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Sara Winter: Não tem mais peito de fora

Ela já foi a mais barulhenta militante brasileira do Femen. Sentindo-se traída, explica por que largou o feminismo radical e se converteu ao catolicismo

Recentemente, você foi impedida de dar uma palestra na Universidade Federal Fluminense. Os ativistas dizem que você dificultou o diálogo ao entrar com seguranças armados. É verdade? Não. Entrei acompanhada por amigos que me protegem — mas, se eu tivesse condições, contrataria seguranças particulares, pois claramente preciso ser protegida desses intolerantes. Os cristãos, conservadores e pessoas inclinadas à direita política têm sido suprimidas do espaço universitário.

Você publicou um livro intitulado Vadia, Não! Sete Vezes em que Fui Traída pelo Feminismo. De onde vem a mágoa? Nada do feminismo que os movimentos de esquerda apregoam é verdade. Ninguém está interessado em ajudar quem sofreu estupro, abuso e outras formas de violência. Nas reuniões a que eu ia, quem mais falava eram as doidas que veneram a menstruação, o útero, a deusa-mãe, blá-blá-blá. Muitas meninas que, como eu, passaram por sofrimento eram usadas só para fazer manifestação. Nos tempos do Femen, chegaram a me pagar para protestar de peito de fora. Mas, apesar de tudo, ainda me considero pró-mulher.

Por que o feminismo é sempre associado à esquerda? Por causa do erro crasso da direita de opor-se a tudo o que considera de esquerda. Em nome disso, ficam dizendo, por exemplo, que assédio não existe, que é mi-mi-mi, frescura. Estão dando de bandeja pautas legítimas para o outro lado.

O catolicismo influiu no seu afastamento do feminismo? A religião foi fundamental. Fiquei grávida pela segunda vez — na primeira, abortei — e comecei a frequentar a chácara de uma senhora que dava aulas de ioga para gestantes. Lá, tinha de rezar o pai-nosso e a ave-maria, e comecei a sentir muita vontade de voltar para a igreja.

Como foi a reconciliação? Eu tinha vergonha do meu passado. Afinal, fui a menina que ficou pelada, crucificada, beijando outra mulher, em frente à Igreja da Candelária, no Rio. Na minha primeira confissão, passei quatro horas falando. O ouvido do padre devia estar pegando fogo, coitado.

Mudou completamente, então? Nem tanto. Mantenho muitos dos meus gostos. Não dispenso rock e detesto quem mete o bedelho nas minhas tatuagens. Mas até nelas estou mexendo. Esta Frida Kahlo no meu antebraço vai virar uma Nossa Senhora de Guadalupe.

 

Publicado em VEJA de 23 de maio de 2018, edição nº 2583