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Sagrada e popular

Em versões para diferentes grupos e denominações, a Bíblia alimenta um mercado livreiro vigoroso e se expande em aplicativos e edições eletrônicas

O princípio era o verbo, diz o Evangelho de São João. Mas o verbo estava em grego, hebraico e aramaico. Para chegarem às línguas modernas — entre elas, o português —, os textos sagrados que formam a Bíblia passaram por um sinuoso caminho de edições e traduções, que se estende pelos séculos e não se encerrou. É, sobretudo, uma trajetória de expansão e popularização, que agora se consolida em novos meios eletrônicos: o livro sagrado conta com inúmeras versões on-line e até aplicativos como o YouVersion, que conjugam o texto com funções de uma rede social. No Brasil, no ano passado, pelo menos 9 milhões de novas Bíblias circularam, atendendo leitores cristãos das mais variadas denominações, nos mais variados formatos — de bolso, de estudo, para jovens, para mulheres, e por aí vai. Para os que buscam não apenas a sabedoria teológica e a inspiração religiosa, mas também acesso a uma das fontes primárias da literatura e da cultura universais, há nas livrarias uma nova e cuidadosa tradução dos quatro Evangelhos, a cargo do português Frederico Lourenço, professor da Universidade de Coimbra que está se dedicando a traduzir toda a Bíblia — trabalho especializado, que vem complementar e não competir com as traduções tradicionais adotadas pelas massas de fiéis. E, embora ligada sobretudo ao mundo judaico-cristão, a Bíblia tem alcance mundial: as Sociedades Bíblicas Unidas, organização que compila dados sobre a divulgação internacional do livro sagrado, contabilizam traduções integrais em 648 línguas, que alcançam mais de 5 bilhões de leitores. O número de habitantes do planeta que, por falarem dialetos minoritários, não contam sequer com traduções parciais do livro é estimado em apenas 250 milhões. O verbo, definitivamente, está entre nós.

A tradição atribui a personagens bíblicos a autoria de alguns dos livros sagrados: Moisés teria escrito a Torá, ou, como a chamam os cristãos, o Pentateuco, coleção dos cinco primeiros livros do Antigo Testamento; Davi teria composto os Salmos; discípulos de Jesus, a história do mestre tal como relatada nos Evangelhos. Essas atribuições, porém, são na melhor das hipóteses indefinidas. A Bíblia que hoje conhecemos é uma obra de incontáveis autores anônimos, que por séculos se manteve viva e pulsante pela divulgação oral e por meio de manuscritos. Foi o primeiro livro a ser impresso pela tipografia moderna do pioneiro alemão Johannes Gutenberg, em 1450, e desde então se consolidou como um produto de massa. No Brasil, é parte de uma vigorosa indústria de livros religiosos — segmento que, segundo o Sindicato Nacional dos Editores de Livros, representou 20% do mercado livreiro nacional no ano passado, atrás apenas dos títulos didáticos (48%). Para algumas editoras evangélicas, como a Mundo Cristão e a Thomas Nelson, a Bíblia traz entre 20% e 30% da receita anual. Na católica Ave-Maria, é responsável por 60% dos resultados. A Bíblia é tipicamente vendida (às vezes, distribuída) em igrejas e templos, e por isso não consta em listas de best-sellers computados em livrarias.

Entre formatos para atender fiéis de grupos bem específicos, há no mercado até a Bíblia do Motociclista e uma para os skatistas (as diferenças estão sobretudo na decoração da capa). No campo mais conservador, mas também com uma grande variedade de tamanhos, capas e cores, vigoram as chamadas Bíblias de Estudo — calhamaços com encadernação de luxo e profusas notas de rodapé, que custam em torno de 200 reais. Em geral, é a Bíblia que o fiel tem em casa, para leituras devocionais mais aprofundadas. Aplicativos bíblicos, muitos deles gratuitos, são mais funcionais para o uso na rua e na igreja.

A popularização do texto digital afetou, sobretudo, as edições em papel mais baratas e portáteis. E a crise bateu no mercado em geral. Dos cerca de 9 milhões de Bíblias que circularam no Brasil em 2016 — o que inclui a venda da obra física, e-books, downloads de aplicativos e livros distribuídos em ações de evangelização —, 6,7 milhões vieram da Sociedade Bíblica do Brasil (SBB), que atende a maior parte do público evangélico. Nos anos anteriores, os números eram mais robustos: 7,6 milhões de exemplares em 2015 e também em 2014. A queda de 900 000 unidades doeu, mas não foi um grande abalo. Qualquer livro na casa dos milhões é um milagre no Brasil. Para fins de contraste: um dos maiores best-sellers recentes de livraria, Ágape, do padre Marcelo Rossi (não por acaso, um livro religioso), vendeu 10,3 milhões de exemplares — mas isso ao longo dos sete anos desde o seu lançamento.

