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Terror na Catalunha

A tática infame de atirar uma van contra pedestres inocentes se repete, desta vez na Espanha. Entre as vítimas, há pessoas de 35 nacionalidades

A diversão e a convivência pacífica com pessoas diferentes estão entre os valores que mais enfurecem os terroristas islâmicos. Na cidade catalã de Barcelona, onde 15% da população é estrangeira, o calçadão turístico de Las Ramblas tinha essas duas coisas em abundância. O local é repleto de restaurantes e quiosques. Em quase toda a sua extensão, artistas de rua vindos de vários países apresentam quadros criativos, enquanto turistas com roupas de verão fazem selfies. É um dos lugares mais descolados do planeta. Na quinta 17, quando um furgão branco avançou pela parte destinada a pedestres em Las Ramblas, con­tavam-se muitas famílias entre as vítimas, que são de 35 nacionalidades. Não foi, portanto, um ataque direcionado especificamente à Espanha ou à Catalunha. A estratégia dos terroristas foi fazer uma ação localizada que pudesse comover o mundo todo, amplificando o terror. Treze morreram, incluindo uma belga, três alemães e um americano, e mais de 130 ficaram feridos. “O Estado Islâmico tem atacado áreas turísticas ao redor da Europa, passando de um país para outro, para disseminar o maior medo possível e provar que ainda é uma ameaça global”, diz Michael P. Scharf, da Universidade Case Western Reserve.

Faltavam dez minutos para as 5 da tarde, hora local, quando o motorista do furgão ziguezagueou por cerca de 500 metros, a partir da Praça Catalunha, atropelando quem estivesse na frente e lançando pessoas para o ar. Um vídeo da câmera de segurança do Museu Erótico da cidade, na rua do ataque, mostra o momento em que uma pessoa empurrou um carrinho de bebê para fora do caminho da van, que vinha em alta velocidade. Foi por um triz. O veículo parou pouco depois de passar pelo mercado de comida La Boqueria, onde o motorista desceu e desapareceu. O rastro de destruição se alongou por várias quadras. Por todo lado havia pedaços de roupas, pertences pessoais, corpos retorcidos e poças de sangue. Uma menina de 6 anos foi hospitalizada com hemorragia cerebral. O primeiro morto confirmado foi o espanhol Francisco Lopez Rodríguez, de 57 anos, que vivia em Rubi, próximo de Barcelona, e passeava com a família por Las Ramblas. Antes de a morte de Rodríguez ser confirmada, Raquel Lopez buscava pelo tio nas redes sociais. “Já se passaram dez horas, é desesperador, uma agonia”, escreveu a sobrinha. Uma hora e meia depois, ela compartilhou a confirmação da morte. “Já não posso continuar.”

O ataque foi reivindicado pelo grupo terrorista Estado Islâmico (EI) e seguiu a cartilha usada em outros atentados recentes na Europa, começando pelo de Nice, na festa francesa do 14 de julho do ano passado. Atacado em suas bases no Oriente Médio, o EI vem conclamando seus fiéis a usar métodos simples e tem procurado países onde há brechas de segurança. Enquanto em nações como França, Inglaterra e Alemanha a vigilância foi reforçada a ponto de atingir patamares incomuns, na Espanha a população respirava aliviada após deixar para trás anos de atentados domésticos feitos pelos separatistas bascos e o trauma das explosões simultâneas em trens organizadas por militantes islâmicos da Al Qaeda, que  mataram 192 pessoas em 11 de março de 2004, data gravada na memória de todo espanhol para sempre como o 11-M. “Como resultado de ataques terroristas, países europeus que foram atingidos recentemente intensificaram o trabalho de inteligência, o compartilhamento de informações e os esforços de contraterrorismo, tornando ataques a seus alvos mais difíceis. Então, os terroristas agora se voltaram para alvos mais vulneráveis, como a Espanha. O que eles buscam é alto valor para seus ataques e alvos vulneráveis, e Barcelona ofereceu os dois”, diz David Sheppard, especialista em prevenção de ataques terroristas da Universidade Estadual de Nova York em Albany.

Sem terreno – Pessoas homenageiam as vítimas do atentado em Barcelona e repudiam os terroristas. No destaque, civis deixam um bairro de Mossul, em março, durante ofensiva para liberar a cidade iraquiana que passou três anos sob domínio do Estado Islâmico

Sem terreno – Pessoas homenageiam as vítimas do atentado em Barcelona e repudiam os terroristas. No destaque, civis deixam um bairro de Mossul, em março, durante ofensiva para liberar a cidade iraquiana que passou três anos sob domínio do Estado Islâmico (Pascal Guyot/AFP)

Na madrugada da sexta 18, a polícia matou cinco homens a tiros em Cambrils, na costa sul de Barcelona, a 120 quilômetros do primeiro atentado. Eram suspeitos de preparar um novo ataque terrorista. Um deles, ac­redita-se, era o motorista da van branca de Las Ramblas. Segundo informações preliminares, o grupo, que circulava em um carro com cinturões de explosivos falsos, topou com uma barreira policial e começou a lançar o veículo contra pedestres. Alvejados por tiros da polícia, os terroristas desceram do carro armados com facas e foram abatidos. Uma espanhola que estava no local morreu em consequência de ferimentos, elevando para catorze o número de óbitos dos dois ataques.

Suspeita-se que o motorista da van era Moussa Oukabir, jovem de 17 anos de origem marroquina e sem antecedentes criminais. A van foi alugada em nome de seu irmão, Driss Oukabir, que foi preso e afirma ter tido seus documentos roubados. Além de Driss, a polícia prendeu três pessoas por vínculo com o ataque. A polícia também investiga uma possível ligação entre os dois ataques e uma explosão na noite da quarta 16, em Alcanar, onde foram encontradas cerca de vinte bombas de gás butano e propano. As autoridades espanholas investigam a existência de uma célula terrorista com ao menos oito envolvidos. Nenhum dos quatro detidos, três marroquinos e um espanhol com idade entre 21 e 34 anos, tinha antecedentes de atos de terrorismo.

Ataques como esses refletem a perda de espaço do EI em países como Síria e Iraque. Estima-se que a facção terrorista tenha perdido 60% do terreno que ocupava nesses dois países em relação a janeiro de 2015, incluindo a cidade de Mossul, libertada no mês passado. “Há uma nova estratégia, lançada há uns dez meses e que ganhou impulso recentemente. Quanto mais eles perdem áreas no Iraque e na Síria, mais pedem aos militantes estrangeiros que, em vez de se juntarem a eles, fiquem em seus países e cometam atos de terrorismo”, diz Craig Albert, professor de ciência política e especialista em terrorismo da Universidade Augusta, nos Estados Unidos. Outra possibilidade, se comprovado o vínculo direto da célula da Catalunha com o Estado Islâmico, é que eles façam parte de uma força especial de operações que o EI enviou para a Europa em meio ao fluxo de refugiados. “Mesmo que eles matem uma ou duas pessoas em um país da Europa, o efeito é amplificado, e eles podem ganhar mais recrutas”, diz Albert.

“Não vamos esquecer que os espanhóis são um povo unido por valores de que nos orgulhamos muito”, disse o primeiro-ministro Mariano Rajoy, que participou com o rei Felipe VI de um ato em homenagem às vítimas de Las Ramblas, na sexta-feira. Está claro que, em resposta ao terror, os catalães exibirão a fibra de sempre — e não vão se dobrar ao medo nem se render à intolerância.

Com reportagem de Luiza Queiroz

Publicado em VEJA de 23 de agosto de 2017, edição nº 2544

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