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Um trono vazio

Durante anos, Lula não deixou nenhum nome do partido ofuscar sua liderança. Agora, com ele fora do jogo, o PT sofre para encontrar um candidato

Por Gabriel Mascarenhas - 7 abr 2018, 06h00

A senadora Gleisi Hoffmann chegou ao Congresso em 2010 com o expressivo apoio de 3,1 milhões de paranaenses. Atual presidente do PT, ela já ocupou a cobiçada cadeira de ministra da Casa Civil. Mas, transcorridos oito anos e cinquenta fases da Operação Lava-Jato, a parlamentar personifica a penúria eleitoral de seus pares de legenda. “Hoje não consigo me eleger nem síndica de prédio”, sentenciou, durante uma reunião de bancada, no fim do ano passado. A frase dá a dimensão da encruzilhada em que se encontram Lula e seus correligionários desde a última quarta, dia 4, quando o Supremo Tribunal Federal abriu as portas da cadeia para o ex-presidente. Independentemente do que venha a acontecer do ponto de vista jurídico, um dado é certo: o partido da estrela vermelha caminhará para a eleição deste ano sem o seu nome mais importante. Pior. Assim como tantos outros líderes, do mundo político ou privado, Lula e o PT simplesmente não se prepararam para esse momento. Não há nas fileiras petistas nenhum quadro capaz de substituir o ex-presidente à altura — seja na capacidade de empolgar a militância, seja nas pesquisas eleitorais.

As opções Fernando Haddad e Jaques Wagner: eles possuem defeitos semelhantes aos de Lula, mas sem as mesmas qualidades. Estão enrolados com a Lava-Jato e têm resultados pífios nas pesquisas Paulo Lopes/Futura Press/Estadão Conteúdo; Joá Souza/Ag. A Tarde/Folhapress

As duas principais alternativas, o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad e o ex-governador baiano Jaques Wagner, possuem defeitos semelhantes aos de Lula, mas sem as mesmas qualidades. Ambos terão de dar explicações à Justiça em algum momento. Haddad, hoje o mais cotado para encabeçar a chapa presidencial, foi indiciado pela Polícia Federal sob a suspeita de ter recebido 2,6 milhões de reais, em caixa dois, da empreiteira UTC nas eleições de 2012. No fim de fevereiro, a PF bateu à porta de Wagner antes do café da manhã para cumprir um mandado de busca na Operação Cartão Vermelho. A investigação aponta o ex-governador como membro de um esquema de superfaturamento de 450 milhões de reais nas obras da Arena Fonte Nova, um dos estádios-sede da Copa de 2014.Quando questionado sobre qual caminho o partido deve seguir sem ele, Lula prefere o silêncio. Desde o fim do ano passado, vem sendo enfático com aliados. O ex-presidente deixa claro que não admitirá ver correligionários lançando nomes alternativos até agosto. Recorre ao didatismo para convencê-los de que a especulação sobre outra candidatura agora serviria de escavadeira para que os detratores acelerem o enterro da imagem do líder populista. Sobre uma eventual preferência entre Haddad e Wagner, ele costuma tergiversar — isso quando não se irrita. Mesmo líderes petistas do Congresso evitam arriscar palpites. “Tenho certeza de que determinadas coisas Lula não conta nem a dona Lindu em oração”, resume Humberto Costa (PT-PE), citando a mãe do correligionário.

Sem sombra de dúvida, o principal responsável pela ausência de lideranças à altura de Lula é ele próprio. Ao longo de sua trajetória, o petista  jamais permitiu que sua autoridade fosse questionada. Espanou antigos companheiros e afundou seus projetos políticos (Eduardo Suplicy, Cristovam Buarque e Tarso Genro foram os que mais sofreram). No vácuo atual, sua estratégia tem sido a de sempre: matar no peito. O plano imposto pelo ex-presidente ao partido é sustentar o discurso de preso político. Ele já avisou ao séquito que na cadeia vai se dedicar ao que sabe fazer: articular e inflar as massas. Como ilustração, compara-se a José Dirceu para dizer que ninguém vai vê-lo devorando livros em busca da redução da pena. Já avisou também que, uma vez preso, espera receber lideranças internacionais e não quer saber de regime semiaberto. Se tudo der certo na sua visão, sua candidatura será sustentada até agosto, por meio de liminares. Quando os recursos se esgotarem, ele partirá para a transferência do espólio.

Embora não seja o caminho mais provável, Lula admite que, se tudo der errado internamente, o PT poderá engrossar o palanque de outro candidato de esquerda. Ciro Gomes (PDT) é a possibilidade mais óbvia, mas apenas em tese. A oscilação de temperamento do pedetista e sua disposição para atacar Lula criam dificuldades para a composição. Apoiar Guilherme Boulos, do PSOL, é outra opção, mas também remota. O ex-presidente torce mesmo é para que Haddad, seu favorito, ou Wagner consiga se viabilizar para disputar um segundo turno com Jair Bolsonaro, cuja rejeição pode facilitar a caminhada petista.

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Com quem quer que o PT dispute, sem Lula, o partido terá uma eleição difícil. Vários de seus destaques vão cortar um dobrado para retornar ao Congresso. Há uma possibilidade real de o partido encolher no pleito de outubro. Não por acaso, a senadora Gleisi, presidente da sigla, decidiu cair de categoria e concorrerá a uma vaga na Câmara, ainda assim com risco de ficar desempregada em 2019. Se isso acontecer, ela poderá começar a campanha entre os vizinhos do prédio em Curitiba.

Publicado em VEJA de 11 de abril de 2018, edição nº 2577

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