EQUÍVOCO - Moisés, de Michelangelo, com chifres: a tradução correta é “raios”

EQUÍVOCO – Moisés, de Michelangelo, com chifres: a tradução correta é “raios” (Ted Spiegel/Corbis/Getty Images)

Bem mais modesta foi a circulação de Novo Testamento — Os Quatro Evangelhos, o primeiro volume de livros bíblicos traduzidos por Frederico Lourenço: 6 000 exemplares desde que a Companhia das Letras publicou a obra no Brasil, em abril. Trata-­se de um esforço raro na língua portuguesa: uma tradução crítico-histórica, preocupada não com a doutrina teológica, mas com o rigor filológico, com a maior exatidão possível de cada termo traduzido. O projeto de Lourenço — um dos convidados da Festa Literária de Paraty, que começa no dia 26 — prevê a tradução completa da Bíblia na língua grega. Inclui-se aí todo o Novo Testamento, cujos 27 livros foram compostos originalmente em grego — e que serão completados ainda neste ano com o volume Apóstolos, Epístolas, Apocalipse. Há ainda outros sete livros do Antigo Testamento escritos em grego e aceitos apenas pela Igreja Católica: Tobias, Judite, Macabeus 1 e 2, Eclesiástico, Baruc e Sabedoria de Salomão. O restante do Antigo Testamento virá da chamada Septuaginta, tradução grega usada por judeus helenizados a partir do século III a.C. Quando finalizada, será a Bíblia mais completa em português com tradução direta de textos originais — boa parte das traduções hoje usadas pelos brasileiros passou antes pelo espanhol, francês ou latim. As introduções e notas do tradutor enriquecem o conhecimento do mundo bíblico e lançam luz sobre certos termos. Uma curiosidade: consagrou-­se que a profissão de José e de Jesus foi de carpinteiro. A palavra grega téktôn, porém, significa construtor, e abrangia então uma série de atividades, da de pedreiro à de marceneiro. Tratava-se do que hoje é chamado popularmente de “faz-tudo”. Mais controverso é o episódio do evangelho de Mateus que alude aos “irmãos” de Jesus. No fim do século IV, São Jerônimo, autor da Vulgata — a tradução latina das Escrituras que por séculos foi a única autorizada pela Igreja Católica —, cravou a ideia de que a palavra grega seria vaga e assim poderia designar “primos”. Não, esclarece Lourenço na introdução, adelphoi significa apenas “irmãos”. O tema é especialmente delicado para a devoção católica à Virgem Maria: se Jesus tinha irmãos, sua mãe obviamente não se manteve sempre virgem.

Jerônimo ainda é lembrado por um tropeço pitoresco na sua tradução do Êxodo: diz que Moisés tinha “chifres” de luz sobre a cabeça ao descer do Monte Sinai com as tábuas da lei. A palavra hebraica para “chifres” também pode significar “raios”. No português atual, convencionou-se dizer que o rosto do patriarca hebreu resplandecia. Justiça seja feita ao santo autor da Vulgata: a tradução do Livro dos Livros é tarefa árdua pela extensão e pela complexidade. “A tradição pesa na tradução. Cada palavra é cheia de sentido não só a partir do original, mas das leituras que as pessoas fizeram ao longo da história”, diz Erni Seibert, diretor de comunicação e ação social da SBB.

Entre os católicos, a Bíblia mais popular e reputada é a Tradução Oficial da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. A SBB, evangélica, tem três versões populares: Nova Tradução na Linguagem de Hoje (NTLH), Almeida — Revista e Atualizada e Almeida — Revista e Corrigida. A NTLH é adotada por igrejas modernas, repletas de jovens, enquanto o tronco Almeida reina entre o público pentecostal e neopentecostal, como a gigantesca Assembleia de Deus. A tradução leva o nome de João Ferreira de Almeida, que, no século XVII, deixou a Igreja Católica, fugiu de Portugal e começou a primeira tradução do Novo Testamento para o português. Trabalhou primeiro a partir do espanhol; depois, tomou como base a versão em latim de Erasmo de Roterdã. Desde a primeira publicação do Novo Testamento de Almeida, em 1681, o texto vem sendo revisado e atualizado. “A língua muda. E a mudança faz com que o texto precise ser revisitado. Não é que um está errado e outro certo. O caso é que uma tradução atende uma geração, mas não atende outra”, diz Seibert. Embora Almeida não tenha conseguido traduzir todas as escrituras, a Bíblia que leva o seu nome é a tradução mais “clássica” que se conhece na língua de Camões.

