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Uma nova cultura

Inventor da expressão “nativos digitais” diz que crianças da era da internet pensam igual e não dão tanta importância à privacidade ameaçada pelo Facebook

Por Maria Clara Vieira - Atualizado em 30 Mar 2018, 21h41 - Publicado em 30 Mar 2018, 06h00

Há dezessete anos, o americano Marc Prensky, especialista em educação, criou as expressões “nativos digitais” e “imigrantes digitais” para diferenciar os que já nasceram na era da internet daqueles que tiveram de se adaptar a ela. Desde então, os nativos multiplicaram-se e cresceram a ponto de, segundo ele, não haver atualmente nos Estados Unidos nenhum imigrante digital em sala de aula. Autor de diversos livros e palestrante requisitado, Prensky, de 72 anos, que estudou nas universidades Harvard e Yale, concorda que houve excesso no uso recente de informações pessoais do Facebook para fins eleitorais, mas pondera que a privacidade nestes tempos já não é tão relevante. Não poupa críticas aos atuais métodos de ensino, que considera defasados em relação às necessidades dos alunos e do mercado. “Precisamos de jovens que escrevam menos artigos e ensaios e produzam mais”, alfinetou, em entrevista a VEJA durante visita ao Brasil.

A recente descoberta do uso de informações pessoais capturadas via Facebook para fins eleitorais e divulgação de fake news reacendeu o debate sobre privacidade na rede. Há como preservar pelo menos parte dessa privacidade? A questão é saber com o que vale a pena se preocupar. É mais ou menos como quando a pessoa se muda para uma cidade grande. Ela está ciente de que existem perigos, mas quer muito morar lá, então aceita os riscos e toma suas precauções. O acesso a dados pessoais só é danoso no momento em que se reverte em objetivos espúrios. Esse é o único problema. O resto é sigilo bobo, como a insistência em tratar salários como coisa confidencial. Vejo a geração atual movimentando-se na direção de uma sociedade muito mais aberta em termos de informações.

“O acesso a dados pessoais só é danoso quando se reverte em objetivos espúrios. Esse é o único problema. O resto é sigilo bobo, como a insistência em ver salários como coisa confidencial”

O que se pode aprender com esse escândalo envolvendo o Facebook? O caso nem é tão escandaloso quanto a imprensa faz parecer. O fato é que estamos no início de um vasto experimento no sentido de definir o que é vida privada no mundo virtual. Muitas questões vão surgir, como aconteceu sempre que pioneiros exploraram novos lugares. A diferença é que agora somos mais de 2 bilhões de indivíduos explorando juntos. Isso significa que os problemas vêm à tona mais rapidamente e podemos buscar soluções mais cedo. A longo prazo, a lição que se tira desse tal “escândalo” é a mesma que aprendemos com a democracia: vigilância, sempre.

Seu artigo sobre nativos digitais foi escrito em 2001, e as crianças lá citadas hoje são adolescentes. O que mudou desde então? Assistimos ao surgimento de uma nova cultura. Ser um nativo digital não significa saber automaticamente tudo sobre tecnologia. Significa que, por terem convivido com a tecnologia desde sempre, as crianças veem o mundo de outra forma. Um bom exemplo dessa mudança cultural é justamente a questão da privacidade. As pessoas da minha geração acham a preservação da vida privada um bem inegociável e extremamente importante. Elas têm receio de expor sua vida on-line e frequentemente dizem aos mais jovens para tomar cuidado com o que postam. Há alguns perigos, é verdade, e ninguém pode abrir sua intimidade sem filtros. Mas o valor da privacidade, em si, não é mais o mesmo.

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Ela deixou de ser relevante? Sim. Os jovens nascidos nesta nova cultura não têm medo de ser vistos. Se alguém conheceu as duas eras, valoriza a privacidade e precisou se adaptar aos novos tempos, é um imigrante. Se nasceu e cresceu no mundo da tecnologia, é um nativo. Agora, claro que se trata de uma metáfora. Não se podem classificar nativos e imigrantes pelo ano em que nasceram. A questão é ter ou não passado pela adaptação digital. É quase como se dois grupos vivessem em planetas diferentes.

Além da familiaridade com as redes, o que mais é típico dos nativos digitais? Eles têm enorme facilidade de compartilhar as coisas e por isso trabalham melhor em grupo. Também têm uma visão de mundo mais ampla, porque se comunicam com facilidade com gente de toda parte. Tenho reparado que os jovens, em especial os que entendem bem de tecnologia, são praticamente iguais em todo o planeta. Costumo dizer que os nativos digitais formam a primeira geração horizontal de que se tem notícia.

De que forma isso se manifesta? Quando converso com crianças e adolescentes, seja no Brasil, no Japão ou em Nova York, todos repetem as mesmas ideias. Querem ter mais poder, querem se conectar e atuar em grupo desde muito cedo. Foi-se o tempo em que os adultos podiam controlar as crianças e exigir que repetissem truques ensinados, como se fossem animais de estimação. Se alguma coisa na Síria chama a atenção do meu filho, por exemplo, ele pode facilmente contatar alguém de lá para conversar sobre o que está acontecendo. Eu não consigo mais controlar completamente suas ações, como era comum no passado. É uma geração poderosa, que quer e pode tomar atitudes que nunca tomamos na idade deles.

