da população pobre. Nos bairros populares, mais que a doença, temia-se a Hospedaria dos Imigrantes. Espalhava-­se que ali se aplicava o “chá da meia-­noite”, para apressar a ida dos pacientes desta para a melhor. A 19 de dezembro declarou-se encerrada a epidemia, depois de 66 dias. Na conta oficial, 116 777 pessoas foram infectadas na cidade e 5 331 morreram. Cálculos extraoficiais fazem o número de infectados avançar a até 350 000, o que corresponderia a dois terços dos habitantes.

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P.S.: o colunista deu-se ao desplante de autoplagiar-se. As informações são do livro que publicou em 2015 sobre a história de São Paulo.

Os textos dos colunistas não refletem, necessariamente, a opinião de VEJA

Publicado em VEJA de 1 de abril de 2020, edição nº 2680

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