(ARTE/VEJA)

Além da variedade de traduções em português, o Brasil conta com versões em algumas das línguas nativas, disponíveis até no app YouVersion. É uma iniciativa atacada por certos antropólogos e indigenistas, que julgam o trabalho missionário uma forma de impor aos índios uma cultura alheia. O esforço dos tradutores, porém, abarca o entendimento de sutilezas conceituais das línguas indígenas. “Quanto mais distante dois povos são, mais desafiadora a tarefa da tradução”, diz Martin Ka’egso Hery, missionário de origem alemã que participou da Bíblia em caingangue, língua da tribo indígena que leva o mesmo nome. Os conceitos linguísticos do grupo, expressivo no sul do país, foram decisivos em uma mudança relevante. O título “Antigo Testamento” foi adaptado para uma frase que, em português, seria algo como “O primeiro falar de Deus conosco”. “A palavra ‘antigo’ para o caingangue remete a algo usado, sem utilidade. Portanto, seria um exercício nada fácil para o grupo ter um livro novo, com uma mensagem atualíssima para os dias de hoje, mas com o título ‘A Palavra Velha de Deus’”, diz Ka’egso, alcunha indígena adotada pelo missionário. Segundo a SBB, incentivadora de traduções indígenas, dos mais de 180 dialetos falados em tribos no país, 39 contam com o Novo Testamento e cinco com a obra completa.

Entre adaptações, traduções e revisões, a Bíblia amplia seu público sem por isso comprometer sua mensagem. No século XVI, quando Martinho Lutero facilitou o acesso às Escrituras em versão na língua vulgar — no caso, o alemão —, a Igreja Católica proibia a leitura por leigos e só aceitava a versão latina de São Jerônimo. A progressiva liberação da Bíblia nos idiomas modernos cresceu em paralelo com uma indústria moderna — a imprensa. A popularização do texto bíblico prossegue hoje nos meios tecnológicos. As Bíblias on-line, em versões para todas as denominações cristãs, não são novidade. A ampliação dos aplicativos, porém, começa a mudar até a rotina de igrejas e templos: alguns pastores e padres já aceitam o celular em cultos e missas, pois isso permite a consulta rápida e fácil de trechos da Escritura.

De 2015 a 2016, as Bíblias digitais, entre aplicativos e e-books, apresentaram um crescimento de 390% nas versões evangélicas produzidas pela SBB. O público católico também vem se adaptando ao livro virtual. A CNBB está desenvolvendo uma versão digital, enquanto a editora Ave-Maria comemora o bom desempenho de seu e-­book. “O digital não afetou a venda do papel. Só agregou outro público, amante de tecnologia”, diz Carlos Augusto de Carvalho, gerente comercial da casa.

IRMÃOS DE JESUS? - A Virgem do Fuso, de Leonardo: Maria teve outros filhos

IRMÃOS DE JESUS? – A Virgem do Fuso, de Leonardo: Maria teve outros filhos (AKG/Divulgação)

Uma busca por “Bíblia” em lojas virtuais, como a App Store ou o Google Play, traz dezenas de opções do texto sagrado, com funcionalidades, conteúdo extra e cores variadas. Há versões infantis, com desenhos e jogos. O aplicativo mais popular é o YouVersion, que, desde seu lançamento, em 2010, teve mais de 17 milhões de downloads no Brasil. Além de seis traduções do texto da Bíblia para o português brasileiro (na versão evangélica, não constam os sete livros gregos aceitos pelos católicos no Antigo Testamento), o aplicativo oferece planos de leitura diária. Tem ferramentas de compartilhamento de versículos — ou seja, é a Bíblia das redes sociais. A criação dessa ferramenta foi da Life.Church, organização evangélica americana que busca inovação tecnológica. “Percebemos um grande engajamento dos usuários brasileiros com o aplicativo”, celebra o pastor Bob­by Gruenewald, fundador do movimento. “Por dia, são completados em torno de 5 000 planos de leitura e lidos ou ouvidos mais de 2,5 milhões de capítulos em português.”

