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Reis da balada global

Na trilha do goiano Alok, que embala chineses, americanos e europeus nas pistas, uma nova safra de artistas brasileiros aventura-se na música eletrônica

Por Sérgio Martins Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO Atualizado em 9 mar 2018, 06h00 - Publicado em 9 mar 2018, 06h00

De longe, no ambiente confuso da exclusivíssima festa paulistana, o animal parecia um cachorro. Mas, ao fazer um carinho na cabeça do bicho, Alok — hoje o mais requisitado DJ brasileiro — constatou que era uma cabra. A noite ainda guardava outros elementos dignos de um filme onírico de Federico Fellini. No meio da festa, um macaco puxava uma lhama, presa a uma coleira. E de repente Mick Jagger aparece diante de Alok, para pedir a colaboração do DJ no remix da música que estava para lançar. “Pensei até que eu tinha tomado um ácido”, diz Alok. Não, não era uma alucinação provocada pelo LSD. A festa, afinal, era para celebrar o aniversário de 18 anos de Lucas, o filho brasileiro de Jagger, em maio do ano passado. E o cantor dos Rolling Stones realmente aproveitou a ocasião para requisitar os préstimos de Alok. No dia seguinte, mandou um e-mail para o DJ, com todos os canais de voz de Gotta Get a Grip, faixa de seu disco-solo, e hoje o remix pode ser ouvido nas melhores plataformas de streaming. Bom entendedor do mercado, o veterano Jagger conhece o valor de um nome da nova música eletrônica para manter seu trabalho atualizado. Alok pertence a uma casta privilegiada do gênero, cujos expoentes são hoje comparáveis, em fama e faturamento, aos monstros do rock dos anos 60 e 70 (entre os quais, é claro, os Rolling Stones).

“Garotos de 15 anos não querem mais ser Mick Jagger. Preferem ser Calvin Harris, que no ano passado faturou 48 milhões de dólares”, diz Sandro Horta, DJ e proprietário da Plusnetwork, agência que trabalha com grandes nomes do cenário eletrônico.

VERTENTE CARIOCA – Dennis: ele começou em festas de periferia e hoje faz sucesso com o funk do Rio — a modalidade brasileira do eletrônico (Laílson Santos/VEJA)

O Brasil é um terreno fértil para a música eletrônica. Em 2012, um estudo realizado pelo Amsterdam Dance Event, a maior conferência de música eletrônica do mundo, revelou que o país era o segundo maior consumidor do gênero no mundo — só perdia para os Estados Unidos. A pesquisa nunca foi atualizada, mas é seguro dizer que o mercado nacional se manteve aquecido nesses seis anos. A Brazil Music Conference, dedicada ao mercado latino-americano de dance music, levantou mais recentemente o perfil dos brasileiros que consomem música eletrônica: jovens, na faixa dos 18 aos 24 anos, e com boa escolaridade (69% cursaram uma faculdade). A distribuição entre os sexos é equilibrada, com ligeira vantagem para os homens (52%). Não é um público tão amplo quanto o do sertanejo, mas tem poder aquisitivo e, por isso, ganha a atenção da indústria fonográfica. Três gravadoras possuem um selo especializado no gênero: Sony, Universal e Som Livre.

Há pelo menos dois festivais de impacto dedicados a esse universo: o Ultra, que estreou em São Paulo, teve duas edições no Rio e neste ano retorna à capital paulista; e o XXXPerience, pioneiro das festas open air — a versão “gourmetizada” das raves dos anos 90 —, que circula por várias cidades. E a música eletrônica vem ocupando espaços que não são tradicionalmente seus. O Lollapalooza, festival dedicado ao rock alternativo, tem aumentado a participação de DJs em sua escalação, e neste ano trará Alok e Jetlag. A imagem do DJ também mudou: “A música eletrônica era vista como coisa de gente drogada e transviada”, diz Claudia Assef, jornalista, autora de Todo DJ Já Sambou, o primeiro livro dedicado ao universo eletrônico brasileiro. “Hoje vemos DJs, como Alok e Vintage Culture, que podem sentar na sala de qualquer família brasileira — são os genros ideais.”

COUNTRY MODERNIZADO - Bruno Martini: ex-parceiro de Alok, no ano passado ele lançou ‘Road’, em colaboração com o reputado produtor americano Timbaland (Laílson Santos/VEJA)

Alok é atualmente o número 1 entre os DJs brasileiros. Está associado ao house, uma vertente da música eletrônica que tem mais apelo junto aos não iniciados no gênero — com ecos do soul e da disco music e predomínio dos vocais, afasta-se do experimentalismo na direção do pop. A ligação de Alok com a música vem de casa: ele é filho de DJs (os pais organizavam o Universo Paralello, open air dedicada a um subgênero mais pesado e frenético, o psy trance). Alok começou tocando com o irmão, Bhaskar (não são nomes artísticos: foram inspirados nas doutrinas do guru indiano Osho, de quem seus pais eram devotos). Há dois anos, já sem o irmão, lançou o single Hear Me Now, em parceria com o DJ e instrumentista Bruno Martini e com o cantor Zeeba. “A música tinha um jeito de rock alternativo, mas ganhou um pique dançante com a chegada do Alok”, diz Zeeba. Com uma batida suave e um assobio melodioso em momentos-chave da canção, Hear Me Now contradiz a desgastada mas renitente ideia de que música eletrônica é o império do bate-estaca. O sucesso da faixa alavancou a carreira do trio. No fim do ano passado, Bruno Martini lançou Road, uma mistura de country com música eletrônica, em colaboração com o produtor americano Timbaland — o mesmo de Justin Timberlake. Zeeba prepara seu álbum de estreia. E Alok, o nome principal de Hear Me Now, tornou-se um gigante internacional.

