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Tropeçar é humano

Ao explorar personagens que raramente fazem uma escolha clara entre o bem e o mal, 'Segundo Sol' transforma horário nobre em palco de vibrante debate moral

Por Marcelo Marthe - 22 jun 2018, 06h00
Arte/VEJA

Nas conversas com cidadãos nas ruas de Ipanema, bairro carioca onde vive, o noveleiro João Emanuel Carneiro tem colhido mais dúvidas que certezas. A culpa é do caráter torto dos personagens de Segundo Sol, trama das 9 da Globo assinada por Carneiro. Filho de uma empregada negra com seu patrão branco, o rebelde Roberval (Fabrício Boliveira) está correto em sua busca obsessiva por vingança contra a família que nunca o reconheceu? Ou seria só um ingrato que não vale a moqueca de arraia que come? Vinda de uma família pobretona, Rosa (Letícia Colin) — beldade que se comunica como uma metralhadora de gírias baianas — merece condenação eterna ou perdão por se prostituir para subir na vida? “As pessoas torcem contra e a favor como se conhecessem os personagens”, diz Carneiro. “Eu adoro isso.”

A celeuma central da novela é o que mais lhe dá alegria. Ao aderir a uma farsa — fingir-se de morto num acidente de avião para faturar com as vendas póstumas de discos —, o cantor de axé Beto Falcão (Emilio Dantas) cometeu um pecado irreparável ou apenas tentou uma estratégia de marketing inovadora? A estatística, segundo o que o noveleiro capta nas ruas e a Globo constatou numa pesquisa recente com donas de casa, pende a favor da esperteza: “A maioria acha que ele agiu certo porque pensou primeiro no bem-estar da família. E diz que faria igual”.

Segundo Sol veio para confundir — e essa é uma virtude. Rezam as regras não escritas do melodrama que o gênero não comporta personalidades dúbias: mocinhas e mocinhos têm de ser guerreiros sonhadores de reputação ilibada — e vilões de qualquer sexo estarão sempre perfilados, sem angústias ou remorsos, no lado escuro da Força. Mesmo quando as séries americanas puseram esse dogma em xeque ao apostar em heróis de caráter duvidoso, as novelas pareciam fadadas à divisão asséptica entre o bem e o mal. Com o sucesso de Avenida Brasil, em 2012, o próprio Carneiro mostrou que era possível injetar tons de cinza nos personagens sem melindrar a audiência. No entanto, outras tramas que se seguiram — inclusive uma de sua autoria, A Regra do Jogo, de 2015 — foram rejeitadas ao investir na dubiedade. Carneiro levou um coice da vida, mas não desistiu: agora, a pretexto de falar de personagens que ganham uma nova chance após tropeçar, ele vem promovendo um audacioso debate sobre escolhas morais no horário nobre. Praticamente todos os personagens carregam no cartório a culpa de ter fraquejado, em algum momento da vida, diante da opção entre o certo e o errado (confira o quadro). Em vez de rejeição, está havendo aprovação do público: com 32 pontos de ibope em São Paulo, Segundo Sol ostenta o melhor primeiro mês de uma novela das 9 em cinco anos.

À maneira do que fez o veterano Gilberto Braga na virada dos anos 1980 para os 1990 em novelas como Vale Tudo e O Dono do Mundo, Carneiro, em seu exame moral, não se furta de espelhar o lodaçal nacional. Laureta, a vilãzona de Adriana Esteves, cafetina e promoter, guarda influência sobre as altas-rodas de Salvador — e assim sua história lembra a de Jeany Mary Corner, que oferecia serviços assemelhados aos poderosos enrolados no escândalo do mensalão, em Brasília. O empreiteiro Severo Athayde (Odilon Wagner) — o pai que renega o filho negro, Roberval — cai em desgraça quando uma tragédia expõe os malfeitos de sua empresa. Um personagem morre com o desmoronamento da estrutura de um prédio construído com areia da praia — como se denunciou nos tempos da queda do Edifício Palace II, obra carioca feita pela empreiteira de um ex-deputado, Sérgio Naya, em 1998. Na semana passada, a conexão foi com escândalo mais recente e mais próximo do cenário da novela: descobriu-se que Athayde esconde pilhas de dinheiro ilícito em malas — assim como outro poderoso baiano real, Geddel Vieira Lima, ex-ministro do governo Temer. “Perto daqueles 51 milhões de reais, o Severo até que é modesto, não?”, diz Carneiro.

