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Tragédia pelo WhatsApp

A polícia suspeita que criadores de grupos no Facebook e no WhatsApp estejam por trás da onda de suicídios de adolescentes em Goiás

A polícia de Goiás já investigava a morte de três adolescentes que tinham cometido suicídio no estado quando, no dia 15 de março, Mikaio Alves Jorge, de 18 anos, decidiu procurar a delegada Sabrina Lelis para dar um depoimento aterrador. Vinte dias antes, ele havia ido ao enterro de Higor Pires Moreira, que se matara aos 15 anos de idade. À polícia, Mikaio contou que, como ele, Higor participava de um grupo virtual batizado de The H4ters (Os Odi4dores). Sua finalidade: estimular e desafiar seus integrantes a tirar a própria vida. Estudioso e descrito como um jovem carinhoso com os pais e a namorada, Higor, afirma a família, mudou de comportamento após entrar para o The H4ters. “Ficava o dia inteiro no computador e não queria mais sair com os amigos”, conta o pai, Onilton Pires Moreira. Na tarde de 21 de fevereiro, o jovem pediu à mãe para faltar à aula de inglês. Ela assentiu, mas logo depois notou que o filho estava cambaleante. Em seu quarto, encontrou seis cartelas vazias de remédios para pressão alta. Higor negou ter tomado as pílulas. Enquanto a mãe, apavorada, telefonava para o marido para pedir ajuda, Higor saiu de casa. Os pais tentaram, em vão, encontrá-lo nas redondezas ou na casa de amigos. Vinte e quatro horas depois, o menino foi achado enforcado na despensa da casa vizinha, que estava desocupada. “Estamos sem chão. A minha vida também acabou. Busco respostas e não as encontro”, diz o pai.

Os diálogos – Mensagens trocadas entre membros do The H4ters e uma das jovens que se mataram em Goiânia

Os diálogos – Mensagens trocadas entre membros do The H4ters e uma das jovens que se mataram em Goiânia (//Reprodução)

Em depoimento prestado à polícia, Ana Julia, ex-namorada de Higor, afirmou que ele se cortava com frequência e vinha falando em se matar. Antes de sair de casa, deletou todos os arquivos de seu computador, orientação comum dos grupos de estímulo ao suicídio, segundo a polícia. A primeira suspeita de que ele poderia ser alvo do The H4ters surgiu quando, em seu velório, os pais perceberam a presença de diversos adolescentes desconhecidos. Vestidos de preto, faziam selfies ao lado do caixão e tiravam fotos da sepultura. Entre os jovens estava Mikaio. “Éramos incentivados a ir aos velórios. Íamos olhar porque também pensávamos em morrer. Depois, mandávamos fotos do enterro ao grupo para provar a missão cumprida”, disse o adolescente. No mesmo dia em que Higor se matou, Gabriel Câmara, de 13 anos, também de Goiânia, jogou-se do 26º andar de um edifício de classe média alta da cidade, onde mora a avó. Ele havia sido repreendido pelos pais por ter voltado sozinho da escola. Deixou um bilhete: “Agora vou fazer a coisa certa. Tchau, gente”. A polícia ainda investiga se o menino teve contato com membros do The H4ters.

Os quatro fundadores do grupo são conhecidos pelos apelidos que usam no Facebook: Igor Akbar, Emerson Akbar, Gabriela Akbar e Saymon Akbar. Na descrição do grupo na internet, eles se dizem uma “família”. Mikaio relatou à polícia o papel de cada um: Igor é o cabeça do grupo; Emerson, o administrador; Gabriela, especialista em invadir computadores, outra atividade praticada pelo The H4ters; e Saymon, o responsável por arregimentar jovens deprimidos nas redes sociais. A delegada Sabrina, da Delegacia Estadual de Repressão a Crimes Cibernéticos de Goiás, afirmou que pedirá a apreensão dos quatro chefes do The H4ters, todos menores de idade: Igor vive em São Paulo; Gabriela, em Rondônia; Emerson, em Mato Grosso; e Saymon, no Amazonas. Seus nomes verdadeiros são mantidos em sigilo e foram obtidos mediante uma ordem judicial que obrigou o Facebook a revelar os números de celular associados às suas contas. Incentivar o suicídio é crime passível de punição, que vai de dois a seis anos de detenção.