Goiano radicado em São Paulo, Alok anima festas e toca em festivais nos Estados Unidos, Itália, Espanha e Inglaterra. É amado na China, onde passou mais de um mês em 2017. Seu cachê para festas particulares ou de empresas fica na média de 200 000 reais. É o queridinho de celebridades como Neymar e Marina Ruy Barbosa. E agencia outros DJs, como Selva e Liu.

MARCA DE PRESTÍGIO - Nato Medrado: o único brasileiro a lançar um disco pelo selo do holandês Armin van Buuren, uma referência mundial do universo eletrônico (Laílson Santos/VEJA)

Graças a suas melodias assobiáveis, a house music é o estilo mais popular no cenário eletrônico brasileiro. Na trilha de Alok, despontam DJs como o sul-mato-grossense Vintage Culture e promessas como os paulistas Nato Medrado e Juliana Barbosa. Medrado assinou contrato com o Armada, selo do holandês Armin van Buuren, uma referência para DJs de todo o mundo, e foi lançado no Brasil pela Som Livre. Juliana foi caloura mirim do Programa Raul Gil (sonhava em ser uma nova Sandy), trabalhou como modelo e há dez anos vislumbrou uma carreira como DJ e cantora. Os dois ainda estão crescendo no mercado: Juliana faz em torno de 15 000 por festa, e Nato Medrado fica em modestos 3 000.

Se há alguém que pode rivalizar com Alok é o carioca Dennis. O Baile do Dennis, a festa que ele promove, pode custar até 200 000 reais e reunir 20 000 pessoas. Ele não segue a cartilha da house ou da dance music: sua especialidade é o funk de sua cidade natal. Nascido na periferia do Rio, iniciou-se nos pickups organizando bailes de produção amadora, até cair nas graças do grupo de festas Furacão 2000. Trabalhou com os MCs mais célebres da casa, como Bonde do Tigrão e Tati Quebra Barraco, até lançar-se como empresário da própria festa, há cinco anos. “Eu quero que o funk carioca estoure mundialmente tal e qual o reggaeton”, diz. Por ora, são só planos: ao contrário de Alok, Dennis ainda não desbravou uma carreira internacional.

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E ELA TAMBÉM CANTA - Juliana Barbosa: a ex-modelo já quis seguir os passos de Sandy — mas encontrou seu lugar na dance music (Laílson Santos/VEJA)

A música eletrônica já não é mais uma cultura de gueto ou “tribo”, como foi no tempo das raves clandestinas. Sua conversão às massas propiciou colaborações entre DJs célebres e artistas de outros gêneros. O francês David Guetta, por exemplo, já se uniu à luxuriosa Rihanna, e o duo eletrônico Chainsmokers já gravou com Chris Martin, o vocalista enjoadinho do Coldplay. No Brasil, surge uma curiosa simbiose entre o eletrônico e o sertanejo. Dennis fez um funk sofrência acompanhado pela dupla Maiara & Maraísa e por Marília Mendonça, e Alok lançou Paga de Solteiro Feliz, um house-­reggaeton com as vozes de Simone & Simaria. Aliás, é cada vez mais comum a presença de DJs em festivais de música sertaneja. Kako Perroy, um dos principais empresários do entretenimento brasileiro, vê um parentesco entre a música de origem caipira (cada vez mais longínqua, é verdade) e o som de pickups e sintetizadores: “São gêneros para jovens globalizados, que querem pura e simplesmente se divertir”.

A atual geração de DJs brasileiros conta com antecessores de peso, como Marky, um mestre do drum’n’bass, a vertente eletrônica mais “quebrada” e próxima do reggae, e Gui Boratto (“uma lenda viva”, rasga-se Alok), que já remixou músicas de artistas como Massive Attack e Pet Shop Boys. Esses dois paulistanos são figuras de outro patamar criativo e se tornaram referência para seus pares em todo o mundo. Alok encontrou na house um gênero menos exigente e mais popular; Dennis buscou o mesmo no funk (que o impagável Mr. Catra já definiu como a música eletrônica do Brasil). As festas dos novos DJs são mais espetaculares, e eles não se limitam a ocupar o lugar atrás dos equipamentos eletrônicos. Alok introduz seu set numa plataforma que se assemelha à nave do Super-­Homem; Dennis faz espalhafato com extintores de incêndio; Juliana costuma cantar no meio do público; e Nato Medrado até faz solos de guitarra não muito típicos da dance music. “Somos pop”, diz Medrado, definindo o novo som eletrônico made in Brazil: cabe de tudo para chegar ao sucesso.

Publicado em VEJA de 14 de março de 2018, edição nº 2573

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