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A droga que derrubou Teich: o que a ciência diz sobre a cloroquina?

Ministro teria caído por discordar de Bolsonaro sobre o tratamento em pacientes leves; maioria dos estudos aponta para a ineficácia do medicamento

Por Da redação - Atualizado em 15 Maio 2020, 18h57 - Publicado em 15 Maio 2020, 14h58

Desde os primórdios da pandemia de coronavírus no Brasil o uso da cloroquina ou de seu derivado menos tóxico, a hidroxicloroquina, em pacientes com Covid-19 é um dos grandes alvos de discórdia entre o presidente Jair Bolsonaro e o Ministério da Saúde. Bolsonaro continua insistindo no amplo uso do medicamento como solução para a pandemia no país e sua última jogada é libera-la, com o aval do Ministério da Saúde, em pacientes com sintomas leves da doença.

A insistência é o que teria levado ao pedido de exoneração do agora ex-ministro da Saúde Nelson Teich nesta sexta-feira, 15. Na quinta-feira 14, em reunião com empresários organizada pelo presidente da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), Paulo Skaf, Bolsonaro disse que iria liberar o uso da cloroquina mesmo à revelia de Teich. O agora ex-ministro vinha sendo questionado por médicos que lhe cobravam coerência em relação ao uso da cloroquina, já que Teich, especialista em oncologia, sempre condenou uso de medicamentos sem comprovação científica, algo que ocorre com frequência em tratamentos de pacientes com câncer.

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Desde a declaração de Trump sobre os “incríveis resultados” do tratamento com cloroquina em pacientes infectados pelo novo coronavírus, em meados de março, o medicamento se tornou um dos mais estudados pela ciência para este fim. No entanto, até hoje os resultados das pesquisas são controversos. Algumas apontam para sua eficácia e outros afirmam que, além de não funcionar, o uso do medicamento está associado a graves problemas de saúde. VEJA fez um levantamento com as últimas pesquisas científicas publicadas sobre o assunto. Conclusão: a maioria dos últimos estudos publicados sobre o assunto mostram que nem cloroquina nem a hidroxicloroquina – em geral, os estudos tendem a usar a hidroxicloroquina, por ser menos tóxica. Em geral, os estudos que apontam para uma possível eficácia do tratamento são observacionais – ou seja, não são suficientes para apontar uma associação entre causa e consequência /- e pequenos.

Uma análise feita pelo Centro de Medicina Baseada em Evidências no início de abril concluiu que “Os dados atuais não suportam o uso de hidroxicloroquina para profilaxia ou tratamento de Covid-19. […] Dois ensaios de tratamento com hidroxicloroquina que são de domínio público […] são análises prematuras de ensaios cuja conduta em ambos os casos divergiu dos protocolos de ensaios clínicos. Nem eles, nem três outros ensaios negativos que surgiram desde então, apoiam a visão de que a hidroxicloroquina é eficaz no tratamento de doenças leves da Covid-19.

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A mais recente publicação sobre o assunto, disponibilizada justamente na quinta-feira, 14, no renomado periódico científico The BMJ, contraindica o uso rotineiro de hidroxicloroquina em pacientes com Covid-19. A conclusão foi baseada nos resultados de dois estudos clínicos. O primeiro, realizado na França, concluiu que a hidroxicloroquina não reduz a admissão em terapia intensiva ou morte em pacientes hospitalizados com pneumonia devido à Covid-19.

O segundo, um ensaio clínico randomizado feito na China, mostra que pacientes hospitalizados com Covid-19 leve a moderada tratados com hidroxicloroquina não eliminaram o vírus mais rapidamente do que aqueles que receberam tratamento padrão. Além disso, houve mais eventos adversos no grupo da hidroxicloroquina.

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Outros dois estudos publicados na última semana, os maiores já realizados sobre a eficácia da hidroxicloroquina no tratamento da Covid-19, mostraram que a intervenção não reduz o risco de morte e que o medicamento não é efetivo no tratamento da doença. Por conta desses estudos, a Organização Mundial da Saúde (OMS) não recomenda o medicamento como um dos possíveis tratamentos para a Covid-19 neste momento.

Por outro lado, o mais recente estudo a indicar um possível benefício no uso da hidroxicloroquina foi feito pela Universidade de Nova York. Nele, os pacientes receberam uma combinação de hidroxicloroquina, azitromicina e sulfato de zinco. Entretanto, a pesquisa é preliminar – ainda precisa ser revisada por pares da comunidade científica – e retrospectiva. Ou seja, não serve como uma comprovação de causa e consequência.

Outro estudo, publicado no final de abril e realizado pela Prevent Senior, havia sugerido que o uso da hidroxicloroquina em pacientes leves poderia prevenir a internação. Como no caso anterior, o estudo foi apenas observacional. Além disso, pouco tempo depois, a Comissão Nacional de Ética em Pesquisa passou a investigar a instituição por irregularidades e suspeita de fraude na análise.

Atualmente, mais de 200 estudos avaliam o uso de cloroquina ou hidroxicloroquina no tratamento do novo coronavírus. Na quinta-feira, 14, o NIH anunciou o início de um ensaio clínico controlado randomizado duplo-cego para avaliar se a hidroxicloroquina, administrada juntamente com o antibiótico azitromicina, pode impedir a hospitalização e a morte por Covid-19. Todos os participantes, com sintomas leves ou moderados da doença, tomarão o medicamento em casa.

“Embora haja evidências anedóticas que a hidroxicloroquina e a azitromicina podem beneficiar as pessoas com Covid-19, precisamos de dados sólidos de um grande ensaio clínico controlado e randomizado para determinar se esse tratamento experimental é seguro e pode melhorar os resultados clínicos.”, afirmou o diretor do NIAID Anthony S. Fauci.

O estudo conduzido pelo NIH busca justamente avaliar a eficácia da proposta defendida por Bolsonaro. Mas, antes de fazer disso uma orientação formal, é preciso seguir o protocolo e aguardar a publicação deste ou de outros estudos criteriosos que comprovem os benefícios do tratamento.

 

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