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A era do doutor robô

O Brasil autoriza as consultas pela internet, o que terá um impacto incancelável no relacionamento entre médico e paciente

Por Natalia Cuminale 8 fev 2019, 07h00

Poucos contatos humanos são mais reverenciados que o diálogo entre um médico e seu paciente — aquela troca, nem sempre fácil, às vezes francamente tensa, entre o profissional que zela pela saúde alheia e a pessoa que teme estar se aproximando da pior das notícias. Tem sido assim desde que Hipócrates (460 a.C.-377 a.C.), o pai da medicina, intuiu a necessidade de detalhar as doenças de quem o procurava para chegar ao diagnóstico, inicialmente com muita conversa, depois com cuidadosos exames. Desse modo, com variações mínimas, passaram-se séculos. Nos últimos anos, dada a explosão tecnológica que destruiu muitas atividades e inventou outras, abrindo atalhos inimagináveis para a humanidade, também a medicina passou a atravessar aceleradas modificações — e no centro da revolução está a convivência entre homens e mulheres de jaleco e os enfermos. Ela sempre exigiu o contato pessoal, a presença física no consultório, mas essa era está chegando ao fim.

Na semana passada, o Conselho Federal de Medicina (CFM), o órgão que regula a atividade, divulgou uma resolução de doze páginas. Nela, autoriza e incentiva o recurso à telemedicina, ou seja, o uso das inovações eletrônicas e dos meios de comunicação que surgiram com a internet para a prática de uma medicina que já não exige o contato físico. A resolução — que entra em vigor dentro de noventa dias — permite, por exemplo, que os médicos atendam seus pacientes através de um simples vídeo, coisa que, até agora, era expressamente proibida.

AQUI – Uso em hospital de São Paulo: o recurso foi aceito pelos doentes Jefferson Coppola/VEJA

Telos, em grego, raiz da expressão telemedicina, significa distância. E é justamente a distância, o avesso da proximidade, que produz a estranheza. A inexistência do encontro pessoal pode parecer a negação de um princípio básico ensinado em início de carreira: a medicina de qualidade se faz sobre a tríade “ver, sentir e escutar”. Diz Renato Anghinah, professor de neurologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo: “Conhecer o paciente é essencial. O médico precisa saber da história de vida, da família, dos problemas e frustrações de cada doente que chega ao consultório. Quanto mais empatia houver com o paciente, mais informações ele conseguirá coletar”.

Empatia, eis um conceito-chave para acompanhar a novidade. Estudo conduzido pela Universidade da Califórnia revela que, em qualquer sociedade, apenas 7% da comunicação emocional ocorre através da palavra, enquanto 38% são dados pelo tom de voz e 55% pela postura e pelo contato visual. Será que, com os recursos da inteligência artificial, com a distância física proporcionada pela tecnologia, haverá espaço para uma comunicação completa entre médico e paciente? Ainda não há resposta para essa questão, mas as primeiras reações à decisão do CFM mostraram que as resistências são grandes. Conselhos regionais alegaram não ter participado da elaboração das normas. Chegou-se a pedir inclusive a suspensão do documento. O CFM refutou as críticas declarando que a resolução foi resultado de dois anos de amplas discussões deflagradas em todo o país, e não aceitou adiar sua publicação.

LÁ FORA – Vestida de enfermeira, máquina em centro médico da Tailândia leva exames e remédios para os quartos Athit Perawongmetha/Reuters

Não será uma adoção fácil, e nas dores iniciais de qualquer parto é sempre bom olhar para experiências mais antigas. Nos Estados Unidos, a medicina baseada na tecnologia foi muito celebrada nos últimos trinta anos, desde a popularização do computador doméstico e, depois, com a chegada da internet. O efeito colateral: o esfriamento da relação entre o médico e o paciente. Ancorados nas máquinas, auxiliados por algoritmos, os especialistas são capazes de revelar detalhes duros do prognóstico e apontar chances de cura com extrema objetividade, mas sem exibir envolvimento emocional. A relação médico-paciente ficou técnica, fria, impessoal.

Arte/VEJA

A partir dos anos 2000, como reação a esse estado de coisas, surgiu entre os americanos um movimento de “humanização na medicina”, que prega a reaproximação do profissional com o paciente. As faculdades criaram disciplinas específicas para ensinar a boa conduta de um médico. Os críticos do uso da telemedicina afirmam que, por mais que o vídeo tenha alta resolução, que a conexão seja boa, que o microfone tenha bom alcance e o médico do outro lado da tela seja experiente, a consulta a distância pulveriza o convívio primordial. “A humanização precisa ser um princípio básico também da telemedicina”, diz um dos maiores estudiosos do tema no Brasil, Chao Lung Wen, professor da USP.

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Em termos práticos, como se dará essa humanização? Como contraponto ao “ver, sentir e escutar” da medicina tradicional, os entusiastas da telemedicina baseiam-se em uma trinca diferente: “praticidade, redução de custos e ampliação do acesso à saúde”. O Hospital Albert Einstein, em São Paulo, é uma instituição que usa o recurso de forma experimental desde 2012. Circula, em seus corredores, um robô com jeitão de enceradeira, controlado por celular, cuja missão é visitar os pacientes nos quartos. No topo do robô, numa tela que funciona à guisa de cabeça, aparece o médico, que pode estar a milhares de quilômetros de distância. Parece coisa de seriado futurista, mas está acontecendo neste momento. A telemedicina funciona? No Einstein, um projeto de orientação aos pacientes a distância evitou 83% das idas desnecessárias à emergência e obteve 96% de aprovação dos usuários. “A telemedicina agrada aos pacientes, evita desperdícios e desafoga o pronto-socorro”, diz Sidney Klajner, presidente do Albert Einstein.

