Assine VEJA por R$2,00/semana
Continua após publicidade

Vitória contra o custo-Lula

A derrota do líder petista no Supremo diminui o risco de uma guinada radical na economia. Mas ainda pairam incertezas no mercado

Por Marcelo Sakate Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO
Atualizado em 7 abr 2018, 06h00 - Publicado em 7 abr 2018, 06h00
(VEJA/VEJA)

A saída de cena do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva reduz as incertezas e os riscos de uma guinada populista na condução da economia pelo próximo governo. O petista era o candidato com chances reais de vitória que mais havia encampado o discurso de que é preciso mudar radicalmente a política econômica vigente, ainda que o país tenha voltado a crescer e a gerar empregos. Lula questiona a reforma da Previdência nos moldes propostos pelo governo de Michel Temer e critica tanto a reforma trabalhista aprovada pelo Congresso no ano passado quanto a lei que estabelece um teto para o aumento dos gastos públicos. Na quarta-feira 4, dia da decisão do STF, o mercado financeiro refletiu a ansiedade dos investidores: as ações tiveram leve recuo, e o dólar subiu. As projeções de juros futuros se elevaram, um reflexo da avaliação de que o Banco Central seria obrigado a aumentar as taxas para conter pressões sobre os preços, uma vez que Lula prometia pisar no acelerador dos gastos públicos para estimular a demanda. Na quinta­-feira, entretanto, com a notícia da derrota do ex-presidente na Justiça, o mercado comemorou, mas sem grande euforia: o Ibovespa, o principal índice da Bolsa de São Paulo, teve ligeira alta de 1%, e o dólar abriu em queda. Na sexta-feira, nova virada: a bolsa voltou a registrar uma ligeira baixa. A gangorra dos mercados demonstra, antes de mais nada, o elevado grau de incerteza que ainda paira sobre os ânimos dos investidores nacionais e estrangeiros.

“A hipótese de Lula não ser preso trazia certo nervosismo porque era algo que poderia validar a sua candidatura. Havia preocupação porque, alguns meses atrás, o petista abandonara o tom conciliador e vinha sendo agressivo nos seus discursos”, diz André Perfeito, economista-chefe da Gradual Investimentos. O temor de uma reviravolta na economia foi fundamentado em declarações recentes do próprio líder petista. Ele passou a defender uma guinada nos rumos da economia, com o uso de bancos estatais para ampliar o crédito ao setor privado, além da suspensão das privatizações. É um receituário defendido ao longo dos treze anos e meio do PT no poder — no início de maneira um pouco mais equilibrada, até meados do segundo mandato de Lula. A crise financeira de 2008, porém, abriu caminho para uma fase mais agressiva do chamado capitalismo de Estado, especialmente via liberação de crédito a juros subsidiados pelos bancos públicos. Essa fase acabou sendo aprofundada no primeiro mandato da ex-presidente Dilma Rousseff, quando ela tomou medidas radicais — como a redução, de forma unilateral, da conta de luz e da taxa básica de juros — que minaram a confiança de empresários, consumidores e investidores. A prova inequívoca dos males causados pela política intempestiva foi a recessão de 2015 a 2017, uma das mais prolongadas e profundas da história do país. Não faltaram exemplos de desperdício de dinheiro público, por meio de corrupção, de ingerência política ou simplesmente de más decisões administrativas. Caso emblemático é o da Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco. Segundo cálculos iniciais, de 2005, ela deveria ser erguida por 2,3 bilhões de dólares, mas a última estimativa apontava um custo acima de 20 bilhões de dólares. Trata-­se da mais cara refinaria do mundo.

Se Lula ficar de fato fora do páreo, a bandeira de mudança brusca nos rumos da economia será herdada pelo seu substituto como candidato do PT. O discurso, porém, se esvaziará sem a figura de seu principal líder. Assim, tendem a se fortalecer os candidatos de centro-direita dispostos a perseverar nas reformas, o que agradaria aos investidores. “O país não tem mais gordura para queimar. A política com participação maior do Estado, por meio de bancos públicos, e ajuda pontual a alguns setores já mostrou que gera graves desequilíbrios”, diz a economista Alessandra Ribeiro, sócia da consultoria Tendências. O próximo presidente, lembra ela, terá de se dedicar a uma pesada agenda de ajustes, que inclui a retomada da reforma da Previdência. Sem Lula, o cenário fica menos turvo — mas novas reviravoltas podem ocorrer.

Publicado em VEJA de 11 de abril de 2018, edição nº 2577

Publicidade

Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

O Brasil está mudando. O tempo todo.

Acompanhe por VEJA.

MELHOR
OFERTA

Digital Completo
Digital Completo

Acesso ilimitado ao site, edições digitais e acervo de todos os títulos Abril nos apps*

a partir de R$ 2,00/semana*

ou
Impressa + Digital
Impressa + Digital

Receba Veja impressa e tenha acesso ilimitado ao site, edições digitais e acervo de todos os títulos Abril nos apps*

a partir de R$ 39,90/mês

*Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
*Pagamento único anual de R$96, equivalente a R$2 por semana.

PARABÉNS! Você já pode ler essa matéria grátis.
Fechar

Não vá embora sem ler essa matéria!
Assista um anúncio e leia grátis
CLIQUE AQUI.