Nos Estados Unidos, há até uma Bíblia LGBT. A Queen James Bible — alusão à tradução mais canônica em inglês, a King James — traz na capa uma cruz com as cores do arco-íris, símbolo gay. Os poucos versículos que condenam a homossexualidade foram alterados, para furor de cristãos mais conservadores. Entre revisões como essa, atreladas às causas de minorias, popularizações por meios tecnológicos e revisões críticas como a tradução de Frederico Lourenço, atesta-se um fato: a Bíblia é um livro inesgotável.

Do pergaminho ao celular

O longo trajeto do maior best-seller da história, da Antiguidade até os dias de hoje


Antigo Testamento
O compilado de livros hebraicos que vai de Gênesis a Malaquias era organizado pelos hebreus em 24 partes, que se tornaram 39 no cânone cristão. A versão católica tem mais sete livros, escritos em grego. A produção desses livros vai de 1400 a.C. a 400 a.C.


Novo Testamento
Divisão que vai dos Evangelhos, que narram a vida de Jesus, ao Apocalipse. São 27 livros, escritos originalmente em grego, produzidos entre 50 d.C. e 90 d.C.


Septuaginta

(AKG/Bible Land Pictures/Album/Fotoarena)

É a tradução em grego da Bíblia Hebraica, utilizada pelos judeus helenizados. Iniciada no século III a.C., a versão teria sido feita por 72 estudiosos judeus, em Alexandria — daí seu nome, que quer dizer “dos setenta”. Foi o texto consultado pelos cristãos primitivos, entre eles São Paulo


Vulgata

(AKG/Bible Land Pictures/Album/Fotoarena)

São Jerônimo foi o encarregado de verter as Escrituras dos originais para o latim, no fim do século IV, 200 anos após a adoção oficial da língua pela Igreja romana. Foi o primeiro trabalho a ser impresso por Gutenberg, em 1450, e a única versão autorizada pela Igreja Católica até o século XVIII

(Museu de Berlim/Divulgação)


Em português
Em 1320, o rei Dinis I de Portugal pediu a estudiosos os vinte capítulos que abrem o livro do Gênesis em sua língua natal. O trecho é considerado o contato primário do texto sagrado com o mundo lusófono


Martinho Lutero

(Ullstein Bild/Getty Images)

O líder da Reforma Protestante traduziu a Bíblia para o alemão em linguagem acessível. Publicou o Novo Testamento em 1522 e o Antigo doze anos depois. Não foi a primeira versão germânica, mas se tornou a mais popular


Bíblia King James

(British Museum/Divulgação)

Foi a tradução encomendada pelo rei britânico James I, publicada em 1611. Ao lado da obra contemporânea de William Shakespeare, é tida como uma pedra fundamental do inglês moderno


Ferreira de Almeida
O português João Ferreira de Almeida fez a tradução protestante da Bíblia para a língua de seu país. Finalizou o Novo Testamento em 1645, mas refez o trabalho anos mais tarde. Morreu em 1691 sem terminar o Antigo Testamento, tarefa que caberia a um pastor holandês


Oriente

(Britsh Museum/Divulgação)

No começo do século XIX, o missionário inglês William Carey realizou as primeiras traduções orientais, ao verter as Escrituras para dialetos falados na Índia, como bengali, sânscrito e marati. Em 1887, elas ganharam versões em coreano e japonês


Abertura católica
Em 1943, o papa Pio XII mudou o discurso da Igreja Católica com a encíclica Divino Afflante Spiritu, em que incentivava a tradução da Bíblia a partir das línguas originais, sem o filtro da Vulgata


Linguagem de hoje
Para acompanhar o dinamismo da língua, novas traduções surgiram. As duas mais populares no Brasil, Nova Tradução na Linguagem de Hoje (NTLH) e Nova Versão Internacional (NVI), chegaram ao mercado em 2000 com o propósito de facilitar a leitura


Web e app

(Life.Church/Divulgação)

Os aplicativos e a internet mudaram de vez o consumo da Bíblia. Uma rápida pesquisa no Google oferece como resultado desde os textos da Vulgata até diferentes versões do português, além de muitas outras línguas — e suas particularidades


“O texto mais profundo, de qualquer época ou língua”

SEM DOUTRINA - Frederico Lourenço: tradução crítico-histórica, não teológica

SEM DOUTRINA – Frederico Lourenço: tradução crítico-histórica, não teológica (Acervo pessoal/Divulgação)

Professor de letras da Universidade de Coimbra, o português Frederico Lourenço está traduzindo toda a Bíblia grega para o português — no Brasil, a Companhia das Letras já lançou o volume com os quatro Evangelhos. Nesta entrevista ao editor Jerônimo Teixeira, ele fala dos desafios de uma tradução crítica do texto sagrado.