Mudança de conduta – Antes de tirar a própria vida, Higor, de Goiânia, distanciou-se da família

Mudança de conduta – Antes de tirar a própria vida, Higor, de Goiânia, distanciou-se da família (Cristiano Mariz/VEJA)

Para a polícia de Goiás, o The H4ters também está por trás do suicídio de Karoline Tuzzin, de 14 anos. Ela se jogou do 5º andar do prédio da escola onde estudava, em Rio Verde, no interior de Goiás, em 7 de março. Em depoimento, colegas da jovem disseram que ela havia entrado para o The H4ters e frequentava seus grupos de WhatsApp. Em mensagens no celular da adolescente, a polícia achou frases de membros do grupo: “Quem quer uma corda para se suicidar?” e “Hoje é dia de suicídio. Quem começa?”.

Mikaio informou à polícia que por três vezes membros do The H4ters sugeriram que ele se matasse, aconselhando-o a tomar comprimidos e cortar os pulsos. Ele conta 87 cicatrizes nos braços. “Por maior que fosse a minha vontade de morrer, não tive coragem de me matar”, disse a VEJA. Assim como no jogo Baleia Azul, criado na Europa, e que induziu jovens brasileiros ao suicídio em 2017, os participantes do The H4ters recebem “tarefas” dos fundadores. Segundo Mikaio, Igor Akbar determina que eles invadam computadores alheios, “derrubem” o Facebook de certas pessoas e desmoralizem inimigos da organização. Se obtêm sucesso nas missões, são “promovidos” no organograma do grupo — o The H4ters tem hierarquia estrita. O posto mais alto é o de “curador”, que cabe a Igor. O mais baixo, que Mikaio ocupava, é o de “cooptador”, que se encarrega de buscar novos membros.

Vigésimo sexto andar – Gabriel se matou aos 13 anos. Pouco antes de morrer, ele se despediu (acima)

Vigésimo sexto andar – Gabriel se matou aos 13 anos. Pouco antes de morrer, ele se despediu (acima) (./.)

Na sexta-feira 23, ocorreu outra tragédia: uma quarta adolescente se matou em Goiás, também na cidade de Rio Verde. Kariny Martins, de 13 anos, via televisão em casa com a irmã mais velha quando saiu da sala rumo à cozinha. Como demorou a voltar, a irmã foi procurá-la e deparou com seu corpo pendurado a uma corda no quintal. A polícia apreendeu o computador e o celular da menina. Nas mensagens encontradas, já identificou um nome familiar: Igor Akbar.


Os sinais de perigo

Efeito rede – “Há más influências na vida real. Mas na virtual é pior”

Efeito rede – “Há más influências na vida real. Mas na virtual é pior” (Jefferson Coppola/VEJA)

Especialista em prevenção de suicídio, a psicoterapeuta Karina Okajima Fukumitsu diz que o isolamento dos jovens os deixa vulneráveis ao ataque de grupos mal-intencionados e que os jogos virtuais podem alterar a compreensão de que a morte é algo ruim e definitivo.

Por que o suicídio entre jovens pode ser estimulado pela internet? As redes sociais podem acelerar o isolamento dos jovens do mundo real, o que os deixa mais vulneráveis à influência das pessoas com quem interagem apenas virtualmente. Se uma dessas pessoas for mal-intencionada, ela terá campo livre para estimular ideias negativas e agir sem ser incomodada. A má influência também ocorre no ambiente real. Mas a escala do virtual é muito maior e o contato, mais fácil.

Há algum sinal irrefutável emitido pelos jovens que pode ser encarado como um grito de socorro? Um dos mais evidentes é a automutilação. Os jovens se cortam nos braços e nas partes do corpo que podem ser cobertas com roupas. Há também a irritabilidade excessiva e a agressividade verbal. Alguns, antes indiferentes a esportes, passam a se informar sobre atividades radicais que envolvem a possibilidade de morte. Começam também a falar com mais interesse sobre o suicídio de terceiros. Eu chamo essa fase de “morrência”, em que o jovem definha e se esvazia existencialmente. O ápice desse processo é o suicídio.

Por que jovens obedeceriam a tarefas suicidas ditadas por desconhecidos?  O adolescente busca identidade e pertencimento. O discurso desses grupos faz parecer que o suicídio é uma vitória e prova de coragem, como num jogo. A partir de 12 anos, o jovem tem consciência da morte. Mas vivemos na era dos jogos virtuais, em que a morte, mesmo violenta, pode resultar na volta do jogador, às vezes ainda mais forte. Isso compromete a compreensão desses jovens a respeito do fenômeno. Não é algo comum, mas acontece.

Publicado em VEJA de 4 de abril de 2018, edição nº 2576