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Um risco no mapa do mundo

Um gigantesco iceberg, do tamanho do DF, desprende-se de uma barreira de gelo na Antártica e reacende o alerta sobre as ameaças que rondam o planeta

Por Jennifer Ann Thomas Atualizado em 13 jul 2017, 16h40 - Publicado em 13 jul 2017, 12h52

“Dada a causa, a natureza produz o respectivo efeito no modo mais breve que ele pode ser produzido”, acreditava o gênio renascentista italiano Leonardo da Vinci (1452-1519). Não se sabe com precisão o que terá provocado o fenômeno desta vez, mas a natureza mostrou de novo que, dada a causa, ela produz, sim, o efeito, no modo mais breve possível. Depois de duas décadas de observações, os cientistas do Projeto Midas, que monitora regiões da Antártica, anunciaram na quarta-feira 12 que um gigante de gelo de 5 800 quilômetros quadrados, 190 metros de espessura e 1 trilhão de toneladas de peso se desprendeu da Plataforma Larsen C, na região oeste do continente branco. Trata-se de um dos maiores icebergs de que se tem notícia: sua área é equivalente à do Distrito Federal e quatro vezes a do município de São Paulo. Posto à deriva, muito provavelmente — segundo a maioria dos especialistas que se manifestaram a respeito — por motivos “naturais”, e não em consequência do aquecimento global capitaneado pelo homem, o formidável bloco gelado tem agora um destino intrigante. O que parece seguro é que resulta pequeno o seu potencial para provocar, por exemplo, inundações sem parâmetros ao redor do único planeta que temos por enquanto para habitar — viver em Marte ainda é coisa de ficção científica. O motivo é simples: o espetacular naco de gelo sempre esteve flutuando no Mar de Weddell, ainda que colado à imensidão alva, e não houve por isso nenhuma elevação do nível dos oceanos.

VEJA/VEJA

Explicou a VEJA a geógrafa italiana Anna Hogg, especialista em observação de geleiras via satélite do Instituto de Ciência do Clima e da Atmosfera, da Universidade de Leeds, no Reino Unido: “O que aconteceu tem efeito similar ao do derretimento de cubos de gelo em um drinque — o volume do líquido não causa uma alteração significativa para fazer a bebida transbordar do copo”. O que não sai da cabeça dos estudiosos é outra coisa: a possibilidade de toda a Plataforma Larsen C, uma espécie de prolongamento flutuante das incomensuráveis geleiras da Antártica, entrar em colapso junto com outras regiões congeladas, o que poderia elevar o nível dos oceanos, afogando, assim, metrópoles inteiras, como o Rio de Janeiro e Nova York. Essa hipótese, no entanto, é remota, ou, pelo menos, extrema. Praticamente todo o gelo da Terra teria de descongelar para causar tal efeito.

O RIO AFOGADO – Cena do filme 2012: a pior ficção científica, segundo a Nasa //Divulgação
PIONEIROS – O norueguês Roald Amundsen e o inglês Rober Scott: corrida ao Pólo Sul, vencida pelo primeiro, em 1911 Anders Beer Wilse/

A preocupação dos cientistas tem um motivo concreto. Antes da Larsen C, outras duas plataformas de gelo próximas a ela, a Larsen A e a B, enfrentaram um processo semelhante ao que culminou no fenômeno da semana passada — em 1995 e 2002, respectivamente. Um pedaço de ambas as barreiras de gelo se descolou e, em pouco tempo, elas se desintegraram. Apesar desses antecedentes históricos, há indícios de que os desdobramentos do episódio da Larsen C não serão os mesmos. “No caso das geleiras anteriores, nós tínhamos identificado vários lagos ao longo da superfície congelada, o que indicaria maior fragilidade. O mesmo não acontece agora com a Larsen C”, argumenta Anna Hogg.

