A caneta emagrecedora virou promessa de campanha
Candidatos anunciam remédio grátis, mas o Brasil segue sem plano contra obesidade
Em ano de eleição, o Brasil assiste a um roteiro conhecido com um personagem novo. Toda campanha precisa de uma solução mágica para exibir no palanque, e a da vez cabe na palma da mão: a caneta emagrecedora. Candidatos de campos políticos diversos, prometem distribuí-la de graça, baratear seu preço ou quebrar patentes. Não é novidade: o tema já foi usado em eleições anteriores e volta agora em todas as esferas de poder.
Que fique claro: não sou contra a caneta. Nem sou contra os políticos. Como endocrinologista, sei o quanto esses medicamentos transformaram o tratamento da obesidade e a vida de muitos pacientes. O problema é transformar tratamento em slogan.
Incluir um medicamento no Sistema Único de Saúde (SUS) não se resolve com discurso. Exige avaliação da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS, definição de quem terá direito, protocolos clínicos, financiamento, logística e acompanhamento dos pacientes. Estimativas divulgadas pela imprensa falam em cerca de R$ 8 bilhões por ano se a oferta for ampla. Prometer sem explicar quem receberá, quem pagará e por quanto tempo é vender expectativa, não saúde. Distribuir sem critério e sem acompanhamento é caminho certo para o desperdício e a frustração.
A caneta é uma base, não a casa inteira
Precisamos de uma política de Estado, com E maiúsculo, de prevenção e combate à obesidade. A caneta entra, sim, como uma das bases. A cirurgia bariátrica é outra. Alimentação saudável e atividade física regular completam o conjunto.
Mas nada disso se sustenta sem ações que vão muito além do consultório: tributação de alimentos, que penalize os nocivos e favoreça os saudáveis; transporte urbano que estimule caminhar e pedalar e diminua o tempo no transporte público; segurança pública para que as pessoas possam se exercitar em ruas e praças.
Não é por acaso que a atividade física no deslocamento caiu de 17% para 11,3% entre 2009 e 2024. Isso não é escolha individual, é desenho de cidade. Só uma política de Estado, e não apenas do Ministério da Saúde, dá conta dessa tarefa.
A pesquisa Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), do Ministério da Saúde, mostra que a obesidade em adultos cresceu 118% entre 2006 e 2024, e que mais de seis em cada dez brasileiros têm excesso de peso. O diabetes avançou 135% e a hipertensão, 31%.
Esses números, porém, muito provavelmente são subestimados. A pesquisa é feita por telefone, com peso e altura informados pelo próprio entrevistado, e a tendência é que as pessoas declarem menos peso e mais altura do que realmente têm. A realidade é mais dura do que as estatísticas.
O custo de esperar
A conta de não agir é alta. Projeta-se que o excesso de peso consumirá cerca de 3% da riqueza produzida pelo Brasil (o Produto Interno Bruto) em 2035. Prevenir custa muito menos do que tratar infarto, acidente vascular cerebral, insuficiência renal e amputações. Mas não podemos olhar só para a planilha. Por trás de cada percentual há uma pessoa que convive com dor, cansaço, preconceito e medo das complicações. Obesidade é doença crônica e complexa, não falta de força de vontade. Cuidar dessas pessoas com dignidade também faz parte da conta.
Em época de eleição, vale perguntar a cada candidato: além da caneta, qual é o seu plano? Como será financiado? Quem será atendido primeiro? O que será feito para que menos gente precise de tratamento? O eleitor merece propostas sérias, com metas, prazos e orçamento, e não uma caneta erguida diante da câmera.
Obesidade não se resolve em um mandato nem com um único remédio. Resolve-se com compromisso de Estado que atravesse governos. Quanto antes começarmos, menor será a conta, financeira e humana.







