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Sempre bruxa, jamais princesa

'Eu, Tonya' segue a patinadora desde a infância até a célebre agressão à sua rival — e enche de bordoadas crença num sistema social cego a classe ou origem

Por Isabela Boscov 9 fev 2018, 06h00 • Atualizado em 4 jun 2024, 17h05
  • Em 6 de janeiro de 1994, um sujeito ligado à patinadora Tonya Harding desferiu uma bordoada na perna da principal adversária da atleta no gelo, Nancy Kerrigan, quase conseguiu tirá-la da Olimpíada de inverno daquele ano e fez de Tonya o pivô de uma novela ao vivo na imprensa. Eu, Tonya (I, Tonya, Estados Unidos, 2017), que estreia nesta quinta-feira, enche de bordoadas a noção americana de mobilidade social e a crença de que ela é cega a classe ou origem. Como o agressor de Nancy, o filme não prima pela sutileza. Mas atinge tão em cheio um nervo exposto que a crítica americana acusou o golpe: Eu, Tonya seria “complicado” — um jeito de dizer que o filme tem bons argumentos, mas estes ofendem certas sensibilidades.

    Tonya Harding, hoje com 47 anos, vem de um meio pejorativamente chamado de “white trash”, ou “lixo branco” — a camada da população branca que convive com índices terríveis de pobreza, subemprego, alcoolismo, violência doméstica e deficiência escolar. É um ambiente similar ao retratado em Três Anúncios para um Crime, no que talvez signifique que o choque da eleição de Donald Trump pelo menos despertou alguma vontade de investigar as dificuldades reais desses americanos — e Tonya ilustra bem algumas delas.

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    (Arte/VEJA)

    Aos 4 anos, a menina já se havia revelado um prodígio dos patins. Sua mãe, a garçonete LaVona (uma fustigante e magnífica Allison Janney), empenhou no treino da filha seus magérrimos recursos. E os cobrou com juros: abuso físico, emocional e psicológico eram a base de seu incentivo a Tonya (Margot Robbie, feroz no papel). Falando com o espectador, Tonya explica por que aceitava a brutalidade do primeiro marido, Jeff Gillooly (Sebastian Stan): ora, ela dá de ombros, os socos e chutes lhe pareciam a regra da normalidade.

    Tonya era um demônio sobre patins: forte, vigorosa, louca por riscos. Os juízes, porém, abaixavam suas notas — ela era o oposto da imagem que a patinação gostaria de projetar, e nenhum deles queria vê-la num pódio olímpico. Era estridente, briguenta, cafona. Era de classe baixa e, esse seu pior pecado, o demonstrava. Às vezes extravagante, e sempre envolvente, o filme do australiano Craig Gillespie segue a história policial do ataque a Nancy (até hoje a participação de Tonya no episódio é incerta) para defender a tese de que medir uma pessoa pelo que ela é, e por essa régua decidir o que ela pode ou não se tornar, é uma agressão tão violenta quanto as outras que Tonya sofreu. Na versão encarnada por Margot Robbie, Tonya ao mesmo tempo explora sua vitimização e a desafia. Para quem quer definições simples, é mesmo bem “complicado”.

    Publicado em VEJA de 14 de fevereiro de 2018, edição nº 2569

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