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Uma história literária do fanatismo

Essa antiga “doença da mente” parece ser uma força da natureza

Por José Francisco Botelho - 20 abr 2018, 06h00

A palavra “fanático” nem sempre foi um insulto ou uma acusação: até onde sabemos, pode ter começado como uma espécie de elogio. O termo latino fanaticus vem de fanus — um altar ou um santuário. Designava o benfeitor de um templo, ou um indivíduo diretamente inspirado pelos deuses; um mecenas das artes sacras ou um artista invulgarmente talentoso poderiam ser, a sua maneira, fanáticos. Cícero, no século I a.C., talvez tenha sido o primeiro a usar a palavra de forma pejorativa — numa de suas orações, o termo vira sinônimo de supersticioso. Centenas de anos depois, Voltaire chegou a uma definição mais próxima daquela que usamos hoje. “O fanatismo é uma doença da mente, que se transmite da mesma forma que a varíola”, escreve no Dicionário Filosófico, de 1764. “Não se transmite tanto por livros quanto por discursos e reuniões. Raramente nos sentimos exaltados quando estamos lendo sozinhos, com a mente tranquila e sedada.” Não sei até que ponto concordo com a indulgência plenária que Voltaire concede aos livros: poderíamos encher uma razoável biblioteca com obras que inspiraram paixões sangrentas. Mas o iluminista francês parece aproximar-se de uma verdade atemporal ao apontar a natureza gregária e contagiosa do fanatismo. Como uma força da natureza, essa praga mental se propaga pela ânsia exacerbada de unanimidade e pelo horror ao pensamento independente. Um contágio mais propenso a afetar manadas do que eremitas.

O romance As Benevolentes, do franco-americano Jonathan Littell (publicado no Brasil pela Alfaguara, em 2006, na ótima tradução de André Telles), é um dos estudos mais nítidos e assustadores da devastação causada pelo fanatismo sobre o intelecto. O Holocausto e a invasão nazista da União Soviética são narrados pela perspectiva de Maximilien Aue — jovem franco-alemão, bom leitor, que sonhava ser pianista, mas acaba se transformando em oficial da SS. Com hedionda nitidez, esse narrador suspeito mas avassalador descreve a metamorfose gradual de um cidadão esclarecido em um carrasco. “Para os russos, como para nós, o homem era irrelevante, a Nação e o Estado eram tudo”, escreve Aue — em cujo relato o fanatismo não parece uma escolha, e sim um destino histórico, que arrasta corpos e almas em turbilhões aparentemente opostos, mas de naturezas igualmente patológicas. “Se você nasceu em um país ou em uma época em que não apenas ninguém vem matar sua mulher e seus filhos, como ninguém vem lhe pedir para matar as mulheres e os filhos dos outros, agradeça a Deus e vá em paz. Mas nunca tire isto da cabeça: pode ser que você tenha mais sorte que eu, mas não é melhor.”

Na narrativa de Aue, o fanatismo é uma fatalidade: sob determinadas circunstâncias, qualquer ser humano poderia convencer-se da irrelevância do indivíduo e sacrificar-se a uma ou outra modalidade do pensamento absoluto. Resta-nos esperar que, nisso, ele esteja errado: que haja um antídoto à praga, uma escolha à interpelação fanática, e que possamos, com a ajuda dos deuses, dizer-lhe não.

Publicado em VEJA de 25 de abril de 2018, edição nº 2579

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