Seu trabalho tem suscitado reações de religiosos, teólogos, membros de igrejas?  Meu trabalho é 100% não confessional. Não se trata de uma Bíblia para ler na igreja. Por isso seus pressupostos não são católicos nem protestantes: são crítico-históricos. É importante haver traduções da Bíblia que fomentem seu estudo histórico. É claro que ­isso implica entrar em desacordo com as convenções eclesiásticas, tanto católicas quanto protestantes, de que o estudo da Bíblia só pode ser teológico, mas é inevitável.

A Bíblia tem, no mundo lusófono, a merecida apreciação literária? Em Portugal, as pessoas que mais leem a Bíblia são protestantes. Mas julgo que começa a haver uma sensibilização cada vez maior em relação ao interesse histórico e literário da Bíblia. Pelo que me é dado perceber, no Brasil todas as temáticas relacionadas com a Bíblia suscitam o interesse e o entusiasmo de todo gênero de leitor. A tradução de João Ferreira de Almeida é mais lida no Brasil do que em Portugal.

Antes de se dedicar à Bíblia, o senhor traduziu a Ilíada e a Odisseia, os épicos de Homero. Como compara os desafios desses diferentes trabalhos?  Parece-me que os poemas homéricos são mais homogêneos no seu estilo e na sua linguagem. A Bíblia grega contém oitenta livros, e todos eles levantam problemas de tradução diferentes, pois a linguagem é também diferente. O grego evoluiu nos 800 anos que separam Homero do Novo Testamento, mas continuou a ser grego. A própria palavra euaggélion (da qual vem “evangelho”) já ocorre na Odisseia, naturalmente noutro sentido. O conhecimento que temos de papiros não literários dos 100 anos anteriores ao nascimento de Jesus nos mostra que o grego do Novo Testamento corresponde ao grego falado na época. Isso contrasta com a linguagem de Homero, uma mistura artificial de vários dialetos gregos que nunca foi falada por ninguém.

O senhor diz, na apresentação do Novo Testamento, que há passagens em que não é mais possível saber exatamente o que está sendo dito. É assim porque se trata de uma obra escrita há dois milênios ou porque os evangelistas eram deliberadamente obscuros? Não me parece que a obscuridade tenha sido objetivo dos evangelistas: penso que eles colocaram como finalidade ser claros. As nossas incertezas podem incidir no uso de determinadas palavras. O que significa, ao certo, anámnésis, colocada na boca de Jesus por Lucas e por Paulo? Significa “memória”, “rememoração”, “reminiscência”? É uma palavra cheia de ressonâncias na filosofia grega anterior a Lucas. Mas ela tem algo a ver com esse sentido anterior? Outras vezes, a construção das frases em grego é tão sintética que temos de subentender palavras que não estão lá. Uma marca da minha tradução é que todas as palavras subentendidas estão assinaladas, e não misturadas com as palavras que estão explicitamente no texto grego.

Alguns estudiosos falam de uma espécie de evangelho perdido, um texto anterior aos quatro conhecidos, que teria sido fonte de alguns deles. Essa ideia lhe parece plausível? Sim, parece-me plausível a existência hipotética de uma fonte em que Mateus e Lucas encontraram o material que têm em comum, quando esse material não deriva de Marcos. É provável que essa fonte tenha existido, mas não podemos ter certeza absoluta. ­Para mim, um dos maiores fascínios a propósito da escrita dos Evangelhos é que são muitas as teorias possíveis, mas quase nenhumas as certezas.

A arqueologia pode trazer novidades para o estudo da Bíblia? Sou bastante otimista em relação à possibilidade da descoberta de algum novo papiro que nos aproxime mais do período em que foram escritos os livros do Novo Testamento. Temos papiros importantes do século III e alguns fragmentos datados no século II. Seria extraordinário se se descobrisse um papiro completo de um dos Evangelhos de inícios do século II.

Qual sua passagem mais cara dos quatro Evangelhos — aquela que o senhor mais gosta de reler, ou aquela que traduziu com mais carinho?  Todo o Evangelho de João me encanta e deslumbra. Talvez a parte desse texto que mais me toca seja o Capítulo 15. Mas é difícil escolher, uma vez que qualquer um dos quatro Evangelhos é para mim o mais precioso e profundo texto que conheço, de qualquer época e em qualquer língua.

 

Publicado em VEJA de 12 de julho de 2017, edição nº 2538

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