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Segundo Sol não reinventa a roda ao repercutir as maracutaias que envergonham a nação. Mas abre uma trilha nova ao passar desse enfoque macro ao micro — os dilemas morais do dia a dia. Os diferentes modos como os personagens lidam com suas escolhas são, em última instância, o tempero da novela. Nem a criatura mais identificada com o bem — a heroína Luzia (Giovanna Antonelli) — deixa de ter sua mancha no currículo. No começo da novela, ela perpetrou um homicídio culposo ao empurrar seu ex-marido bêbado e violento num precipício. Luzia matou sem querer — mas matou. Entre ela e Laureta, que ocupa a ponta oposta na escala moral da trama, há uma rica legião de gente que erra com gosto ou com imensa culpa — mas sempre escorrega, de uma forma ou de outra. Mesmo Laureta tem sentimentos, como prova sua paixonite por um boy. E ninguém abraça o jeito errado de ser com tanta voracidade quanto Giovanna Lancellotti, na pele da viborazinha juvenil Rochelle. “Bonzinho, não tem ninguém. Por isso, os personagens parecem pessoas de verdade”, diz Silvio de Abreu, coordenador de dramaturgia da Globo.

A inspiração de Carneiro é literária: o romancista americano Henry James (1843-1916). “Ele é mestre em explorar as várias camadas dos personagens”, diz. Na novela, quem exibe camadas muito loucas de contradição é Karola, a megera cômica interpretada por Deborah Secco. A moça deu golpe no cantor Beto Falcão e, ainda assim, é apaixonada por ele. Roubou friamente o filho da rival Luzia, mas exibe genuíno amor maternal. É defensora da moralidade no casamento, mas vai para a cama com o cunhado. Errar é muito humano.


A diabinha de franja

Incorreção - Giovanna, como Rochelle: racista e assassina de peixes Paulo Belote/TV Globo

Ao encarnar a patricinha e blogueira Rochelle de Segundo Sol, Giovanna Lancellotti foi avisada pelo autor: sua missão seria cabeluda. “João Emanuel deixou claro que Rochelle era uma diabinha. Ia dar trabalho”, diz a atriz. Tendo como arma uma franja que acentua seu olhar de monstrinha mimada, Giovanna pagou para ver — e agora colhe os louros. Com sua crueldade fútil e incorreção social, Rochelle é daquelas personagens secundárias que emergem para ombrear com medalhões — perto dela, a Laureta de Adriana Esteves parece uma freira.

Logo no primeiro capítulo, Rochelle matou o peixinho de aquário da irmã adotiva Manu (Luisa Arraes), com quem vive às turras. “As pessoas notaram aí a vibe da Rochelle”, afirma. Após a cena, Giovanna tranquilizou seus 6 milhões de fãs no Instagram quanto à saúde do peixe: “Era tudo computação”. Mas a personagem só foi piorando. Incriminou uma empregada para encobrir que furtara um anel. Escondeu drogas no quarto de Manu. Escancarou o racismo quando a irmã descobriu que ela arrastara a asa para seu namorado: “Você acha que eu ia ficar com um negro?”. Na nova fase de decadência da família, Rochelle não se cansa de humilhar a mãe e o pai. Ao descobrir as malas de dinheiro sujo de Severo, vai chantagear o avô.

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Aos 25 anos, Giovanna acumula personagens simpáticas em quatro novelas. Mas nada bombou tanto nas redes quanto a antipatia de Rochelle. “É ótimo quando uma atriz surpreende a gente. Saiu melhor do que a encomenda”, diz Carneiro. Para viver a vilã, ela estudou o estilo de blogueiras nordestinas. “Fui vendo e montando minha pessoinha”, conta. Giovanna tem sotaque carregado do interior paulista, mas não trai a origem em cena. Se a personagem é uma consumista capaz de roubar a mãe para comprar uma bolsa de 5 000 dólares, ela se diz comedida. “Sou bem mão de vaca. Negocio tudo o que compro.”

 

Publicado em VEJA de 27 de junho de 2018, edição nº 2588

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