Embora o derretimento das grandes geleiras venha com frequência à mente quando se pensa nos prejuízos causados pelo aquecimento global — incluindo a imagem de indefesos ursos-polares tentando se equilibrar em finíssimas placas de água congelada —, é preciso sublinhar que, desta feita, as mudanças climáticas trazidas pela elevação da temperatura do planeta por obra e graça do homem predador nada ou muito pouco tiveram a ver com o desprendimento do supericeberg da Plataforma Larsen C. Não se está pretendendo aqui, é claro, digamos, “derreter” as teses ambientalistas que, em última instância, sustentam o Acordo de Paris. Contudo, não há nenhuma prova contundente que associe um fenômeno ao outro. A propósito, levando-se em conta a abalizada palavra do galês Adrian Luckman, o principal pesquisador do Projeto Midas, o aquecimento global deve ser mais motivo de preocupação, pelos danos que já provoca, do que o iceberg desprendido da Larsen C. “Aquele bloco de gelo vai se afastar lentamente da plataforma e se dividir ao longo dos próximos anos”, assegurou ele a VEJA. Luckman esclareceu que o “nascimento” de icebergs é muito comum, porém admitiu que uma formação daquela magnitude consiste em um fato geográfico surpreendente.

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Apesar de não ser um perigo iminente, o.k., estamos todos de acordo nisso, ninguém sabe como a Larsen C reagirá a sua nova configuração, reduzida em 12% de sua área original por força do desprendimento do supericeberg. De acordo com o glaciologista e coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia da Criosfera, Jefferson Simões, pioneiro do Projeto Antártico brasileiro, a principal dúvida é mesmo em relação à plataforma como um todo. Caso ela se desintegre como as antecessoras, não se sabe se o restante do gelo concentrado naquela porção da Antártica também escoará para o mar com facilidade, pois a plataforma funciona como uma espécie de barreira. Além disso, não há como prever se o volume será significativo para aumentar o nível dos oceanos. “Um cenário catastrófico, se vier a acontecer, não será antes de dois ou três séculos”, assevera Simões. Mesmo antes do caos aquático, 30 a 40 centímetros a mais de água trariam prejuízos financeiros bilionários para as cidades costeiras.

Reprodução/Nasa

Vista sob um ângulo mais completo, a Antártica, com seus 14 milhões de quilômetros quadrados — somadas as partes ocidental e oriental —, vem há tempos dando sinais de que é um continente ameaçado. Para se ter uma ideia, a Geleira Pine Island, situada também na parte ocidental, com cerca de 400 metros de espessura, perdeu 45 metros de espessura entre 1994 e 2012. Todos os anos, na região oeste da Antártica, 125 000 metros cúbicos de gelo são perdidos. Na porção leste fica a Geleira Totten, com mais de 500 000 quilômetros quadrados — se derreter, ela acrescentará sozinha outros 4 metros ao nível do mar.

As fantasias que surgem com as previsões de caos absoluto em decorrência do derretimento das geleiras tomam conta do imaginário na ficção científica. O filme 2012, dirigido por Roland Emmerich e lançado em 2009, conta a história de dois cientistas que descobrem os efeitos de tempestades solares no rápido aquecimento do núcleo da Terra, desencadeadores de uma série de desastres naturais. Numa das cenas, o Cristo Redentor é destruído. Um consolo: em 2011, a Nasa nomeou o trabalho de Emmerich como o pior longa de ficção científica de todos os tempos.

Antes de ser objeto de Hollywood, a Antártica foi motivo de disputa entre o britânico Robert Scott e o norueguês Roald Amundsen. Ambos queriam o título de primeiro explorador a alcançar o Polo Sul. Mesmo tendo partido depois, Amundsen chegou antes, em dezembro de 1911. Foi apenas em 1957, o Ano Geofísico Internacional, que se chamou atenção para a pesquisa científica na Antártica. Na ocasião, buscou-se incrementar os estudos e garantir apoio mundial para a exploração do continente. O Brasil manteve uma estação no local entre 1984 e 2012, quando um incêndio a destruiu. A Antártica é hoje um território internacional, Patrimônio da Humanidade — e esse não é apenas um título honorífico. Qualquer coisa que a afete afetará o planeta. A natureza não demora a dar suas respostas.

Com reportagem de Carla Monteiro

Publicado em VEJA de 19 de julho de 2017, edição nº 2539

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