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Relações carnais

Júnior Friboi deixou a JBS, aventurou-se na política e voltou para o mercado ao comprar um grande frigorífico. Mas o governo achou que havia algo errado

Por Bianca Alvarenga 20 out 2017, 06h00

Afastado do comando da JBS há uma década, José Batista Júnior, o Júnior Friboi, primogênito da família, passa ao largo dos escândalos que envolvem a empresa. Seus irmãos mais novos, Wesley e Joesley, assumiram a liderança dos frigoríficos e capitanearam a transformação do grupo na maior companhia de processamento de carnes do mundo — ao custo, sabe-se hoje, da distribuição de propinas em troca de benefícios de todos os tipos. Na semana passada, o nome do primogênito voltou à cena. A JBJ, empresa fundada por ele, havia comprado o frigorífico Mataboi em 2014, mas o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), em sessão na quarta-feira 18, decidiu vetar o negócio. A justificativa: apesar de não haver um elo oficial entre a JBS e a JBJ, existe a possibilidade de a relação entre os irmãos Batista prejudicar a competição. A JBS já é grande demais. O Cade deu trinta dias para que a operação seja desfeita. A JBJ vai recorrer.

Enquanto Wesley e Joesley faziam e aconteciam, Júnior vendeu suas ações na JBS e filiou-se ao PMDB, chapa que ele acreditava ser capaz de alçá-lo ao posto de governador de Goiás na disputa de 2014. Às vésperas de ele virar candidato, o partido indicou outro nome. Rejeitado, Júnior retornou ao mercado e fundou a JBJ. A empresa dedicava-se à criação de animais em fazendas de Goiás, Tocantins e São Paulo. O quadro mudou quando decidiu comprar o Mataboi. Ele dizia que criaria uma segunda JBS. Com quase setenta anos, o Mataboi é o mais antigo frigorífico em atividade do Brasil. Trata-se do quarto maior abatedor de bois e também do quarto maior exportador de carnes — perde para JBS, Marfrig e Minerva.

No fim de 2014, o Mataboi passou por dias difíceis e quase quebrou. Os herdeiros dos fundadores, de uma tradicional família do Triângulo Mineiro, puseram a empresa à venda. Mas essa não é uma tarefa fácil no mercado de carnes. As três grandes líderes são muito maiores que todas as outras e, para evitar que monopolizem o mercado, não podem sair comprando os rivais. “A JBS não pode fazer aquisições por causa do Cade. Mas eu posso”, gabou-se Júnior. Fechou o negócio por um valor estimado em 200 milhões de reais. Impetuoso, injetou outros 260 milhões de reais para equalizar dívidas. As atividades de pecuária do empresário faturavam anualmente 75 milhões de reais. No ano passado, o faturamento do Mataboi atingiu mais de 2 bilhões de reais.

Entre os pecuaristas, sempre pairou a desconfiança de que Júnior contou desde o início com o respaldo dos irmãos. O empresário mantém distância da gestão do Mataboi, tendo delegado a tarefa a José Augusto de Carvalho Junior, executivo egresso da JBS. “Vejo o Júnior uma ou duas vezes por mês. Ele prefere manter a postura de acionista”, afirma Carvalho. Produtores de Araguari, onde fica o principal frigorífico do Mataboi, dizem que Júnior é uma figura rara naquelas paragens. Já Wesley e Joesley são frequentadores assíduos e foram vistos em encontros com os antigos donos do Mataboi. Velada, mas firme como nó de vaqueiro, a proximidade entre os irmãos foi a razão para o Cade vetar a compra. O parecer do relator apontou eventos que reforçam o elo. José Batista Sobrinho, o patriarca, chegou a ser acionista da JBJ. No ano passado, em meio às investigações da Operação Greenfield, um juiz determinou o afastamento de Wesley e Joesley da JBS. E quem assumiu a presidência, provisoriamente? Ele mesmo: Júnior Friboi. Como se vê, são relações carnais.

Publicado em VEJA de 25 de outubro de 2017, edição nº 2553

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