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Tuíte incendiário

Mensagem do comandante do Exército na véspera do julgamento do HC de Lula alvoroça defensores da “volta do regime militar”

Por Eduardo Gonçalves - 7 abr 2018, 06h00
A mensagem – Texto publicado pelo general no Twitter. Abaixo dele, posts de apoio vindos de militares em postos-chave ./VEJA

Nos turbulentos dias que antecederam o impeachment de Dilma Rousseff, o comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas, cansou-se de ouvir que as Forças Armadas deveriam se mexer para “pôr o país em ordem”. Como revelou em entrevista a VEJA, em abril de 2017, o comandante chegou a ser sondado por políticos de esquerda que defendiam a decretação do estado de defesa pela presidente — medida que obrigaria a Força a tomar as ruas. Villas Bôas rechaçou de imediato a hipótese, “descabida e perigosa”, segundo ele. Por mais de uma ocasião, o militar já havia afirmado que o Exército deve atuar nas crises como um “protagonista silencioso”, guiado unicamente pela Constituição, e tendo como base os pilares da “estabilidade, legalidade e legitimidade”.

Na terça-feira à tarde, no entanto, véspera do julgamento do habeas-corpus do ex-presidente Lula no Supremo Tribunal Federal (STF), o comandante pareceu trair a si próprio ao publicar no Twitter mensagem em que dizia repudiar “a impunidade” e em que assinalava estar o Exército brasileiro “atento às suas missões institucionais”. Como era de esperar, o texto teve repercussão imediata. Embora tenha agradado àquela parte da opinião pública que enxerga na Força o derradeiro porto seguro em meio ao maremoto da corrupção, teve também consequências ruinosas. Deu margem à compreensível interpretação de que seria um aviso aos ministros do Supremo de que o Exército estaria disposto a intervir caso a Corte concedesse o benefício a Lula. No julgamento do habeas-corpus do ex-presidente, o decano Celso de Mello, sem citar nominalmente o general, criticou com dureza a sua iniciativa e disse serem “inaceitáveis” o que chamou de “intervenções castrenses”.

O tuíte do comandante conseguiu alvoroçar os defensores da “volta do regime militar” dentro e fora dos quartéis — o general da reserva Paulo Chagas chegou a anunciar que estava pronto para a guerra (“Tenho a espada ao lado, a sela equipada, o cavalo trabalhado e aguardo as suas ordens!”, escreveu). Teve ainda o efeito de expor divergências entre as Forças. Em boletim interno distribuído na quarta-feira 4, o comandante da Aeronáutica, tenente-brigadeiro do ar Nivaldo Luiz Rossato, defendeu a tese de que as Forças Armadas devem se manter fiéis à Constituição e de que seus integrantes não devem “se empolgar a ponto de colocar convicções pessoais acima daquelas das instituições”.

Pelo menos três generais que ocupam postos-chave nas Forças Armadas declararam apoio a Villas Bôas no Twitter: Geraldo Antonio Miotto, comandante militar do Sul; Edson Skora Rosty, chefe do Estado-Maior do Comando Militar da Amazônia; e José Luiz Dias Freitas, comandante militar do Oeste. O presidente Michel Temer não comentou o episódio.

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A mensagem do general não foi escrita nem publicada num rompante — foi precedida de longas conversas, inclusive com não fardados. Além disso, seu conteúdo destoa flagrantemente do perfil de seu autor. Reconhecido pela ponderação e pelo espírito democrático, Villas Bôas já foi posto à prova e passou com louvor no teste do populismo militar — como quando, na época da crise do impeachment, mostrou que o silêncio pode ser a maior prova de uma convicção. Diante disso, a estridência de seu texto deixa uma interrogação no ar: estaria o Exército sereno, coeso e pacificado? Ou há nele alguma pulsão latente que precisa ser domada, ainda que à custa de um tuíte tresloucado?

Publicado em VEJA de 11 de abril de 2018, edição nº 2577

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