Saliente-se, contudo, que a telemedicina não serve para todos os momentos. Pode ser útil para situações pontuais, como nos casos de acompanhamento pré-na­tal e mesmo depois do nascimento, já que as mães podem receber instrução remotamente sobre a melhor forma de amamentar o bebê ou sanar as angústias tão naturais dessa fase da vida. No entanto, a telemedicina não serve — pelo menos no estágio em que se encontra hoje — para pacientes com queixa de dores abdominais ou para aqueles que precisam realizar exames ginecológicos e urológicos. Muito menos para dar o diagnóstico de um câncer. “A medicina virtual dificilmente conseguirá ser tão completa quanto a consulta presencial”, diz o cirurgião oncológico Ademar Lopes, do A.C. Camargo.

Na resolução divulgada na semana passada, o CFM chancelou a cirurgia a distância (mediada pelos braços de um robô), o diagnóstico a distância (com os dados de exames transmitidos pelo computador) e a triagem a distância (uma orientação para o próximo passo do cuidado), entre outras modalidades (veja o quadro abaixo). Para consultas, a regra impõe uma relação prévia entre o médico e o paciente. Ou seja: não é permitido marcar consulta virtual com um cardiologista desconhecido. O contato inaugural tem de ser cara a cara, presencial. A consulta a distância pode servir para contatos posteriores em que médico e paciente queiram discutir o resultado de um exame ou fazer o acompanhamento de situações pontuais. A exceção, segundo o CFM, é para as pessoas que vivem em regiões remotas do país, embora não se tenha dito ainda quais são elas.

A consulta a distância, num país desigual como o Brasil, porém, tem limites — e nota-se aí a fragilidade do lema “ampliação do acesso à saúde”. Como ampliar o acesso à telemedicina no Nordeste se nessa região somente 64% das pessoas estão conectadas à internet, contra 81% no Sudeste? Ar­gu­menta-se que a medicina a distância é promissora para os doentes crônicos. Sete em cada dez idosos vivem com problemas como hipertensão, diabetes ou colesterol alto. Um acesso remoto ao médico evitaria deslocamentos cansativos e resolveria situações emergenciais com mais facilidade. De acordo com os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, em 2017, o Brasil superou a marca de 30 milhões de idosos. O problema é que somente 25% da população brasileira com 60 anos ou mais, um dos alvos evidentes da telemedicina, usa a internet. “É preciso que haja uma participação ativa do governo. Se as novas práticas forem bem aplicadas, vamos ter uma redução de filas em hospitais e melhor atendimento nas localidades isoladas, sem acesso à saúde”, diz Roberto Stryjer, fundador da Telecardio.

Há obstáculos, sem dúvida, mas parece inexorável que, num futuro muito próximo, vejamos cada vez mais bons exemplos da telemedicina. Imaginava-se, lá atrás, que o bom gerente de uma instituição bancária seria personagem vitalício, que as filas à frente dos caixas eram uma imposição sem saída. Os aplicativos de instituições financeiras, cada vez mais práticos e seguros, estabeleceram um novo mundo — tão cômodo que quase já nos esquecemos de como era antes. Será assim com a medicina. Vivemos agora um extraordinário ensaio geral, como comprovam o robô do Einstein e outros exemplos internacionais. O Reino Unido, os Estados Unidos e a Tailândia já praticam a telemedicina há um bom tempo — fizeram muito sucesso os vídeos e as fotografias de uma simpática enfermeira de alumínio, um autômato que distribui exames e remédios num hospital de Bangcoc. Nos EUA, 76% dos hospitais usam a telemedicina e 35 estados têm leis próprias em torno do assunto. Mas existe evidente espaço para crescimento. Uma pesquisa americana realizada pela Physicians Foundation com mais de 8 000 especialistas informa que apenas 18,5% dos médicos usam alguma forma de tecnologia para diagnóstico remoto. Haverá expansão porque ela resulta em economia e, afinal de contas, é sempre disso que se trata (“redução de custos”, não nos esqueçamos, é um dos lemas da telemedicina).

Na Inglaterra, um serviço de cuidados a distância para idosos com doenças crônicas reduziu em 15% as visitas de emergência; em 20% as admissões hospitalares; em 14% a ocupação de leitos hospitalares; e em 45% as taxas de mortalidade. São números que explicam como e por que a tecnologia se expande cada vez mais no campo da saúde. Não por acaso, proliferam, especialmente nos Estados Unidos, os aparelhos de uso doméstico preparados para avaliações médicas e ingestão de medicamentos em casa (veja o quadro acima).

ANOS 50 – A consulta virtual será tão humanizada como a do médico de família? FPG/Hulton Archive/Getty Images

A jornada da medicina colada às descobertas da ciência e da tecnologia é um belo capítulo da inteligência humana, e as inclinações luditas são, quase sempre, apenas uma manifestação do atraso. Você ainda será atendido por um robô — eis o que já era possível prever lá atrás, em 1959, quando médicos da Universidade de Nebraska deram o primeiríssimo passo e transmitiram exames neurológicos a estudantes em todo o câmpus por meio de televisores. No fim dos anos 1960, a Nasa, a agência espacial americana, deu o empurrão definitivo. Os cientistas estavam preocupados com os efeitos fisiológicos da gravidade zero nos astronautas. Para isso, criaram-se formas de estabelecer a distância um monitoramento de funções fisiológicas como frequência cardíaca, pressão arterial e temperatura. Eles estavam longe, no lugar mais longe possível, na franja da Lua. A necessidade de saber o que lhes ocorria impulsionou a telemedicina — que está cada vez mais próxima de nós.

Publicado em VEJA de 13 de fevereiro de 2019, edição nº 2621

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