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Um gênio na berlinda

Uma mensagem infeliz piora a crise de credibilidade de Elon Musk, dono da Tesla, abala sua aura de visionário e causa dúvidas sobre a viabilidade da empresa

Por Bianca Alvarenga 17 ago 2018, 07h00

Estou considerando tirar a Tesla da bolsa por 420 (dólares por ação). Financiador garantido.” Foi assim, em um tuíte com menos de uma dúzia de palavras, que Elon Musk, o visionário fundador da fabricante de carros elétricos Tesla, anunciou sua intenção de retirar as ações da empresa da bolsa americana. A simplicidade da mensagem não refletiu a grandiosidade da operação, que pode atingir 50 bilhões de dólares. Publicado no perfil pessoal de Musk no Twitter, o comunicado abalou a credibilidade do empreendedor. Em primeiro lugar, por não ter sido feito no foro adequado. Mas também pelo questionamento de autoridades e investidores sobre se ele teria, de fato, condições de cumprir a promessa. Desde o tuíte, no último dia 7, as ações da empresa despencaram 10%. E Musk passou a ser investigado pelas agências de regulação do mercado americano, uma vez que executivos de empresas são proibidos de anunciar operações antes de avisar os acionistas. Enfim, um tremendo abacaxi. Não se trata, porém, de episódio isolado. Musk tem derrapado nas decisões e comentários nos últimos meses, pondo em xeque uma reputação até então inabalável.

Antes da crise, Elon Musk era alçado ao panteão de gênios e fundadores de grandes empresas de tecnologia, junto de nomes como Steve Jobs, da Apple, e Travis Kalanick, da Uber. Em comum, ele também compartilha uma personalidade difícil e explosiva. Jobs foi demitido da Apple na década de 80 ao se indispor com outros executivos. Kalanick foi obrigado a entregar o comando da Uber depois de uma série de decisões atrapalhadas, incluindo um bate-boca com um motorista do aplicativo. Musk já ostenta um longo histórico de desentendimentos com os investidores da Tesla, que se tornaram mais frequentes à medida que se avolumavam as dificuldades. Recentemente, ele se recusou a responder a questionamentos de analistas sobre a viabilidade financeira da empresa. “Com licença. Próximo. Perguntas estúpidas e tediosas não são legais”, disse na ocasião. As ações despencaram com a grosseria, o que obrigou Musk a fazer um pedido público de desculpas. O destempero se evidencia principalmente nas redes sociais: o bilionário não se acanha em bater boca com críticos, a tal ponto que seu perfil vitriólico já foi comparado ao do presidente Donald Trump.

Decepção – Model 3: o carro deveria ser o primeiro em escala comercial da Tesla, mas a produção está aquém do previsto e a empresa amargou prejuízo //Divulgação

Personalidade à parte, as dúvidas sobre a saúde financeira da Tesla têm razão de ser. A empresa teve um prejuízo de 743 milhões de dólares no segundo trimestre, quase o dobro da perda registrada um ano antes. O mais preocupante para os investidores é a dificuldade para produzir em escala comercial o Model 3, sua versão de entrada no segmento dos carros elétricos. O calendário de entregas está sendo sucessivamente descumprido. Ao cogitar a retirada da Tesla da bolsa, Musk quer aliviar a pressão dos acionistas por resultados imediatos. A montadora é a face mais visível de seu império de negócios inovadores. Além de fabricar carros, ela também investe no desenvolvimento de baterias e painéis solares. Musk comanda ainda a SpaceX, empresa de produtos aeroespaciais que objetiva promover a habitação humana em Marte e uma nova viagem à Lua. A dúvida do mercado é se haverá fôlego e recursos para cumprir todas as expectativas. “É difícil saber se esse comportamento é traço da personalidade genial dele ou apenas uma cortina de fumaça para desviar a atenção da situação da empresa”, diz David Kallás, do Centro de Estudos em Negócios do Insper. “A estratégia de tocar diversos projetos ao mesmo tempo e tentar criar produtos em escala, com preços menores, é bastante arriscada.”

Acossado pelos investidores e pelas autoridades, Musk levou alguns dias para dizer que o tal “financiador garantido”, que o sustentaria fora da bolsa, é um fundo do governo saudita que detém participação em bancos e até uma pequena fatia na Uber. Se houver indícios de que o bilionário manipulou o mercado para se beneficiar, a punição poderá ser pesada. A popularização dos carros elétricos parece inevitável, mas o futuro da Tesla e de Musk não está assim tão claro.

Publicado em VEJA de 22 de agosto de 2018, edição nº 2596

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