Há riscos nessa revolução? Sim, mas eles são maiores para os mais velhos. Se os jovens estivessem no comando das nações, muitos ministros da educação e, creio, a maioria dos professores estariam desempregados. O que se ensina atualmente não é o que os alunos querem ou aquilo de que precisam. Não há como escapar das mudanças revolucionárias que estão ocorrendo na vida das novas gerações. Mas elas terão resultados muito melhores se nós, adultos, optarmos por não interferir, oferecermos só um ou outro conselho de vez em quando e pararmos de nos preocupar tanto com o que os jovens estão fazendo.

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Os nativos digitais não estão perdendo lições valiosas quando deixam de ouvir os mais velhos? Não. Quando a vida era vivida de maneira menos acelerada, o que as pessoas mais velhas tinham a dizer valia por muito tempo. Agora, a maior parte fica ultrapassada rapidamente. Fazer faculdade é um exemplo. Os mais velhos acham que ter diploma universitário é essencial para ganhar bem e ter uma carreira de sucesso. Havia até estatísticas que confirmavam isso. Mas são números do passado e nada garante que sejam válidos no futuro. Muitas empresas já dão muito mais peso à experiência do que ao diploma. Buscam pessoas que resolvam problemas, que se envolvam com o trabalho, que façam as coisas acontecer — e isso não é ensinado na faculdade.

Que adaptações o senhor acha necessárias na educação? Educação, a meu ver, é o processo que transforma crianças em jovens e jovens em adultos. O sistema escolar que adotamos não é mais capaz de alcançar esse objetivo. Um exame como o Pisa, que faz um ranking dos estudantes do mundo a partir de seu conhecimento de matemática, linguagem e ciências, é uma bobagem. Avaliações como essas refletem ainda um modelo de ensino ultrapassado.

O senhor é a favor de eliminar as disciplinas tradicionais do currículo? Acho que deveriam ser muito reduzidas. A quantidade de coisas que todo mundo precisa armazenar na cabeça é muito pequena. O problema é que escapar do modelo conhecido é um risco, e nem os professores nem os pais são muito abertos a novos experimentos no campo da educação.

“O Google não vai tornar a memória dispensável, mas precisamos decidir o que vale a pena guardar. Temos de saber contar a história do Brasil em alguns tuítes. Mais que isso, busca-se na internet”

O Google está tornando a memória dispensável? Não acho que a memória vá se tornar dispensável, mas temos de decidir o que vale a pena guardar. Crianças e adolescentes decoram muita informação à toa. É claro que é importante manter algumas habilidades e conhecimentos, mas, na verdade, são muito poucos os que de fato importam. Decorar a tabuada do 5, por exemplo, ajuda a ver as horas em relógios analógicos. Já saber de cor quais são os cinco países mais populosos do mundo não serve para grande coisa. O importante é memorizar o cenário, ter uma visão geral, ser capaz de contar a história do Brasil em alguns tuítes. Mais que isso, quem se interessar vai buscar na internet.

Isso não promove a preguiça mental? Sócrates achava que a escrita criaria mentes preguiçosas. Felizmente, estava errado. Foi justamente aplicando a nova tecnologia da escrita que Platão pôde preservar os pensamentos do mestre para a posteridade. Toda geração considera que os pais trabalham demais e os filhos são preguiçosos. Eu acho ótimo não precisar decorar coisas só porque os outros mandam, mas lembro, sim, com prazer, nomes, fatos, citações que aprendi quando tinha de fazer isso. Como educadores, podemos e devemos ajudar os mais jovens, individualmente, a perceber o que vale a pena guardar na memória.

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Várias pesquisas apontam para jovens cada vez mais ansiosos e deprimidos. Os nativos digitais têm alguma desvantagem em relação a outras gerações? Está brincando? Eles só têm vantagens. Estão ansiosos porque vivemos em um mundo ansioso.

Outra crítica aos tempos atuais é que os jovens só sabem se conectar virtualmente. É verdade? Pode até ser, mas não há nada no mundo que garanta que falar cara a cara seja a melhor forma de comunicação. Tanto pessoalmente quanto nas redes sociais, sempre haverá a necessidade de aprender a se aproximar, a formar laços.

Ninguém sai batendo porta ou gritando em uma briga virtual. Não há uma perda, em termos de emoção? Quem diz isso está desprezando a força da literatura, que expressa emoções profundas sem o envolvimento de qualquer tipo de contato físico. Quando o telefone foi inventado, as pessoas descobriram quanta emoção pode ser transmitida usando apenas a voz. No caso do celular, há aplicativos que permitem ver o rosto da outra pessoa. E desligar quando não queremos ver mais, o que é bem mais difícil de fazer pessoalmente. As mensagens de texto são acompanhadas de emojis, ícones, vídeos, sons. Daqui a pouco cada um será capaz de transmitir emoções projetando-se nas carinhas existentes. A emoção nunca vai desaparecer, mas há muitas maneiras de demons­trá-la. Além disso, quando conversam cara a cara, muitas pessoas fazem de tudo para disfarçar suas emoções. As comunicações frente a frente são superestimadas.

É difícil distinguir entre verdade e mentira na internet. Os nativos digitais não terão ainda mais dificuldade? Não acredito. É tão difícil para eles quanto para qualquer um. As pessoas que aprenderam a dirigir quando o carro foi inventado tiveram quase tanta dificuldade quanto um jovem que pega pela primeira vez no volante hoje em dia. Nas conversas que tenho com crianças e jovens, já me relataram ouvir constantemente dos professores que não se pode acreditar em nada que esteja na internet. Veja que absurdo ensinar isso.

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Publicado em VEJA de 4 de abril de 2018, edição nº 2576

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