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Um conto gótico

Em 'Jurassic World — Reino Ameaçado', diretor imbui as experiências genéticas com dinossauros de um terror e melancolia dignos do clássico 'Frankenstein'

Por Isabela Boscov 15 jun 2018, 06h00 • Atualizado em 4 jun 2024, 16h51
  • Ah, esses bilionários, sempre tão confiantes de que o dinheiro tudo pode comprar: não só um dinossauro de carne e osso para chamar de seu, mas também — que ideia absurda — segurança contra essas toneladas indomesticáveis de voracidade. De forma que o leilão de espécimes vivos realizado na mansão do magnata Benjamin Lockwood (James Cromwell) toma o único rumo possível: o do desastre magistralmente executado por centenas de artistas de computação gráfica, pela equipe do gênio dos animatronics Neal Scanlan e pelo cineasta espanhol J.A. Bayona, que traz para Jurassic World — Reino Ameaçado (Jurassic World: Fallen Kingdom, Estados Unidos, 2018) o senso de catástrofe já demonstrado em O Impossível e a sensibilidade para o horror de Sete Minutos Depois da Meia-Noite. Quando um carnívoro selvagem posa contra a lua cheia entre os telhados e torretas da mansão, ou devassa com suas garras a inocência do quarto da pequena Maisie (Isabella Sermon), este quinto filme da série revela a sua índole. Mais do que objetos de assombro, os dinossauros são, aqui, criaturas saídas dos recantos góticos da imaginação: sua beleza está no seu poder de nos sobrepujar e na sua anomalia — esta, a ideia que perpassa todo o filme, já em pré-estreia no país e em circuito ampliado a partir desta quinta-feira.

    É um capricho de Bayona, claro, imbuir Reino Ameaçado desse terror e dessa melancolia, herdados diretamente do Frankenstein de Mary Shelley, pela criação trazida de volta a um mundo a que não deveria pertencer. Essas qualidades estão lá como um acompanhamento delicado; prova dele quem quiser acrescentar um sabor diverso ao prato principal de todas as aventuras da série — dinossauros de todos os tamanhos e graus de ferocidade, e as hecatombes que eles são capazes de provocar. Ou, ainda, as que podem sofrer: três anos depois do massacre ocorrido no parque temático da Isla Nublar, na Costa Rica, a ideia de reviver o empreendimento comercial foi abandonada e os animais, deixados livres para reconstituir, no isolamento, uma espécie de paraíso jurássico. O vulcão da Isla Nublar, porém, acaba de voltar à atividade com violência, e a questão se impõe: tentar realizar um salvamento ou deixar que os dinossauros pereçam?

    A primeira opção é a favorita de ativistas e de seu oposto ideológico, os oportunistas. A segunda opção deveria ser a predileta de quem tem um mínimo de juízo — como o matemático Ian Malcolm (Jeff Goldblum, sempre um deleite), que, de filme em filme, avisa que as variáveis acarretadas pela “desextinção” dos dinossauros são complexas demais para que se possam controlá-las. Malcolm explica a uma comissão do Senado americano que é preciso abandonar os dinossauros à própria sorte na Isla Nublar e mesmo torcer para que o vulcão dê cabo deles: nunca foi o plano da evolução que nós e eles estivéssemos juntos sobre o planeta, e as consequências mais drásticas dessa convivência ainda estão por se anunciar. Os bichos criados por John Hammond e seu ex-sócio Benjamin Lockwood, porém, representam um investimento incalculável, e há alguém operando nas sombras para resgatá-los com fins mercantis.

    Um conto gótico
    Glória vitoriana - Pratt, Bryce e Isabella na mansão em que se passa a ação: velhas ideias a respeito da superioridade humana (Universal Pictures/Divulgação)

    Caçadores mal-intencionados, assim, ganham a ajuda de convertidos à causa jurássica, como a ex-executiva Claire (Bryce Dallas Howard) e o adestrador Owen Grady (Chris Pratt), para, numa sequência verdadeiramente espetacular (e implausível), correr contra a erupção vulcânica, a nuvem piroclástica e os rios de lava e tirar de Isla Nublar algumas dezenas de animais — entre os quais um novo e perigosíssimo híbrido, o indoraptor (que combina o genoma do Indominus do filme anterior ao do velociraptor). Claire e Owen julgam estar conduzindo os animais à segurança das instalações de Lockwood no norte da Califórnia. Na verdade, estão propiciando destinos abjetos para eles: mais exploração comercial, uso em conflitos armados, uma vida toda dentro de jaulas, novos experimentos genéticos.

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    Bayona ao mesmo tempo admira os princípios de militantes como Claire e lamenta sua ingenuidade — e se vale de uma coisa e de outra para levar a série a um território ainda inexplorado, tirando a ação dos ambientes naturais e transpondo-a para os cenários sombrios da mansão, assombrada por velhas ideias a respeito do arbítrio do homem sobre as outras espécies (os interiores fazem referência explícita à glória vitoriana do Museu de História Natural de Londres), pelos arrependimentos de Lockwood e por um segredo doloroso, que vai se armar como gancho para o próximo filme. Toda vida, seja qual for a maneira de seu nascimento, quer proteger a si mesma, raciocina Reino Ameaçado — mas, como bem avisou Ian Malcolm, isso significa que certas vidas vão parar entre os dentes de outras. Com carteira, boas intenções e tudo.


    O shopping da caça

    O shopping da caça
    Sorria - Turistas e a zebra abatida: parques temáticos, mas com sangue (Neue Visionen Filmverleih/Divulgação)
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    No abrigo elevado, um dos senhores perscruta a savana bebendo uma cerveja, enquanto o outro cochila segurando o rifle. Mais tarde, funcionários locais virão buscá-los de carro. Se os turistas tiverem abatido algum animal, seu único trabalho será posar para uma foto — os funcionários é que vão carregar a presa, remover sua pele, retirar suas vísceras e prepará-­la para o tipo de troféu desejado. Quem não conseguir disparar um tiro letal poderá fingir que o fez; em reservas de caça como as que se veem em Safári (Safari, Áustria, 2016), já em cartaz no país, há cabeças empalhadas de todo tipo à venda. O espírito é o de um parque temático, com guia e loja de suvenires — mas as vítimas são reais. Em países como a Namíbia e a África do Sul, onde o diretor austríaco Ulrich Seidl rodou seu documentário, a caça é necessária para controlar populações, eliminar animais doentes e gerar receita — cada espécie tem seu preço tabelado. O objeto de Seidl, entretanto, é o porquê íntimo da caça: para além de todas as racionalizações dos turistas entrevistados pelo diretor, o que faz com que o ato de destruir uma girafa ou uma zebra constitua uma realização? Ainda mais nestas condições: quem guarda uma imagem, digamos, épica da caça na África — do escritor Ernest Hemingway ou do cineasta John Huston pondo-se cara a cara com búfalos, leões e elefantes — deve trocá-la por uma versão ridícula e mais cruel do ritual, com armas e munições de longa distância e aversão às realidades da última agonia. Contundente, Seidl detecta nos personagens de Safári o mesmo especismo e utilitarismo de que trata Jurassic World — Reino Ameaçado. Mas vai mais longe, na constatação enregelante de que o senso de superioridade sobre outras espécies é gêmeo univitelino do racismo.

    Publicado em VEJA de 20 de junho de 2018, edição nº 2587

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